O que é Adenocarcinoma de próstata?
No meu dia a dia de consultório, tanto no SUS quanto em clínicas populares, uma das perguntas que mais ouço é: “Doutor, o que é esse tal de adenocarcinoma de próstata?”. Vou explicar de forma clara, como faço na recepção do posto.
O adenocarcinoma de próstata é o tipo mais comum de câncer de próstata, responsável por mais de 95% dos casos diagnosticados. Ele se origina nas células glandulares da próstata, uma glândula do tamanho de uma noz que fica logo abaixo da bexiga e à frente do reto. Essas células, por razões que ainda estudamos, começam a se multiplicar de forma descontrolada, formando um tumor. Na maioria das vezes, esse tumor cresce lentamente e pode não causar problemas sérios durante toda a vida do homem. No entanto, uma parte menor dos casos apresenta tumores agressivos, que podem se espalhar para outras partes do corpo (metástases), principalmente para os ossos.
No Brasil, esse é um problema de saúde pública. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), são esperados cerca de 65 mil novos casos de câncer de próstata por ano, sendo o segundo tumor mais frequente entre os homens brasileiros, atrás apenas do câncer de pele não melanoma. A estimativa é de que um homem a cada nove será diagnosticado com a doença ao longo da vida. A boa notícia é que, quando descoberto cedo, as chances de cura são superiores a 90%. No SUS, conseguimos oferecer rastreamento com exame de PSA e toque retal nas Unidades Básicas de Saúde, mas o acesso ainda é desigual – muitos pacientes chegam ao meu consultório já com sintomas avançados porque demoraram a procurar ajuda, por medo ou falta de informação.
Na minha experiência, o maior desafio não é o tratamento, mas sim vencer o preconceito e o medo. Muitos homens evitam a prevenção por receio do toque retal ou por acreditarem que “não precisa, não sinto nada”. Por isso, sempre reforço: o adenocarcinoma de próstata, na fase inicial, não dói e não dá sintomas. Aí está o perigo.
Como funciona / Características
Para entender como o adenocarcinoma de próstata age, pense na próstata como uma fábrica de líquido seminal. As células que revestem os dutos dessa fábrica, chamadas células epiteliais glandulares, são as que sofrem a transformação cancerosa. O tumor começa como uma pequena lesão microscópica – muitas vezes detectada só na biópsia – e vai crescendo lentamente. Na prática clínica, dividimos o comportamento em dois grandes grupos:
- Tumores de crescimento lento (indolentes): correspondem à maioria. Muitos pacientes vivem décadas sem qualquer sintoma e morrem de outras causas. Nesses casos, a conduta pode ser apenas a vigilância ativa, com exames periódicos, sem necessidade de cirurgia ou radioterapia imediata.
- Tumores agressivos: crescem rápido, podem invadir a cápsula prostática, atingir linfonodos e ossos. Esses exigem tratamento imediato, como cirurgia (prostatectomia) ou radioterapia, muitas vezes combinados com hormonioterapia.
Na clínica popular, atendo muitos homens acima de 60 anos que vêm com queixa de “vontade de urinar toda hora” ou “jato fraco”. Esses sintomas geralmente são causados pelo aumento benigno da próstata (hiperplasia prostática benigna), mas podem esconder um adenocarcinoma. Por isso, quando o PSA está alterado ou o toque retal identifica um nódulo duro e irregular, encaminho para urologista e biópsia. Uma característica importante é que o tumor pode crescer sem obstruir o fluxo urinário, dando uma falsa sensação de normalidade.
Outro ponto que sempre explico: o adenocarcinoma de próstata pode produzir substâncias que aumentam o PSA (antígeno prostático específico) no sangue. Porém, o PSA elevado não é sinônimo de câncer – infecções, inflamações, ejaculação recente e até o próprio ato de andar de bicicleta podem alterá-lo. Por isso, o diagnóstico definitivo exige a biópsia, guiada por ultrassom transretal.
Tipos e Classificações
Quando recebo o laudo de uma biópsia de próstata, o patologista descreve o tipo de tumor e seu grau de agressividade. As classificações mais usadas no Brasil são:
Classificação de Gleason
Criada pelo Dr. Donald Gleason, é a principal ferramenta para avaliar a agressividade. O patologista observa o padrão das células ao microscópio e atribui dois números (ex: 3+4=7). Quanto maior a soma, mais agressivo o tumor. A pontuação varia de 6 (baixo risco) a 10 (alto risco). No SUS, é comum vermos escores como Gleason 6 (bem diferenciado) ou Gleason 8-10 (pouco diferenciado).
Sistema TNM (Tumor, Linfonodos, Metástase)
Usado para estadiar a doença:
– T: tamanho do tumor local (T1 a T4). T1 é microscópico, T4 já invadiu estruturas vizinhas.
– N: comprometimento de linfonodos (N0 sem, N1 com).
– M: metástase à distância (M0 sem, M1 com).
No Brasil, o TNM é registrado no laudo e define o tratamento no SUS conforme protocolos do Ministério da Saúde.
Classificação de Risco (D’Amico)
Para facilitar a decisão terapêutica, usamos três categorias:
– Baixo risco: PSA ≤10, Gleason ≤6, estádio T1-T2a. Pode ser só vigilância ativa.
– Médio risco: PSA 10-20, Gleason 7, T2b-T2c. Geralmente trata-se com cirurgia ou radioterapia.
– Alto risco: PSA >20, Gleason ≥8, T3-T4. Necessita de terapia combinada.
Vale lembrar que, no contexto do SUS, o acesso à biópsia e ao tratamento pode levar tempo, mas as diretrizes do CFM e do Ministério da Saúde priorizam os casos de alto risco, com encaminhamento rápido para centros de oncologia.
Quando procurar um médico
Como médico de clínica geral, oriento meus pacientes a procurarem a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima se apresentarem algum dos seguintes sinais ou fatores:
- Idade: homens a partir dos 50 anos devem conversar com o médico sobre o rastreamento. Para aqueles com histórico familiar de câncer de próstata (pai, irmão) ou homens negros, a partir dos 45 anos.
- Alterações urinárias persistentes: dificuldade para iniciar a micção, jato fraco, sensação de não esvaziar completamente a bexiga, necessidade de urinar várias vezes à noite (noctúria), urgência urinária.
- Presença de sangue: na urina (hematúria) ou no sêmen (hematospermia).
- Dor óssea inexplicada: principalmente na coluna, quadril ou costelas, que pode indicar metástase óssea.
- Perda de peso não intencional, fadiga, anemia.
Não espere sentir dor ou ter sintomas graves. Na maioria dos casos, o adenocarcinoma precoce não dói. Por isso, a recomendação da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e do CFM é que o rastreamento seja discutido de forma individualizada, após os 50 anos, levando em conta os riscos e benefícios. Homens com expectativa de vida superior a 10 anos geralmente se beneficiam do diagnóstico precoce.
No SUS, o primeiro passo é agendar uma consulta com o clínico geral ou com o enfermeiro da UBS. Se houver indicação, solicitamos PSA e toque retal. Em caso de alteração, o paciente é referenciado para o urologista e, se necessário, para biópsia e tratamento oncológico – tudo pelo sistema público.
Termos Relacionados
- PSA (Antígeno Prostático Específico): exame de sangue que mede uma proteína produzida pela próstata. Níveis elevados podem indicar câncer, mas também infecção ou aumento benigno. Não é diagnóstico, mas sim um sinal de alerta.
- Toque retal: exame físico em que o médico insere o dedo enluvado no reto para sentir a superfície da próstata. Permite detectar nódulos, assimetrias ou endurecimento suspeitos.
- Biópsia de próstata: procedimento guiado por ultrassom transretal, no qual são retirados pequenos fragmentos da próstata (core biópsia) para análise microscópica. É o único exame que confirma o diagnóstico de adenocarcinoma.
- Gleason: sistema de graduação histológica que avalia o padrão arquitetural das células tumorais. Quanto maior o escore (6 a 10), maior a agressividade.
- Metástase: disseminação do tumor para outros órgãos, mais comumente ossos (coluna, fêmur, pelve). Indica doença avançada.
- Prostatectomia radical: cirurgia para remover toda a próstata, as vesículas seminais e, às vezes, linfonodos regionais. Pode ser feita por via aberta, laparoscópica ou robótica (esta última com acesso limitado no SUS).
- Hormonioterapia (bloqueio androgênico): tratamento que reduz a produção de testosterona, hormônio que estimula o crescimento do tumor. Usada em casos avançados ou como adjuvante à radioterapia.
- Vigilância ativa: conduta para tumores de baixo risco, na qual o paciente é monitorado com exames periódicos (PSA, toque, biópsia de controle) e só recebe tratamento se houver progressão. Evita efeitos colaterais de cirurgia/radioterapia.
Perguntas Frequentes sobre Adenocarcinoma de próstata
“Adenocarcinoma de próstata tem cura?”
Sim, quando diagnosticado em estágio inicial, as chances de cura são excelentes – acima de 90% com cirurgia ou radioterapia. Mesmo em casos localmente avançados, a combinação de tratamentos pode controlar a doença por muitos anos. Já em casos metastáticos, não há cura, mas o tratamento moderno (hormonioterapia, quimioterapia, novos medicamentos) permite controle prolongado e qualidade de vida. O mais importante é não desanimar e buscar ajuda assim que possível.
“PSA alto é sinal de câncer?”
Não necessariamente. O PSA pode estar elevado por várias razões: prostatite (inflamação), hiperplasia benigna da próstata, ejaculação recente, infecção urinária ou até uso de algumas medicações. Por isso, o valor isolado não diagnostica câncer. Se o PSA estiver acima de 4,0 ng/mL (ou acima de 2,5 ng/mL em homens jovens), investigamos com toque retal e, se houver suspeita, encaminhamos para biópsia. No SUS, o exame de PSA é oferecido gratuitamente nas UBS, mas a biópsia pode ter fila dependendo da região.
“Preciso fazer toque retal? Dói?”
O toque retal é parte essencial do exame físico da próstata. Pode causar


