quinta-feira, maio 28, 2026

O que é Aborto

O que é O que é Aborto?

Do ponto de vista clínico, aborto é a interrupção da gravidez antes de o feto ser capaz de sobreviver fora do útero, o que no Brasil é considerado até a 20ª ou 22ª semana de gestação (cerca de 5 meses). Na prática do dia a dia de um médico que atende no SUS e em clínicas populares, esse termo aparece em dois contextos muito diferentes: o aborto espontâneo (quando a gestação termina sem que a mulher queira ou provoque) e o aborto induzido (quando há uma decisão ou ação para interromper a gestação). É fundamental entender que, no Brasil, o aborto induzido é criminalizado, com exceções previstas em lei: quando há risco de morte para a gestante, quando a gravidez é resultado de estupro, e, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), quando o feto é anencéfalo (caso de fetos sem cérebro).

Na minha experiência de 15 anos de consultório, o que mais vejo são pacientes que chegam com sangramento e dor abdominal, muitas vezes sem saber se estão ou estavam grávidas. Em clínicas populares da periferia, é comum atender mulheres que tentaram aborto inseguro com remédios comprados ilegalmente ou com métodos caseiros, e que chegam com complicações graves – como hemorragia, infecção ou perfuração uterina. Os dados epidemiológicos brasileiros são preocupantes: segundo o Ministério da Saúde, o aborto inseguro é a quinta causa de morte materna no país, e cerca de 1 em cada 5 mulheres já recorreu ao aborto ao menos uma vez na vida, segundo estimativas da Pesquisa Nacional de Aborto (PNA). Muitas dessas mulheres têm baixa escolaridade e renda, e recorrem a métodos perigosos justamente por falta de acesso a informação e a serviços de saúde de qualidade.

O papel do médico, especialmente no SUS, não é julgar, mas sim acolher, tratar as complicações e oferecer orientação sobre contracepção e saúde reprodutiva. A lei brasileira garante que a mulher vítima de violência sexual tem direito ao aborto legal no SUS, de forma gratuita e sigilosa, sem necessidade de autorização judicial. Infelizmente, muitos hospitais ainda criam barreiras para esse atendimento, o que é uma violação de direitos. Por isso, é essencial que o paciente saiba onde buscar ajuda e quais são os seus direitos.

Como funciona / Características

O aborto pode ocorrer de diferentes maneiras, dependendo se é espontâneo ou induzido. No caso do aborto espontâneo, o corpo elimina o embrião ou feto sem intervenção médica. Isso acontece com frequência nas primeiras 12 semanas de gestação, muitas vezes por alterações genéticas no embrião, problemas hormonais, infecções ou doenças maternas (como diabetes descompensada ou hipotireoidismo). A paciente pode ter sangramento vaginal (que pode ser leve ou intenso), cólicas abdominais, e eliminação de coágulos ou tecidos. No consultório, o diagnóstico é feito com exame de ultrassom e dosagem de beta-hCG (hormônio da gravidez).

Já o aborto induzido pode ser feito de forma segura, com medicamentos (como o misoprostol, associado ou não a outros fármacos) ou por procedimento cirúrgico (curetagem ou aspiração manual intrauterina). No Brasil, esses métodos seguros só estão disponíveis legalmente nos casos previstos em lei. Fora dessas situações, o aborto é clandestino e inseguro. Nas clínicas populares, atendi inúmeras mulheres que compraram misoprostol (conhecido popularmente como “citotec”) em feiras ou pela internet, sem orientação médica. O uso inadequado da medicação pode levar a sangramento excessivo, retenção de restos gestacionais (aborto incompleto) e infecção grave, que exige internação e, às vezes, transfusão de sangue ou cirurgia de emergência.

No contexto do SUS, quando uma paciente chega com suspeita de aborto, o protocolo padrão é: estabilizar a paciente (se houver hemorragia), realizar ultrassom transvaginal para avaliar se o útero está vazio ou se há restos, e, se necessário, fazer curetagem ou aspiração manual para remover o material retido. O tratamento também inclui medicação para contrair o útero e antibióticos para prevenir infecções. É importante que a paciente receba orientação sobre sinais de alarme (febre, dor intensa, sangramento com odor fétido) e seja encaminhada para planejamento familiar, pois após um aborto a fertilidade retorna rapidamente.

Tipos e Classificações

Na prática clínica brasileira, os tipos de aborto são classificados de acordo com o momento, a causa e a evolução. As principais classificações usadas no SUS e na literatura médica são:

  • Aborto espontâneo: Ocorre sem interferência externa. Pode ser precoce (até 12 semanas) ou tardio (13 a 20 semanas).
  • Aborto induzido: Provocado intencionalmente. Pode ser legal (nas exceções previstas) ou inseguro/clandestino.
  • Ameaça de aborto: Sangramento e dor, mas o colo do útero permanece fechado e o feto ainda está vivo. Pode evoluir para aborto ou se resolver sozinho.
  • Aborto inevitável: O colo do útero já está aberto e a eliminação do feto é iminente.
  • Aborto incompleto: Parte do tecido gestacional foi eliminado, mas restos permanecem no útero. É a principal causa de complicações e exige curetagem ou aspiração.
  • Aborto completo: Todo o conteúdo foi eliminado. Geralmente o útero fica vazio e não requer intervenção.
  • Aborto retido (ou falho): O embrião morre, mas não é eliminado. Pode levar semanas até o sangramento aparecer.
  • Aborto séptico: Aborto complicado por infecção uterina, geralmente associado a procedimentos inseguros. É uma emergência médica.

Essa classificação ajuda o médico a decidir a conduta: se a paciente precisa de internação, medicação, curetagem, ou apenas acompanhamento. No Brasil, o CFM (Conselho Federal de Medicina) e o Ministério da Saúde estabelecem protocolos para o manejo de cada tipo, incluindo o acolhimento humanizado.

Quando procurar um médico

Qualquer mulher grávida ou com suspeita de gestação que apresente os sinais abaixo deve procurar um serviço de saúde imediatamente, seja uma unidade básica de saúde (UBS), uma clínica popular ou o pronto-socorro do SUS:

  • Sangramento vaginal (de qualquer volume, principalmente se acompanhado de cólicas).
  • Dor abdominal intensa ou dor pélvica que não passa.
  • Febre (temperatura acima de 37,8°C) com ou sem calafrios.
  • Odor desagradável no sangue ou corrimento vaginal.
  • Eliminação de coágulos grandes ou tecidos.
  • Tontura, desmaio ou sensação de desmaio (pode indicar hemorragia interna).
  • Náuseas, vômitos ou mal-estar geral persistente.

Mesmo que você não tenha certeza se está grávida, qualquer sangramento fora da data prevista da menstruação deve ser investigado. Nas clínicas populares, muitos casos de aborto espontâneo são confundidos com menstruação atrasada, e a paciente só descobre a gravidez perdida durante o ultrassom. Se você está passando por um aborto, não se sinta culpada ou envergonhada – busque atendimento. O SUS oferece acolhimento humanizado (Lei do Acolhimento, Portaria MS 1.508/2005) e você tem direito a sigilo e respeito.

Se você foi vítima de violência sexual e deseja interromper a gestação, procure um hospital de referência para aborto legal. Você tem direito ao atendimento mesmo que não tenha Boletim de Ocorrência. Ligue para o Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher) para obter orientação sobre os serviços da sua região.

Termos Relacionados

  • Aborto inseguro: Procedimento para interromper a gravidez realizado por pessoas sem treinamento adequado ou em condições insalubres. No Brasil, é uma das principais causas de morte materna.
  • Aborto legal: Interrupção da gestação permitida por lei brasileira: risco de morte materna, estupro ou anencefalia fetal.
  • Curetagem: Procedimento cirúrgico para remover restos gestacionais do útero por raspagem. Feito com anestesia local ou geral, frequentemente usado no tratamento de aborto incompleto.
  • Aspiração manual intrauterina (AMIU): Técnica de sucção para esvaziar o útero com uma seringa especial. Menos invasiva que a curetagem, usada no SUS para abortos até 12 semanas.
  • Misoprostol: Medicamento que provoca contrações uterinas e amolecimento do colo. Usado para induzir aborto de forma segura quando indicado, mas também vendido ilegalmente para abortos clandestinos (citotec).
  • Beta-hCG: Exame de sangue que detecta a gravidez. Os níveis caem rapidamente após um aborto completo, ajudando no acompanhamento.
  • Gravidez ectópica: Gestação que se desenvolve fora do útero, geralmente na trompa. Não é um aborto, mas também exige tratamento de emergência e pode ser confundida com aborto.
  • Planejamento familiar: Conjunto de ações que oferecem informação e acesso a métodos contraceptivos. Após um aborto, é fundamental iniciar a contracepção para evitar nova gravidez indesejada.

Perguntas Frequentes sobre O que é Aborto

1. Eu posso fazer um aborto no SUS?

Sim, mas apenas nas situações previstas em lei: risco de morte para a gestante (comprovado por dois médicos), gravidez decorrente de estupro (basta a palavra da vítima, não precisa de boletim de ocorrência), ou anencefalia fetal (decisão do STF). O atendimento é sigiloso, gratuito e deve ser oferecido sem burocracia. Infelizmente, o acesso ainda é difícil em muitas regiões. A lista de hospitais credenciados está disponível no site do Ministério da Saúde.

2. O que fazer se estou com sangramento e não sei se estou grávida?

Vá a uma unidade de saúde e peça um exame de beta-hCG e um ultrassom. Sangramento fora da menstruação normal pode ser sinal de aborto espontâneo, gravidez ectópica ou outro problema de saúde, como miomas ou pólipos. Não tente “esperar passar” – procure atendimento para diagnóstico e tratamento adequados.

3. Aborto espontâneo tem cura? Como evitar?

O aborto espontâneo não tem “cura” porque geralmente não dá para impedi-lo – a maioria ocorre por anomalias cromossômicas no embrião. O que se pode fazer é tratar as complicações (como sangramento ou infecção) e, se houver causas identificáveis (como deficiência de progesterona, tiroide descontrolada ou infecções), corrigi-las em gestações futuras. Após dois ou mais abortos espontâneos consecutivos, recomenda-se investigação com um g