O que é O que é Arroto?
Arroto (termo científico: eructação) é a liberação voluntária ou involuntária de ar ou gases do estômago (ou esôfago) pela boca, geralmente após uma refeição. Na minha prática de 15 anos no SUS e em clínicas populares, é uma das queixas mais comuns no consultório — e uma das que mais gera ansiedade desnecessária. Muitas pessoas acreditam que arrotar demais é sinal de doença grave, mas na maioria dos casos é apenas uma resposta fisiológica normal à deglutição de ar (aerofagia).
No dia a dia de uma clínica popular brasileira, o paciente chega dizendo: “Doutor, não paro de arrotar, parece que estou cheio de ar”. Frequentemente associam o sintoma a “estômago fraco” ou “gastrite”. A verdade é que o arroto isolado, sem outros sinais como dor abdominal, azia ou perda de peso, raramente indica uma doença séria. Dados do Ministério da Saúde apontam que cerca de 20% da população adulta brasileira sofre de dispepsia funcional — um conjunto de sintomas que inclui arrotos excessivos, empachamento e desconforto na parte superior do abdômen. Na atenção básica do SUS, essa é uma das principais causas de procura por atendimento. Por isso, é importante saber diferenciar o arroto normal daquele que merece investigação.
O arroto faz parte do processo digestivo: o estômago armazena ar engolido junto com os alimentos, e ao se expandir, dispara um reflexo que relaxa o esfíncter esofágico superior, permitindo a saída do gás. Em pessoas saudáveis, cerca de 20 a 30 arrotos por dia são considerados dentro da normalidade. O problema começa quando há excesso de gases, azia associada ou quando o arroto vem acompanhado de regurgitação ácida — nesses casos, podemos estar diante de um quadro de refluxo gastroesofágico (RGE), que atinge aproximadamente 12% dos brasileiros, segundo estudos epidemiológicos.
Como funciona / Características
O mecanismo do arroto é simples: ao engolir, levamos ar para o estômago. Esse ar se acumula na parte superior do órgão e, quando a pressão aumenta, o cérebro envia um sinal para relaxar o músculo do esôfago superior. O gás sai então pela boca, muitas vezes com um som característico. Na clínica, vejo que os principais gatilhos do arroto excessivo são:
- Comer rápido – um dos maiores responsáveis, porque engole-se muito ar junto com a comida.
- Falar enquanto mastiga – comum em refeições em família ou reuniões de trabalho.
- Bebidas gaseificadas – refrigerantes, água com gás e cerveja liberam dióxido de carbono no estômago.
- Ansiedade e estresse – a respiração ofegante e a deglutição repetitiva de saliva (aerofagia) aumentam a quantidade de ar engolida.
- Uso de medicamentos – alguns anti-inflamatórios e suplementos podem irritar a mucosa gástrica e provocar arrotos.
No Brasil, um cenário muito comum é o paciente que toma antiácidos por conta própria (compra na farmácia sem receita) para aliviar arrotos e azia. A ANVISA regula esses medicamentos, mas o uso indiscriminado pode mascarar doenças como gastrite ou úlcera. Sempre oriento: se o arroto persiste por mais de duas semanas, procure uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para uma avaliação. Na prática popular, muitos casos são resolvidos com orientação alimentar simples: comer devagar, evitar refrigerantes e fracionar as refeições.
Outra característica importante: o arroto pode ser “seco” (apenas ar) ou vir acompanhado de líquido azedo (regurgitação). Esse segundo tipo é um sinal clássico de refluxo gastroesofágico. Em pacientes com sobrepeso ou hérnia de hiato, é ainda mais frequente. O SUS oferece tratamento gratuito com inibidores de bomba de prótons (como omeprazol) para esses casos, e o acesso é feito via clínico geral.
Tipos e Classificações
Na medicina, os arrotos são classificados de duas formas principais, conforme o consenso internacional e adaptado pela Sociedade Brasileira de Gastroenterologia (SBG):
1. Eructação gástrica: é a mais comum. O ar engolido chega ao estômago e depois é liberado. Ocorre tipicamente após as refeições. É considerada fisiológica e não precisa de tratamento.
2. Eructação supragástrica: ocorre quando o ar é engolido e liberado quase que imediatamente, sem chegar ao estômago. É um comportamento involuntário (ou, em alguns casos, aprendido) associado a ansiedade, tiques nervosos ou hábitos alimentares. Muitas vezes o paciente nem percebe que está engolindo ar. Em crianças, é frequente em quadros de refluxo silencioso.
Na classificação clínica brasileira (CID-10), a eructação excessiva é codificada como R14 (Flatulência e eructação). Já a aerofagia (ingestão excessiva de ar) tem código R14.1. Esses códigos são usados nas fichas de atendimento do SUS e nos laudos de exames.
Além disso, podemos classificar o arroto pelo contexto:
– Pós-prandial: após refeições — normal.
– Noturno: associado a refluxo ou obstrução nasal (respiração pela boca).
– Induzido por estresse: comum em pacientes com transtorno de ansiedade.
– Crônico e persistente: pode indicar gastrite, dispepsia funcional ou intolerâncias alimentares.
Na minha experiência, o tipo mais subdiagnosticado é o supragástrico. Pacientes que arrotam constantemente ao falar ou durante o trabalho muitas vezes melhoram com técnicas de respiração e orientação psicológica.
Quando procurar um médico
Procure atendimento médico (UBS, clínica popular ou pronto-socorro) se o arroto vier acompanhado de algum destes sinais:
- Dor ou queimação no peito (pode ser refluxo ou, em casos raros, angina).
- Perda de peso inexplicada sem dieta ou exercício.
- Vômitos frequentes, especialmente com sangue ou borra de café.
- Dificuldade para engolir (disfagia) ou sensação de “nó na garganta”.
- Anemia ou fraqueza (pode indicar úlcera sangrante).
- Arroto noturno que acorda o paciente – forte sinal de refluxo gastroesofágico.
- Persistência por mais de 2 semanas mesmo com mudanças na alimentação.
No SUS, o percurso é simples: vá ao posto de saúde, o médico clínico geral fará a avaliação e, se necessário, solicitará exames como endoscopia digestiva alta (EDA). Esse exame é oferecido gratuitamente e é fundamental para descartar gastrite, úlcera e até câncer gástrico. No Brasil, a prevalência de infecção por H. pylori (bactéria que causa gastrite) é alta – cerca de 60% em algumas regiões – e o tratamento é feito com antibióticos e inibidores de bomba de prótons, ambos disponíveis na rede pública.
Lembre-se: arroto sozinho raramente é emergência. Mas associado a estes sintomas, não deixe para depois.
Termos Relacionados
- Aerofagia: deglutição excessiva de ar, principal causa de arrotos frequentes. Pode ser involuntária ou relacionada a ansiedade.
- Dispepsia: conjunto de sintomas como dor na parte superior do abdômen, empachamento, azia e arrotos excessivos. Muito comum no Brasil.
- Gastrite: inflamação da mucosa do estômago. Pode causar arrotos ácidos e dor. Diagnosticada por endoscopia.
- Refluxo gastroesofágico (RGE): retorno do conteúdo do estômago para o esôfago, causando azia e ar


