O que é Adenocarcinoma de ovário?
Adenocarcinoma de ovário é o tipo mais comum de câncer que se origina nos ovários, especificamente nas células que revestem a superfície do órgão (epitélio superficial). Na minha experiência como clínico geral atendendo no SUS e em clínicas populares do Brasil, vejo com frequência que esse tumor é muitas vezes descoberto em estágios avançados, porque os sintomas iniciais são vagos e facilmente confundidos com problemas digestivos ou menstruais comuns.
No Brasil, o câncer de ovário é o sétimo mais frequente entre as mulheres, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estima-se que, para cada ano do triênio 2023-2025, surjam cerca de 7.310 novos casos — uma taxa de 6,66 casos por 100 mil mulheres. A doença é mais comum após os 50 anos, mas também pode atingir mulheres mais jovens, especialmente aquelas com histórico familiar ou mutações genéticas como nos genes BRCA1 e BRCA2. Na prática da clínica popular, atendo pacientes que chegam com queixas de “barriga inchada” ou “gases” que não passam, e após exames descobrimos massas ovarianas. Por isso, é essencial que as mulheres fiquem atentas aos sinais.
O termo “adenocarcinoma” refere-se a um tumor maligno originado em tecido glandular. No ovário, essas células anormais crescem sem controle, podendo invadir órgãos vizinhos como as trompas, útero, bexiga e intestino, e também se espalhar pela cavidade abdominal (disseminação peritoneal). O acesso ao tratamento no SUS é garantido pela Política Nacional de Atenção Oncológica, com unidades de referência em cada estado, mas o diagnóstico precoce ainda é um desafio. Em clínicas populares, muitas vezes somos a primeira porta de entrada, e precisamos investigar com cuidado para não perder um caso.
Como funciona / Características
O adenocarcinoma de ovário se desenvolve de forma silenciosa na maioria dos casos. As células cancerosas começam a se multiplicar na superfície do ovário, formando pequenas projeções que podem se desprender e se implantar em outras áreas do peritônio (a membrana que reveste o abdômen). Isso explica por que um dos primeiros sinais é o acúmulo de líquido na barriga (ascite), que muitas pacientes descrevem como “barriga d’água”.
No dia a dia da clínica, recebo mulheres com idades entre 50 e 70 anos que relatam:
– Sensação de “inchaço” persistente que não melhora com dieta
– Desconforto pélvico ou dor difusa na parte baixa da barriga
– Necessidade urgente de urinar com frequência
– Cansaço inexplicado e perda de peso sem motivo aparente
Esses sintomas são facilmente confundidos com síndrome do intestino irritável, gastrite ou até mesmo alterações da menopausa. Muitas pacientes já tentaram chás caseiros, simpatias ou remédios de farmácia antes de procurar atendimento. Em clínicas populares, onde o fluxo é intenso, faço questão de perguntar sobre o histórico familiar de câncer de mama ou ovário, uso de anticoncepcionais, número de gestações e idade da menarca e menopausa.
O diagnóstico é feito por exame de toque ginecológico (que ainda é importante, embora muitas mulheres tenham receio), ultrassonografia transvaginal e, quando indicado, a dosagem do marcador tumoral CA-125 no sangue. Lembro que o CA-125 não é específico — ele pode estar elevado em endometriose, miomas ou até em infecções —, por isso a ultrassonografia e a biópsia são fundamentais para confirmar o adenocarcinoma de ovário. No SUS, o acesso a esses exames pode demorar algumas semanas, mas as unidades de referência em oncologia conseguem priorizar os casos suspeitos.
Tipos e Classificações
O adenocarcinoma de ovário é subdividido em vários tipos histológicos, de acordo com a aparência das células ao microscópio. A classificação mais utilizada no Brasil segue a da Organização Mundial da Saúde (OMS) e é importante porque cada subtipo tem comportamento biológico diferente e responde de forma distinta ao tratamento. Os principais são:
- Carcinoma seroso de alto grau: o mais comum (cerca de 70% dos casos). Geralmente agressivo, com bomba rápida de disseminação. Está fortemente associado a mutações nos genes BRCA.
- Carcinoma endometrioide: costuma ser diagnosticado em estágios iniciais e tem prognóstico melhor. Pode estar associado à endometriose.
- Carcinoma de células claras: mais raro, mas comum em mulheres asiáticas. Também pode estar relacionado à endometriose.
- Carcinoma mucinoso: geralmente diagnosticado em estágio precoce e parece ser diferente dos outros tipos, pois sua origem pode ser diferente (talvez a partir de implantes peritoneais ou de células germinativas).
Além disso, a classificação por estadiamento (estágios I a IV) é feita com base na extensão da doença no momento do diagnóstico. O sistema mais adotado no Brasil é o da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO).
– Estágio I: tumor limitado aos ovários.
– Estágio II: tumor com extensão pélvica.
– Estágio III: implantes peritoneais fora da pelve ou metástase para linfonodos.
– Estágio IV: metástases à distância (fígado, pulmão, etc.).
Quanto mais precoce o estágio, maior a chance de cura. Infelizmente, cerca de 70% dos casos no Brasil são diagnosticados em estágios avançados (III ou IV), segundo dados do INCA. Isso reforça a importância de campanhas de conscientização e de consultas regulares ao ginecologista.
Quando procurar um médico
Procure atendimento médico se você apresentar algum dos seguintes sinais por mais de duas semanas:
– Distensão abdominal persistente (barriga inchada que não melhora com dieta ou remédios)
– Sensação de saciedade precoce (sentir-se cheia após comer pouco)
– Urgência ou frequência urinária aumentada, sem infecção urinária comprovada
– Dor pélvica ou dor nas costas sem causa aparente
– Perda de peso não intencional
– Sangramento vaginal anormal (fora do período menstrual ou após a menopausa)
Em clínicas populares, muitas mulheres chegam dizendo “doutor, minha barriga não para de crescer, acho que é gordura” — mas é preciso ficar atento ao fato de que o inchaço contínuo e a ascite podem ser o primeiro sinal de um adenocarcinoma de ovário. Também vale destacar que o câncer de ovário pode ocorrer em mulheres que já fizeram histerectomia (retirada do útero) ou que já passaram pela menopausa. Não ignore os sintomas.
Se houver histórico de câncer de mama ou ovário na família (especialmente em parentes de primeiro grau: mãe, irmã, filha), converse com o médico sobre aconselhamento genético e a possibilidade de vigilância mais rigorosa com ultrassom transvaginal e CA-125 anuais. No SUS, isso pode ser feito em serviços de oncogenética de referência.
Termos Relacionados
- CA-125: uma proteína no sangue que pode estar elevada em pacientes com câncer de ovário, mas também em condições benignas. É um marcador tumoral auxiliar, não diagnóstico isolado.
- BRCA1 e BRCA2: genes que, quando mutados, aumentam significativamente o risco de câncer de mama e ovário. No Brasil, há uma prevalência maior de certas mutações em descendentes de judeus Ashkenazi.
- Ascite: acúmulo anormal de líquido na cavidade abdominal, comum no adenocarcinoma de ovário avançado. Pode causar desconforto e falta de ar.
- Laparoscopia: cirurgia minimamente invasiva usada para avaliação e estadiamento do câncer de ovário. Permite biópsia e lavado peritoneal.
- Quimioterapia intraperitoneal: administração de quimioterápicos diretamente na cavidade abdominal, usada em alguns casos para aumentar a eficácia do tratamento.
- Ooforectomia: remoção cirúrgica de um ou ambos os ovários. No tratamento do câncer, geralmente é realizada junto com a histerectomia.
- Imunoterapia: tratamento que estimula o sistema imunológico a combater o câncer. Ainda em estudo para alguns subtipos de adenocarcinoma de ovário.
- Inibidores de PARP: medicamentos modernos que impedem a reparação do DNA das células cancerosas, usados principalmente em pacientes com mutação BRCA. Disponíveis no SUS através de protocolos específicos.
Perguntas Frequentes sobre O que é Adenocarcinoma de ovário
O adenocarcinoma de ovário tem cura?
Sim, tem chance de cura, especialmente quando diagnosticado em estágio inicial (I e II). A taxa de cura para estágio I é superior a 90%. Infelizmente, como a maioria dos casos é descoberta tardiamente, a cura é mais difícil, mas o tratamento pode prolongar a vida com qualidade. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances. No SUS, o tratamento é oferecido de forma integral: cirurgia, quimioterapia e, quando indicado, radioterapia e medicamentos alvo.
Quais são os fatores de risco no Brasil?
Os principais fatores de risco incluem idade acima de 50 anos, histórico familiar de câncer de mama ou ovário (principalmente com mutação BRCA), endometriose, obesidade, uso de talco na região genital (antigamente) e ausência de gestações. O uso de anticoncepcionais orais por pelo menos 5 anos reduz o risco em cerca de 50%. A amamentação também é protetora. No Brasil, a população negra e parda tem menor incidência, mas quando diagnosticada, tende a apresentar estágios mais avançados, possivelmente por desigualdades de acesso.
Como é feito o diagnóstico no SUS?
O diagnóstico começa na atenção básica (postos de saúde e clínicas da família) com a coleta da história clínica e o exame ginecológico. Suspeitando de algo, a paciente é encaminhada para ultrassonografia transvaginal e coleta de CA-125. Se as alterações forem sugestivas, ela é referenciada para um serviço de oncologia ginecológica, onde será realizada biópsia (por punção ou cirurgia) e exames de imagem como tomografia ou ressonância. O tempo para conclusão do diagnóstico pode variar de 30 a 90 dias, dependendo da região. É importante que a paciente não desista e acompanhe o fluxo.
Preciso fazer exames de rotina se não tenho sintomas?
Atualmente, não há um exame de rastreamento populacional recomendado para câncer de ovário, como existe para mama (mamografia) ou colo do útero (Papanicolau). Isso porque os exames disponíveis (ultrassom e CA-125) têm baixo valor preditivo em mulheres sem sintomas. Porém, se você tem alto risco (histórico familiar forte ou mutação comprovada), o Ministério da Saúde recomenda ultrassom transvaginal e CA-125 a cada 6 ou 12 meses, além de consultas com ginecologista. Mulheres com risco médio devem manter o acompanhamento ginecológico anual e ficar atentas aos sintomas.
O tratamento dói? Posso fazer pelo SUS?
O tratamento pode causar desconfortos, mas a medicina atual tem recursos para controlar a dor e os efeitos colaterais. A cirurgia padrão (histerectomia + ooforectomia + remoção de linfonodos) é feita com anestesia geral e, depois, há analgesia adequada. A quimioterapia pode causar náuseas, queda de cabelo, cansaço, mas hoje existem medicamentos antieméticos e suporte multidisciplinar para minimizar esses efeitos. Pelo SUS, todo o tratamento é gratuito, incluindo cirurgia, quimioterapia, radioterapia e medicamentos orais (como os inibidores de PARP) quando aprovados pela Conitec. Procure o serviço de oncologia da sua cidade ou unidade de referência.
Posso ter uma vida normal após o tratamento?
Sim, muitas mulheres retomam suas atividades após o tratamento, embora algumas tenham sequelas como menop


