O que é Aderência?
Aderência (também chamada de adesão ao tratamento) é o grau em que o comportamento de uma pessoa — tomar medicamentos, seguir uma dieta, realizar exames ou comparecer a consultas — corresponde às recomendações acordadas com o profissional de saúde. No meu dia a dia como clínico geral no SUS e em clínicas populares, percebo que a aderência vai muito além de simplesmente “obedecer” a uma receita. Ela envolve a parceria entre médico e paciente, considerando as condições sociais, emocionais e financeiras de cada um.
No Brasil, a baixa aderência é um dos maiores desafios da saúde pública. Dados do Ministério da Saúde indicam que, em doenças crônicas como hipertensão e diabetes, cerca de 50% dos pacientes abandonam o tratamento no primeiro ano. Na tuberculose, a taxa de abandono chega a 15% em algumas regiões, o que contribui para a resistência aos medicamentos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que a falta de aderência é a principal causa de hospitalizações evitáveis e de desperdício de recursos no SUS.
Na prática clínica, avaliar a aderência exige escuta ativa e empatia. Muitas vezes, o paciente deixa de tomar o remédio não por descuido, mas por efeitos colaterais, dificuldade de acesso ao medicamento na farmácia popular, ou simplesmente por não entender a importância do tratamento. Por isso, prefiro falar em aderência compartilhada: um compromisso construído juntos, não uma imposição.
Como funciona / Características
A aderência não é um ato único, mas um processo contínuo que pode ser influenciado por vários fatores. No consultório, vejo isso todos os dias.
Exemplo prático: Seu João, 62 anos, hipertenso, veio à consulta com a pressão descontrolada. Perguntei: “Seu João, o senhor está tomando o remédio direitinho?” Ele respondeu: “Doutor, tomo sim, mas às vezes esqueço depois do almoço.” Ao conversar mais, descobri que ele mora sozinho, tem dificuldade para abrir o frasco e fica tonto com o medicamento. A aderência dele não era “ruim” — era cheia de barreiras práticas.
Características principais da aderência:
- Multifatorial: depende de aspectos relacionados ao paciente (crenças, motivação), ao tratamento (complexidade, efeitos), à doença (gravidade, ausência de sintomas) e ao sistema de saúde (acesso, acolhimento).
- Dinâmica: pode variar ao longo do tempo. Um paciente que adere bem nos primeiros meses pode relaxar quando se sente melhor.
- Mensurável: existem métodos como contagem de comprimidos, questionários (ex: Escala de Morisky) e, no SUS, o acompanhamento pelo prontuário eletrônico e sistemas de dispensação de medicamentos.
- Influenciada pela relação médico-paciente: consultas mais longas, linguagem acessível e confiança aumentam a aderência.
No contexto das clínicas populares, onde atendo pacientes com baixa renda e alta rotatividade, a aderência é ainda mais desafiadora. Muitos deixam de comprar o remédio porque o preço subiu, ou param de ir ao posto porque não conseguem falta no trabalho. Por isso, sempre procuro conhecer a realidade de cada um e adaptar o plano terapêutico.
Tipos e Classificações
No Brasil, os profissionais de saúde costumam classificar a aderência de duas formas principais:
- Aderência primária: quando o paciente inicia o tratamento conforme prescrito. Por exemplo, compra o antibiótico e começa a tomar no mesmo dia. Estudos do SUS mostram que até 30% das prescrições de doenças crônicas nunca são retiradas nas farmácias públicas.
- Aderência secundária: manutenção do tratamento ao longo do tempo, respeitando doses e horários. É o maior desafio nas doenças assintomáticas, como hipertensão — o paciente não sente nada, então para de tomar.
Também usamos a classificação da OMS, que agrupa os fatores que afetam a aderência em cinco dimensões:
- Fatores sociais e econômicos: baixa escolaridade, desemprego, falta de suporte familiar.
- Fatores relacionados ao sistema de saúde: filas, falta de medicamentos, má comunicação com a equipe.
- Fatores relacionados à doença: doenças crônicas sem sintomas agudos (ex: colesterol alto) reduzem a motivação.
- Fatores relacionados ao tratamento: número de comprimidos, efeitos colaterais, horários complexos.
- Fatores relacionados ao paciente: crenças sobre a doença, conhecimento, depressão.
Essa classificação ajuda a identificar onde atuar: se o problema é acesso ao remédio, resolvo orientando sobre a Farmácia Popular; se é falta de informação, explico devagar com desenhos.
Quando procurar um médico
A aderência baixa nem sempre é óbvia. Muitos pacientes não contam que estão pulando doses com medo de decepcionar o médico. Fique atento a estes sinais de alerta:
- Sintomas da doença que pioram (ex: glicemia alta no diabetes, falta de ar na insuficiência cardíaca);
- Exames laboratoriais fora do alvo, mesmo com uso declarado de medicação;
- Faltas frequentes às consultas de retorno;
- Relato de “esquecimentos” constantes ou de “melhorou, parou”;
- Efeitos colaterais não comunicados que fazem o paciente parar por conta própria.
Orientação ao paciente: Se você está com dificuldade para seguir o tratamento, não se sinta culpado. Marque uma consulta e diga a verdade. Vou perguntar (e você pode responder): “Doutor, estou com enjoo do remédio”, “Não consigo acordar nesse horário”, “O comprimido é muito caro”. Juntos, podemos ajustar a dose, trocar a medicação, ou simplificar o esquema. Nunca pare um tratamento sem falar com o profissional — isso pode trazer riscos, como crises hipertensivas ou resistência a antibióticos.
Situações que exigem busca imediata de ajuda: se você tem uma doença crônica e notou que deixou de tomar os remédios por mais de uma semana, ou se está com sintomas novos/agravados, procure um médico ou uma unidade de saúde (UBS) o mais rápido possível.
Termos Relacionados
- Não adesão: quando o paciente não cumpre o tratamento conforme prescrito, seja por esquecimento, recusa ou impossibilidade.
- Abandono de tratamento: interrupção completa e prolongada do acompanhamento, comum em tuberculose e hanseníase.
- Polifarmácia: uso de múltiplos medicamentos ao mesmo tempo, que pode dificultar a aderência.
- Autocuidado: capacidade do paciente de gerenciar sua saúde, incluindo tomar remédios, fazer dieta e monitorar sinais.
- Letramento em saúde: habilidade de entender e usar informações de saúde para tomar decisões; baixa letramento reduz aderência.
- Efeito colateral: reação indesejada de um medicamento, que muitas vezes leva o paciente a interromper o uso sem orientação.
- Escore de Morisky: questionário usado no Brasil para medir aderência medicamentosa em 4 perguntas simples.
- Programa Farmácia Popular: iniciativa do governo brasileiro que oferece medicamentos gratuitos ou com desconto para hipertensão, diabetes, asma, entre outros, visando melhorar a aderência.
Perguntas Frequentes sobre O que é Aderência
1. Por que é tão difícil ser aderente ao tratamento?
Existem muitas razões. Pode ser que o remédio cause enjoo ou tontura, que o horário seja muito complicado (toma a cada 8 horas), que o paciente não entenda a gravidade da doença, ou que não tenha dinheiro para comprar o medicamento. No Brasil, a falta de tempo para ir ao posto, as longas filas e a dificuldade de renovar receitas também pesam. O importante é não se culpar — aderência é uma responsabilidade compartilhada entre você e sua equipe de saúde.
2. O que fazer se esquecer de tomar o remédio?
Não entre em pânico. A regra geral (mas sempre confirme com seu médico) é: se o atraso for de poucas horas, tome assim que lembrar. Se estiver quase na hora da próxima dose, pule a dose esquecida e volte ao horário normal — nunca dobre a dose. Em medicamentos de uso contínuo, como anti-hipertensivos, um único esquecimento geralmente não causa dano, mas se esquecer com frequência, a doença pode descompensar. Converse com seu médico para criar lembretes, como alarme no celular ou caixinha de comprimidos.
3. Como o SUS ajuda na aderência ao tratamento?
O SUS oferece várias ferramentas: a Farmácia Popular distribui medicamentos gratuitos para doenças crônicas; as Unidades Básicas de Saúde fazem o acompanhamento mensal de casos de tuberculose e hanseníase; agentes comunitários visitam a casa de pacientes que faltaram; e há programas como o “HiperDia” para educação em saúde. Infelizmente, o acesso varia conforme a região, mas a orientação é sempre buscar a UBS mais próxima.
4. Meu filho foi diagnosticado com asma. Como garantir que ele tome a bombinha todo dia?
Crianças podem ter mais resistência. Tente transformar a medicação em uma rotina divertida: associar à escovação dos dentes, usar recompensas simbólicas, explicar de forma lúdica (a bombinha “abre as portas do pulmão”). Converse com o pediatra sobre o espaçador, que facilita o uso. E nunca subestime o poder do exemplo: se os pais também têm hábitos saudáveis, a aderência da criança melhora.
5. Dá para medir a aderência em casa?
Você pode fazer uma autoavaliação simples: nos últimos 15 dias, quantos dias você deixou de tomar o remédio? Mais de 3 dias de falha indica baixa aderência. Existem também aplicativos de celular que registram horários de medicação. Mas, para um diagnóstico mais preciso, apenas o médico pode usar questionários validados (como o Teste de Morisky) e analisar exames de sangue (ex: hemoglobina glicada no diabetes mostra o controle dos últimos 3 meses).
6. A pobreza ou a baixa escolaridade impedem a aderência?
A pobreza é um dos maiores obstáculos, sim. Quem não tem dinheiro para comprar o remédio ou para pagar a passagem até o posto tem mais chance de abandonar o tratamento. A baixa escolaridade pode dificultar o entendimento da bula e das instruções. Por isso, no SUS e nas clínicas populares, os profissionais devem adaptar a linguagem e oferecer estratégias de acesso. Se essa é sua realidade, peça ajuda na unidade de saúde: há assistentes sociais e programas de distribuição gratuita de medicamentos.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


