O que é O que é Agranulocitose?
Agranulocitose é uma condição grave caracterizada pela queda acentuada dos granulócitos (principalmente os neutrófilos) no sangue. Essas células são os “soldados” do sistema imunológico, responsáveis por combater infecções bacterianas e fúngicas. Quando o número de neutrófilos cai abaixo de 500 células por microlitro de sangue, o corpo fica praticamente sem defesa, abrindo portas para infecções oportunistas que podem se tornar fatais se não forem tratadas a tempo. Na prática da clínica popular, atendo frequentemente pacientes que chegam com febre alta, dor de garganta intensa ou aftas que não cicatrizam, e o hemograma revela essa queda drástica. Muitas vezes, o gatilho é o uso de medicamentos comuns no Brasil, como a dipirona (muito usada para dor e febre) ou a clozapina (antipsicótico prescrito no SUS para esquizofrenia resistente).
No contexto do SUS, a agranulocitose tem relevância especial por causa do programa de monitoramento da clozapina. A ANVISA exige que todo paciente que inicia esse medicamento faça exames de sangue semanais nas primeiras 18 semanas e depois a cada mês, para detectar precocemente a queda dos neutrófilos. Infelizmente, na correria do dia a dia, muitos pacientes faltam às consultas e aos exames, colocando a vida em risco. Dados do Ministério da Saúde indicam que a incidência de agranulocitose induzida por clozapina no Brasil é de cerca de 0,8% a 1,2% dos usuários, similar à de outros países. Mas a subnotificação ainda é um problema, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde o acesso ao monitoramento é mais precário.
É importante que o paciente leigo entenda que agranulocitose não é uma doença comum – ela é uma reação adversa rara, porém potencialmente mortal. Por isso, qualquer pessoa que esteja em uso de medicamentos de risco (como antipsicóticos, antitireoidianos, antibióticos sulfonamidas ou mesmo anti-inflamatórios) deve ficar alerta a sintomas como febre, calafrios, dor de garganta ou lesões na boca. Na minha experiência, quem procura ajuda rapidamente tem grandes chances de se recuperar totalmente, pois existem tratamentos eficazes no SUS, como o uso do fator estimulador de colônias de granulócitos (G-CSF) e a suspensão imediata do medicamento causador.
Como funciona / Características
A medula óssea produz constantemente neutrófilos, que são liberados na corrente sanguínea para patrulhar o corpo. Na agranulocitose, essa produção é abruptamente interrompida ou os neutrófilos são destruídos em grande quantidade, geralmente por um mecanismo alérgico ou tóxico a um medicamento. Isso acontece porque o sistema imunológico reconhece a droga como um “inimigo” e ataca as próprias células que estão sendo produzidas na medula. O resultado é que, em poucos dias, o paciente fica sem defesa contra germes que antes seriam inofensivos.
No consultório da clínica popular, o cenário típico é: paciente chega com febre de 39°C, queixando-se de dor de garganta intensa, dificuldade para engolir e “íngua” no pescoço. Ao exame, vejo amígdalas com placas de pus e aftas na boca. Quando pergunto sobre remédios em uso, a pessoa responde: “Tomei dipirona para uma dor de cabeça que não passava, usei por uns três dias”. Peço um hemograma de urgência e, em algumas horas, o resultado mostra neutrófilos abaixo de 400. É aí que a campainha de alarme dispara. Internamos o paciente para isolamento e iniciamos antibióticos de amplo espectro e, se necessário, G-CSF para estimular a medula a produzir novos neutrófilos.
Outro exemplo comum no SUS: pacientes com transtorno mental em uso de clozapina que abandonam o monitoramento. Eles podem desenvolver agranulocitose de início insidioso, com febre e infecções de repetição. Quando finalmente procuram atendimento, os neutrófilos já estão zerados. Por isso, todo serviço de saúde mental do Brasil tem um protocolo rígido: sem o exame de sangue atualizado, a clozapina não é dispensada. É uma medida que salva vidas, mas que exige conscientização da família e do paciente.
Tipos e Classificações
Na prática clínica brasileira, classificamos a agranulocitose principalmente pela causa:
- Agranulocitose medicamentosa (mais comum): causada por fármacos como clozapina, dipirona, propiltiouracil (para hipertireoidismo), sulfonamidas, carbamazepina e alguns anti-inflamatórios. No Brasil, a dipirona é um dos principais vilões porque é vendida sem receita e usada indiscriminadamente.
- Agranulocitose autoimune: acontece quando o próprio sistema imunológico produz anticorpos que destroem os neutrófilos. É rara, mas pode ocorrer em doenças como lúpus ou artrite reumatoide.
- Agranulocitose infecciosa: algumas infecções virais (como mononucleose, HIV, dengue) ou bacterianas graves podem esgotar temporariamente a produção de neutrófilos.
- Agranulocitose congênita (síndrome de Kostmann): doença genética rara, diagnosticada na infância, com neutropenia grave desde o nascimento.
Também classificamos pela gravidade com base na contagem de neutrófilos (referência usada nos laudos do SUS):
- Leve: 1.000 – 1.500 neutrófilos/mm³
- Moderada: 500 – 1.000/mm³
- Grave (agranulocitose propriamente dita): abaixo de 500/mm³
Essa classificação ajuda a decidir a urgência do tratamento. No SUS, quando o paciente tem neutrófilos < 500, é considerada emergência hematológica e exige internação imediata.
Quando procurar um médico
Sinais de alerta que não podem esperar:
- Febre alta (acima de 38,5°C) que surge de repente, especialmente se acompanhada


