sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Ácido úrico

O que é Ácido úrico?

O ácido úrico é uma substância natural produzida pelo nosso organismo durante o processo de digestão e metabolização das purinas – compostos presentes em diversos alimentos, como carnes vermelhas, frutos do mar, bebidas alcoólicas (especialmente cerveja) e refrigerantes. Em condições normais, o ácido úrico é dissolvido no sangue, filtrado pelos rins e eliminado pela urina. Quando esse equilíbrio é quebrado – seja por produção excessiva ou por eliminação insuficiente – os níveis sanguíneos sobem, quadro conhecido como hiperuricemia.

Na rotina de uma clínica popular brasileira, é muito comum receber pacientes com queixas de dor articular intensa, principalmente no dedão do pé, queimação e inchaço. Esses episódios são frequentemente associados ao aumento do ácido úrico, levando a crises de gota – uma das formas mais dolorosas de artrite. O Brasil tem uma prevalência de hiperuricemia estimada entre 13% e 15% da população adulta, segundo dados do Ministério da Saúde e estudos epidemiológicos recentes. Homens acima de 40 anos, mulheres na pós-menopausa e pessoas com sobrepeso ou diabetes estão entre os grupos de maior risco.

No contexto do SUS, o diagnóstico é feito através de exame de sangue simples (dosagem de ácido úrico) disponível na atenção primária. O tratamento envolve mudanças na alimentação, uso de medicamentos como alopurinol (fornecido pela farmácia popular) e orientação sobre hidratação. A ANVISA regula os medicamentos e suplementos utilizados, enquanto o CFM estabelece diretrizes para o manejo clínico. O ácido úrico elevado não tratado pode levar a deformidades articulares, pedras nos rins (nefrolitíase) e danos renais.

Como funciona / Características

O ácido úrico funciona como um produto final do metabolismo das purinas. Imagine que seu corpo é uma fábrica: as purinas são a matéria-prima que entra, e o ácido úrico é o resíduo que precisa ser descartado. Os rins são o sistema de esgoto dessa fábrica. Quando a produção é alta demais (por consumo excessivo de carne, álcool ou frutos do mar) ou os rins não conseguem filtrar adequadamente (por doença renal, desidratação ou uso de certos medicamentos), o ácido úrico se acumula no sangue.

No dia a dia da clínica, atendo pacientes que chegam com uma crise aguda: pé vermelho, quente e dolorido, muitas vezes comparando a dor a “uma facada” ou “algo queimando por dentro”. O exame clínico é suficiente na maioria das vezes, mas peço a dosagem sanguínea para confirmar. Valores normais geralmente ficam abaixo de 7,0 mg/dL para homens e 6,0 mg/dL para mulheres. Acima disso, há risco de cristalização nas articulações e tecidos, formando pequenos cristais em formato de agulha que desencadeiam inflamação intensa.

Uma característica importante é que a hiperuricemia pode ser completamente assintomática por anos – o paciente só descobre em exames de rotina. Muitos acham que “só dá ataque” quando comem algo errado, mas a verdade é que o nível elevado vai danando o corpo silenciosamente, aumentando risco de doenças cardiovasculares e renais. Por isso, oriento sempre: se você tem histórico familiar de gota ou pedra nos rins, ou se tem obesidade, hipertensão ou diabetes, vale a pena incluir a dosagem de ácido úrico nos seus exames anuais.

Tipos e Classificações

Na prática clínica brasileira, classificamos as alterações do ácido úrico principalmente com base na causa e no quadro clínico. As divisões mais usadas são:

  • Hiperuricemia primária: quando a produção excessiva ou a eliminação reduzida é devida a fatores genéticos ou metabólicos inerentes ao paciente. É a forma mais comum em jovens e adultos sem outras doenças aparentes.
  • Hiperuricemia secundária: quando o aumento é consequência de outra condição, como doença renal crônica, obesidade, diabetes, uso de diuréticos, quimioterapia (síndrome de lise tumoral) ou consumo excessivo de álcool.
  • Gota aguda: crise inflamatória com dor intensa, vermelhidão e inchaço em uma ou mais articulações (mais comum no hálux – dedão do pé).
  • Gota crônica tofácea: quando os ataques se repetem e há depósitos de cristais (tofos) nas articulações, orelhas, cotovelos ou tendões, visíveis a olho nu e que podem deformar a região.
  • Nefrolitíase úrica: formação de cálculos renais compostos por ácido úrico, que podem causar dor lombar intensa e sangue na urina.

O Ministério da Saúde recomenda que, ao diagnosticar hiperuricemia, o médico avalie também a função renal, o perfil lipídico e a glicemia, já que essas alterações costumam andar juntas (síndrome metabólica).

Quando procurar um médico

Você deve procurar um clínico geral ou um reumatologista (via SUS ou plano de saúde) quando:

  • Sentir dor articular súbita, intensa e localizada, especialmente no dedão do pé, tornozelo, joelho ou punho – principalmente se acompanhada de vermelhidão e calor local.
  • Notar inchaço ou nódulos (caroços) perto das articulações ou nas orelhas – podem ser tofos.
  • Apresentar episódios recorrentes de cólica renal ou dor lombar forte.
  • Descobrir em exame de rotina que o ácido úrico está elevado (acima de 7,0 mg/dL em homens ou 6,0 mg/dL em mulheres), mesmo sem sintomas.
  • Ter fatores de risco: obesidade, diabetes, hipertensão, uso de diuréticos, histórico familiar de gota, consumir bebidas alcoólicas com frequência ou fazer dietas ricas em proteínas.

Nas clínicas populares, atendo muitos pacientes que tentam “tratar” a crise em casa com gelo, anti-inflamatórios comuns ou chás – mas a automedicação pode mascarar sintomas e piorar o quadro. O ideal é buscar atendimento ainda nas primeiras 24-48 horas de dor, pois o tratamento precoce reduz a inflamação e evita danos permanentes. No SUS, você pode ir a uma UBS (Unidade Básica de Saúde) ou UPA (Unidade de Pronto Atendimento) para avaliação inicial.

Termos Relacionados

  • Gota: forma de artrite inflamatória causada pelo acúmulo de cristais de ácido úrico nas articulações. Caracteriza-se por crises dolorosas e recorrentes.
  • Hiperuricemia: termo médico para níveis elevados de ácido úrico no sangue, acima dos valores de referência.
  • Purinas: compostos nitrogenados encontrados em alimentos e células do corpo; seu metabolismo produz ácido úrico.
  • Alopurinol: medicamento de uso contínuo que reduz a produção de ácido úrico, amplamente distribuído na rede pública (Farmácia Popular).
  • Nefrolitíase urinária: formação de cálculos renais, que podem ser de ácido úrico, cálcio ou outros sais.
  • Excreção renal de ácido úrico: processo pelo qual os rins filtram e eliminam o ácido úrico na urina; quando deficitário, ocorre hiperuricemia.
  • Síndrome metabólica: conjunto de condições (obesidade abdominal, hipertensão, resistência à insulina) que aumentam o risco de hiperuricemia.
  • Tofo gotoso: depósito de cristais de urato na forma de nódulos subcutâneos, típico da gota crônica não tratada.

Perguntas Frequentes sobre O que é Ácido úrico

1. O ácido úrico alto sempre causa dor?

Não. Muitas pessoas têm hiperuricemia assintomática por anos, ou seja, níveis elevados no sangue sem nenhum sintoma. O problema é que, mesmo sem dor, os cristais vão se depositando nos rins e articulações, podendo causar danos renais silenciosos. Por isso, se você descobriu o ácido úrico alto em um exame de rotina, procure um médico para avaliar a necessidade de tratamento, mesmo que não sinta nada.

2. Quais alimentos devo evitar para baixar o ácido úrico?

Os principais vilões são as carnes vermelhas (especialmente vísceras como fígado, rim e coração), frutos do mar (camarão, mexilhão, sardinha), bebidas alcoólicas (cerveja e destilados) e refrigerantes. Alimentos ricos em purinas também incluem caldos de carne, embutidos (linguiça, salsicha) e alguns vegetais como cogumelos, aspargos e espinafre – mas estes têm menor impacto. A dica mais eficaz para a maioria dos pacientes é reduzir drasticamente o consumo de álcool e carnes, aumentar a ingestão de água (pelo menos 2 a 3 litros por dia) e priorizar frutas, legumes, leite desnatado e grãos integrais.

3. Posso tomar chá para baixar o ácido úrico?

Alguns chás, como o de cavalinha, dente-de-leão e chá verde, têm propriedades diuréticas leves e podem auxiliar na eliminação de ácido úrico, mas seu efeito é modesto e não substitui o tratamento médico. Eles podem ser usados como coadjuvantes, desde que não haja contraindicação (por exemplo, em casos de doença renal ou uso de diuréticos). O melhor “remédio” caseiro é mesmo a água pura. Nunca substitua medicamentos prescritos por chás sem orientação profissional.

4. O ácido úrico elevado pode causar pedra nos rins?

Sim, e é uma das causas mais comuns de litíase renal. Os cristais de ácido úrico podem se agregar e formar cálculos nos rins ou ureteres. Essas pedras costumam ser radiotransparentes (não aparecem em raio-X simples), exigindo ultrassom ou tomografia para diagnóstico. Os sintomas típicos são dor lombar intensa, sangue na urina e ardência ao urinar. Manter o ácido úrico controlado e boa hidratação reduz significativamente o risco.

5. O tratamento no SUS é acessível?

Sim. O SUS oferece diagnóstico (exames de sangue) e tratamento medicamentoso em todos os níveis de atenção. O alopurinol e a colchicina (para crises agudas) estão na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) e são distribuídos gratuitamente nas farmácias das UBS e pelo programa Farmácia Popular. O acompanhamento pode ser feito por clínicos gerais nas UBS ou, em casos mais complexos, encaminhado a reumatologistas e nefrologistas. Basta levar documento, cartão SUS e receita médica atualizada.

6. Ácido úrico tem cura? Posso parar de tomar remédio depois que melhorar?

Não há “cura” no sentido de erradicar a tendência do organismo a produzir ou reter mais ácido úrico, mas o controle é plenamente possível com medicamentos e mudanças de estilo de vida. Muitos pacientes cometem o erro de parar o alopurinol depois que a dor passa – e aí as crises voltam mais fortes. O tratamento é crônico e contínuo, como na hipertensão ou diabetes. Com acompanhamento, é possível manter os níveis normais e viver sem crises. Converse com seu médico sobre o plano de longo prazo.

Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


Veja Também