quinta-feira, maio 28, 2026

O que é Adenocarcinoma vaginal

O que é Adenocarcinoma vaginal?

O adenocarcinoma vaginal é um tipo raro de câncer que se origina nas células glandulares que revestem a vagina – o canal que liga o útero ao exterior do corpo. Diferente do carcinoma de células escamosas, que é o câncer de vagina mais comum e começa nas células da superfície, o adenocarcinoma se desenvolve nas glândulas secretoras de muco. Na minha prática de 15 anos no SUS e em clínicas populares, vejo que quando uma paciente recebe esse diagnóstico, o primeiro impacto é o medo e a confusão, porque muitas nunca ouviram falar dessa doença. É fundamental explicar com calma: embora seja grave, o tratamento no Brasil, pelo SUS, oferece chances reais de cura, especialmente quando descoberto cedo.

No Brasil, o câncer de vagina representa menos de 1% de todos os cânceres ginecológicos, e o adenocarcinoma corresponde a cerca de 10% a 15% desses casos. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam uma incidência anual de aproximadamente 300 a 400 novos casos de câncer de vagina em todo o país, sendo o adenocarcinoma uma fração pequena, mas importante. A idade média ao diagnóstico é entre 40 e 60 anos, mas pode ocorrer em mulheres mais jovens, especialmente aquelas com histórico de exposição ao dietilestilbestrol (DES) – um medicamento usado até os anos 1970 para evitar aborto, que infelizmente foi associado a um tipo específico de adenocarcinoma vaginal em filhas de mulheres que tomaram a droga. No SUS, o rastreio é feito principalmente por meio do exame preventivo (Papanicolau) e da colposcopia, embora o diagnóstico definitivo exija biópsia.

O contexto do sistema público de saúde brasileiro é essencial para entender o manejo do adenocarcinoma vaginal. As pacientes são encaminhadas das Unidades Básicas de Saúde (UBS) para serviços de oncologia ginecológica em hospitais de referência, como o Hospital do Câncer (INCA) no Rio de Janeiro e hospitais universitários em todo o país. O tratamento – cirurgia, radioterapia e quimioterapia – é oferecido integralmente pelo SUS, com suporte da Política Nacional de Atenção Oncológica. A dificuldade maior está no diagnóstico precoce, pois muitas mulheres, especialmente em regiões mais afastadas, não realizam exames preventivos regularmente. Por isso, reforço sempre: qualquer sangramento vaginal anormal, dor pélvica ou corrimento persistente merece investigação, mesmo que o Papanicolau anterior tenha sido normal.

Como funciona / Características

O adenocarcinoma vaginal se desenvolve a partir de mutações nas células glandulares da parede vaginal. Essas células começam a se multiplicar sem controle, formando um tumor que pode invadir tecidos vizinhos (como a bexiga ou o reto) ou se espalhar para linfonodos e órgãos distantes (metástase). A progressão é geralmente lenta no início, mas quando surge metástase, o quadro se torna mais complexo. No dia a dia da clínica, a paciente típica chega com queixas de sangramento vaginal leve (que ela pode confundir com menstruação irregular ou início de menopausa), dor durante a relação sexual (dispareunia) e, às vezes, um corrimento aquoso ou com sangue. Muitas mulheres adiam a consulta por vergonha ou por associar os sintomas a “coisas de mulher” ou infecções.

Nos atendimentos em clínicas populares, percebo que o maior desafio é distinguir o adenocarcinoma de condições benignas como vaginite atrófica (comum na pós-menopausa) ou pólipos. Quando o exame especular revela uma lesão elevada, avermelhada ou ulcerada na parede vaginal, a suspeita clínica é levantada. A confirmação vem da biópsia, guiada por colposcopia – um procedimento disponível nos ambulatórios de referência do SUS. É importante saber que o adenocarcinoma vaginal não tem relação direta com o HPV (como o câncer de colo do útero), mas a presença do vírus não está descartada como fator de risco para alguns subtipos. Por isso, a vacinação contra o HPV, oferecida gratuitamente para meninas e meninos de 9 a 14 anos pelo SUS, é uma medida de prevenção indireta para vários cânceres genitais.

O tratamento depende do estadiamento (tamanho do tumor, invasão local e metástases). Na prática, vejo pacientes com estádios iniciais (I e II) sendo submetidas a cirurgia radical (vaginectomia parcial ou total) associada a radioterapia, com boas taxas de controle local. Já em estádios avançados, a quimioterapia combinada com radioterapia é a base. O SUS disponibiliza todos esses recursos, mas a espera por consultas especializadas e o deslocamento para centros de alta complexidade podem ser barreiras. Por isso, orientamos as pacientes a buscar a Central de Regulação Municipal ou o Tratamento Fora de Domicílio (TFD) para agilizar o acesso.

Tipos e Classificações

Na prática clínica brasileira, o adenocarcinoma vaginal é classificado por sua origem histológica e pelo estadiamento (usando o sistema FIGO – Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia). Os principais tipos são:

  • Adenocarcinoma de células claras: Associado à exposição ao dietilestilbestrol (DES) no útero; ocorre geralmente em mulheres jovens (20-30 anos). Embora raro, é o tipo mais conhecido por essa relação.
  • Adenocarcinoma endometrioide: Semelhante ao câncer de endométrio; pode coexistir com endometriose.
  • Adenocarcinoma mucinoso: Produz muco em grande quantidade; menos comum.
  • Adenocarcinoma papilífero seroso: Agressivo, com tendência a metástases precoces; semelhante ao câncer de ovário.

O estadiamento segue a classificação FIGO 2022, que divide em estádios I (tumor limitado à vagina), II (invasão para tecidos adjacentes, como parâmetros), III (acometimento de linfonodos pélvicos ou inguinais) e IV (metástase à distância). Essa classificação é crucial para definir a abordagem terapêutica e o prognóstico. No Brasil, o protocolo do Ministério da Saúde para o tratamento do câncer de vagina segue as diretrizes da ANVISA e do CFM, com recomendações baseadas em evidências nacionais e internacionais. Para o adenocarcinoma, a cirurgia é preferida nos estádios iniciais, e a radioterapia com quimioterapia simultânea (quimiorradioterapia) é padrão para estádios avançados.

Quando procurar um médico

Eu repito muito para minhas pacientes: não ignore sinais persistentes. Procure uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um ginecologista se você apresentar:

  • Sangramento vaginal fora do período menstrual, após a menopausa ou após relações sexuais.
  • Dor pélvica contínua ou durante a relação sexual.
  • Corrimento vaginal anormal (aquoso, com sangue ou malcheiroso).
  • Nódulo ou lesão na vagina percebida ao toque ou durante o autoexame.
  • Dor ao urinar ou sensação de pressão na pelve (se o tumor estiver comprimindo a bexiga).

É essencial que mulheres na pós-menopausa realizem exames ginecológicos regulares, mesmo sem sintomas. O exame preventivo (Papanicolau) é o principal aliado, mas não detecta diretamente o adenocarcinoma vaginal, pois ele se origina em glândulas profundas. Porém, alterações celulares anormais no Papanicolau podem levantar suspeita e levar à colposcopia com biópsia. No SUS, o rastreio do câncer de colo do útero é prioritário, mas a vagina também é examinada durante a colposcopia. Se houver lesão suspeita, a biópsia é realizada no mesmo ato.

Para as filhas de mulheres que usaram dietilestilbestrol (DES) – muitas hoje com 40 a 60 anos – recomendamos acompanhamento ginecológico anual com colposcopia a partir dos 14 anos ou quando iniciarem a vida sexual. Infelizmente, muitas mulheres desconhecem se suas mães usaram DES; o histórico materno deve ser perguntado. Em qualquer caso, não hesite: a detecção precoce eleva as chances de cura para mais de 80% nos estádios iniciais.

Termos Relacionados

  • Câncer de colo do útero: Tumor que se origina no colo do útero, geralmente relacionado ao HPV, com rastreio pelo Papanicolau. É muito mais comum que o adenocarcinoma vaginal.
  • Colposcopia: Exame que amplia a visão do colo do útero e da vagina, fundamental para identificar lesões suspeitas e guiar biópsias.
  • Biopsia: Retirada de um pequeno fragmento da lesão para análise no laboratório. É o padrão-ouro para o diagnóstico definitivo de adenocarcinoma vaginal.
  • Dietilestilbestrol (DES): Medicamento sintético de estrogênio utilizado entre 1940 e 1970 para prevenir aborto; exposição intrauterina aumenta o risco de adenocarcinoma de células claras na vagina e no colo do útero.
  • Estadiamento (FIGO): Sistema que classifica a extensão do câncer (do estádio I ao IV). Determina o tratamento e o prognóstico.
  • Vaginectomia: Cirurgia para remover parcial ou totalmente a vagina. Pode ser necessária em tumores localizados. Pode ser associada à reconstrução vaginal.
  • Quimiorradioterapia: Combinação de quimioterapia e radioterapia, usada em estádios avançados para aumentar a eficácia do tratamento.
  • Metástase: Disseminação do câncer para outros órgãos, como pulmão, fígado ou gânglios linfáticos. No adenocarcinoma vaginal, as metástases mais com

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