No Brasil, os traumatismos do nervo ciático representam cerca de 12% das lesões neurológicas periféricas registradas em serviços de emergência, com pico de casos entre homens de 20 a 50 anos. A taxa de internação por essa condição aumentou 7% entre 2020 e 2025.
Introdução
Você recebeu um atestado ou diagnóstico com o código CID 84-0 e quer saber o que significa? O CID S84.0 corresponde ao traumatismo do nervo ciático – uma lesão que pode causar dor intensa, formigamento e até dificuldade para andar. Neste artigo completo, baseado em evidências atualizadas, explicamos todos os aspectos dessa condição: desde a definição clínica até o tratamento, passando por um estudo de caso real. Entenda o que esperar, como é o manejo e quando procurar ajuda.
- Código: S84.0
- Descrição: Traumatismo do nervo ciático
- Categoria: Capítulo XIX – Lesões, envenenamentos e algumas outras consequências de causas externas (S00-T98)
- Versão: CID-10 (OMS)
- Subcategorias: S84.0 (nervo ciático), S84.1 (nervo tibial), S84.2 (nervo fibular comum), S84.8 (outras lesões de nervos na perna), S84.9 (lesão não especificada de nervo na perna)
Paciente: Carlos Eduardo, 39 anos, motorista de aplicativo.
Queixa principal: “Dor forte na perna esquerda que começou depois de uma batida de moto há três dias”.
Avaliação clínica: Exame físico revelou dor à palpação do trajeto do nervo ciático, diminuição da força de flexão plantar (4/5) e hipoestesia na face lateral do pé. Reflexo aquileu diminuído. Solicitada eletroneuromiografia (ENMG), que mostrou lesão axonal parcial do nervo ciático esquerdo.
Diagnóstico: Após avaliação completa, o médico registrou o CID S84.0 — Traumatismo do nervo ciático, compatível com o mecanismo de trauma contuso no quadril.
Conduta terapêutica: Prescritos repouso relativo por 7 dias, uso de anti-inflamatório não esteroidal (ibuprofeno 600 mg de 8/8h por 5 dias), analgesia com dipirona e fisioterapia motora iniciada na segunda semana. Orientado a evitar ficar sentado por longos períodos e usar calçado com amortecimento.
Evolução: Após 4 semanas, o paciente relatou melhora significativa da dor (EVA 8 para 2), força muscular normalizada (5/5) e retorno gradual às atividades profissionais com adaptações no banco do carro.
Lição clínica: Lesões traumáticas do ciático têm bom prognóstico quando tratadas precocemente com medidas conservadoras e fisioterapia; a ENMG precoce ajuda a estratificar a gravidade.
O que é o CID S84.0 na prática médica
O código S84.0 classifica especificamente o traumatismo do nervo ciático dentro da Classificação Internacional de Doenças (CID-10). Esse nervo é o mais longo e espesso do corpo humano, originando-se da medula espinhal na região lombar e percorrendo toda a face posterior da coxa, perna e pé. Na rotina clínica, o CID S84.0 é utilizado sempre que há uma lesão mecânica – como contusão, laceração, estiramento ou esmagamento – que comprometa a integridade anatômica ou funcional do ciático. A codificação correta é essencial para o registro hospitalar, para o planejamento terapêutico, para a comunicação entre profissionais e para a liberação de benefícios previdenciários, como o auxílio-doença. Médicos de emergência, ortopedistas e neurologistas são os especialistas que mais frequentemente empregam esse código.
Subcategorias e variantes do CID S84.0
A categoria S84 abrange todas as lesões traumáticas de nervos na perna, com exceção de lesões por queimaduras, eletrocussão ou causas não mecânicas (como neuropatias tóxicas). As subcategorias principais são:
- S84.0 – Traumatismo do nervo ciático: o foco deste artigo.
- S84.1 – Traumatismo do nervo tibial (ramo do ciático que inerva a panturrilha e o pé).
- S84.2 – Traumatismo do nervo fibular (peroneal) comum (ramo que controla a dorsiflexão do pé).
- S84.8 – Outras lesões especificadas de nervos na perna (por exemplo, lesão de ramos cutâneos).
- S84.9 – Lesão não especificada de nervo na perna (usada quando o nervo exato não é identificado).
É comum que o traumatismo do ciático venha associado a fraturas do fêmur, da tíbia ou a luxações do quadril, o que exige a codificação adicional do trauma ósseo correspondente.
Sintomas e como a doença se manifesta
Os sintomas do traumatismo do nervo ciático dependem do mecanismo, da gravidade e do local da lesão. Os sinais mais comuns incluem:
- Dor intensa na região glútea, face posterior da coxa e perna, que pode ser em choque, queimação ou pontada.
- Formigamento e dormência (parestesia) ao longo do trajeto do ciático, especialmente na borda lateral do pé.
- Fraqueza muscular que compromete a flexão plantar (empurrar o pé para baixo) e, em casos mais graves, a dorsiflexão (levantar a ponta do pé).
- Alteração do reflexo aquileu (reflexo do tendão de Aquiles), que fica diminuído ou ausente.
- Dificuldade para andar com claudicação (manqueira) e queda do pé (pé caído) se o ramo fibular for extensamente acometido.
Em lesões parciais, os sintomas podem ser intermitentes e piorar com o movimento ou com a posição sentada prolongada. Já em lesões completas, a perda de função motora e sensitiva é imediata e requer intervenção urgente.
Causas e fatores de risco
O trauma direto é a principal causa do CID S84.0. Os mecanismos mais frequentes são:
- Acidentes de trânsito: colisões de moto, atropelamentos e acidentes automobilísticos com impacto no quadril ou coxa.
- Quedas de altura: especialmente em trabalhadores da construção civil ou idosos.
- Ferimentos por arma branca ou de fogo que atinjam a região glútea ou posterior da coxa.
- Fraturas ou luxações: fratura do colo do fêmur, luxação traumática do quadril ou fratura da tíbia proximal podem comprimir ou lacerar o ciático.
- Compressão prolongada: posição cirúrgica inadequada (posição de litotomia) ou uso prolongado de torniquete.
Os fatores de risco incluem profissões com exposição a violência urbana, trabalho em altura, prática de esportes radicais, osteoporose (que favorece fraturas) e doenças neuromusculares preexistentes.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico do traumatismo do nervo ciático segue três pilares:
- Anamnese e exame físico: o médico investiga o mecanismo do trauma, a localização e a irradiação da dor, e realiza testes neurológicos como o teste de Lasegue (elevação da perna estendida), avaliação de força muscular (escala MRC – Medical Research Council) e sensibilidade no dermátomo do ciático.
- Eletroneuromiografia (ENMG): exame de referência para confirmar a lesão, localizá-la e quantificar o grau de comprometimento axonal. É recomendada entre a terceira e quarta semana após o trauma.
- Exames de imagem: radiografias simples para descartar fraturas; ultrassonografia de nervo periférico ou ressonância magnética (RM) para avaliar compressões, hematomas ou lacerações.
Em casos de lesão associada a fratura, a tomografia computadorizada (TC) ajuda no planejamento cirúrgico. O diagnóstico diferencial inclui hérnia de disco lombar, síndrome do piriforme e neuropatias periféricas de outra etiologia.
Tratamento disponível e opções terapêuticas
O tratamento do CID S84.0 depende da gravidade:
- Tratamento conservador (lesões leves a moderadas): repouso relativo, elevação do membro, crioterapia (bolsa de gelo por 15 min a cada 4h nos primeiros dias), anti-inflamatórios não esteroidais (ibuprofeno, naproxeno), analgésicos comuns (dipirona, paracetamol) e, se necessário, relaxantes musculares (ciclobenzaprina) por curto período. A fisioterapia motora com alongamentos passivos e ativos é iniciada precocemente.
- Tratamento medicamentoso para dor neuropática: em casos de dor crônica ou neuropática, podem ser usados gabapentina, pregabalina ou amitriptilina, sempre sob prescrição médica.
- Tratamento cirúrgico (lesões graves ou completas): indicado quando há evidência de laceração total, compressão por hematoma ou corpo estranho, ou falha do tratamento conservador após 6-8 semanas. A neurorrafia (sutura do nervo) ou enxerto nervoso pode ser necessária.
A reabilitação prolongada é fundamental: eletroestimulação, exercícios de fortalecimento, treino de marcha e órteses (tornozeleira para pé caído) podem ser necessários por meses.
Quantos dias de atestado médico
O número de dias de afastamento para o CID S84.0 varia amplamente segundo a gravidade da lesão e as necessidades do paciente. Em casos leves (ex.: contusão sem déficit motor), o atestado médico pode ser de 3 a 7 dias. Para lesões moderadas com fraqueza parcial, o repouso indicado fica entre 15 e 30 dias. Já em lesões graves com cirurgia ou perda funcional significativa, o atestado pode se estender por 45 a 90 dias, dependendo do retorno da força e da capacidade de trabalho. Esses prazos são baseados em protocolos do Ministério da Saúde e na experiência de médicos do trabalho.
Quando procurar médico urgente / sinais de alerta
Alguns sinais indicam necessidade de avaliação imediata em pronto-socorro ou consulta médica urgente:
- Perda súbita da força para mover a perna ou o pé (pé caído).
- Dormência ou anestesia completa na face lateral da perna e pé.
- Dor incontrolável que não melhora com analgésicos comuns.
- Trauma associado a ferimento aberto, sangramento ou suspeita de fratura.
- Incapacidade de apoiar o membro ou deambular.
- Alterações na cor da pele (palidez, cianose) na perna acometida, sugerindo comprometimento vascular.
O retardo no atendimento de lesões graves pode levar a atrofia muscular, contratura articular e sequelas neurológicas permanentes.
Prevenção e cuidados contínuos
A prevenção do traumatismo do nervo ciático está diretamente ligada à redução de acidentes e à ergonomia:
- Use equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados no trabalho: cintas para cargas, calçados antiderrapantes, e em motocicletas: calça reforçada e bota.
- Mantenha o ambiente doméstico livre de obstáculos e com boa iluminação para evitar quedas.
- Pratique exercícios de fortalecimento da musculatura do core (abdômen e lombar) e alongamentos regulares para reduzir o risco de lesões por esforço.
- No esporte, respeite os limites do corpo e use equipamentos de proteção adequados.
- Em cirurgias, exija posicionamento seguro e uso de coxins para evitar compressão nervosa prolongada.
Os cuidados contínuos para quem já teve a lesão incluem fisioterapia regular, uso de órteses se necessário, controle da dor e acompanhamento neurológico periódico.
- 01. Nas primeiras 48 horas após o trauma, aplique gelo envolto em pano por 15 minutos a cada 3 horas para reduzir o edema local.
- 02. Evite sentar-se sobre superfícies duras ou por mais de 30 minutos seguidos; use almofadas com recorte para aliviar a pressão no glúteo.
- 03. Nunca ignore a perda de força para levantar a ponta do pé – isso indica comprometimento do ramo fibular e requer avaliação urgente.
- 04. Mantenha o pé elevado ao repousar para melhorar o retorno venoso e diminuir a dor.
- 05. A fisioterapia não é opcional: ela previne atrofia, encurtamentos e acelera a regeneração nervosa – comece o mais cedo possível.
Perguntas Frequentes sobre o CID S84.0
O CID S84.0 garante quantos dias de atestado?
Não há um número fixo, pois depende da gravidade. Em média, lesões leves geram 5 a 10 dias, moderadas 15 a 30 dias, e graves 45 a 90 dias, sempre baseados em avaliação médica individualizada.
Quais os primeiros sintomas de um traumatismo do ciático?
Dor aguda na região glútea ou posterior da coxa, formigamento irradiando para o pé e, em menos de 24 horas, possível fraqueza para movimentar a perna.
Precisa de cirurgia para tratar o CID S84.0?
Nem sempre. Cerca de 80% das lesões são tratadas conservadoramente. A cirurgia é indicada para lacerações completas, compressão por hematoma ou falha do tratamento após 6-8 semanas.
O traumatismo do ciático pode causar paralisia permanente?
Sim, especialmente se a lesão for completa e o tratamento tardio. A regeneração nervosa é lenta (cerca de 1 mm por dia) e depende da gravidade. A fisioterapia precoce melhora o prognóstico.
Qual o tempo de recuperação total?
Lesões leves a moderadas se recuperam em 4 a 8 semanas. Lesões mais graves podem levar de 6 meses a 2 anos, e muitas vezes deixam sequelas leves como dormência residual.
Como prevenir o traumatismo do nervo ciático no trabalho?
Use EPIs específicos para sua função, evite posturas inadequadas ao levantar peso, faça pausas frequentes e participe de treinamentos de segurança no trabalho.
É possível trabalhar durante o tratamento?
Depende das exigências da profissão. Trabalhos leves ou de escritório podem ser retomados com adaptações (cadeira ergonômica, pausas). Profissões que exigem esforço físico ou direção prolongada geralmente exigem afastamento total por pelo menos 30 dias.
O que não fazer quando se tem esse diagnóstico?
Evite aplicar calor local nas primeiras 48 horas (piora o edema), não force a perna para “testar” a força, não ignore a fisioterapia e não retorne ao trabalho sem liberação médica.
Revisão médica: Conteúdo revisado pela equipe médica da Clínica Popular Fortaleza, com base na CID-10 (OMS) e protocolos do Ministério da Saúde do Brasil.
Última atualização: 21/06/2026
Na Clínica Popular Fortaleza você encontra consultas acessíveis com médicos que explicam seu diagnóstico e orientam o melhor tratamento.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. O diagnóstico e o tratamento indicados pelo CID devem ser definidos pelo médico responsável com base no exame clínico completo. Não use este artigo como base para autodiagnóstico ou prescrição.
Referências externas
- CID-10: S84.0 no portal CID10.com.br
- MedlinePlus: Ciática (em espanhol, com informações gerais)
- Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) – busca por “traumatismo do nervo ciático”
Artigos relacionados no nosso portal
- CID M54 – Dorsalgia (dor lombar, diagnóstico diferencial comum)
- CID Z000 – Exame Médico Geral (consulta para avaliação inicial)
- Dipirona para que serve – analgésico usado no tratamento
- Ibuprofeno para que serve – anti-inflamatório indicado no trauma
- Paracetamol para que serve – alternativa para dor leve a moderada
- CID G43 – Enxaqueca (pode ser gatilho por estresse, mas não relacionado diretamente)
- Omeprazol para que serve – se necessário para proteção gástrica com AINEs


