quinta-feira, maio 28, 2026

O que é Amnésia

O que é O que é Amnésia?

Amnésia é a perda total ou parcial da capacidade de recordar informações, experiências ou eventos. Na minha prática de 15 anos entre o SUS e clínicas populares, o termo aparece de forma muito variada: desde a idosa que chega dizendo “não lembro onde coloquei os documentos”, até o jovem que sofreu um acidente de moto e não se recorda das horas anteriores à batida. É importante entender que amnésia não é um diagnóstico único, mas um sintoma — um sinal de que algo está acontecendo com o cérebro ou com a saúde mental do paciente.

No Brasil, a prevalência de amnésia relacionada a causas neurológicas é significativa. Dados do Ministério da Saúde apontam que cerca de 1,2 milhão de brasileiros vivem com algum tipo de demência, e a Doença de Alzheimer é a causa mais comum. Além disso, o traumatismo cranioencefálico (TCE) — muito frequente em acidentes de trânsito e quedas, principalmente em centros urbanos — é uma das principais causas de amnésia pós-traumática. O Sistema Único de Saúde (SUS) atende milhares desses casos todos os anos nos prontos-socorros, nas Unidades Básicas de Saúde e nos ambulatórios de neurologia. O acesso ao diagnóstico ainda é desigual, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, mas a Rede de Atenção à Saúde tem buscado ampliar a oferta de testes cognitivos e de imagem.

Quando atendo um paciente com queixa de esquecimento, sempre procuro diferenciar o que é um “branco” normal — que todos temos, especialmente sob estresse ou cansaço — daquilo que realmente interfere na vida diária. A amnésia clínica começa a ser preocupante quando a pessoa não consegue lembrar de fatos recentes, se perde em lugares conhecidos, repete as mesmas perguntas várias vezes ou tem dificuldade para aprender coisas novas. Esses sintomas merecem uma investigação cuidadosa, que pode incluir exames de sangue, avaliação neuropsicológica e, se necessário, exames de imagem como tomografia ou ressonância magnética — todos disponíveis no SUS, embora com prazos variáveis.

Como funciona / Características

Amnésia não é simplesmente “apagar” uma parte da memória. Ela pode afetar diferentes sistemas: a memória de curto prazo (aquilo que retemos por segundos ou minutos), a memória de longo prazo (eventos de horas, dias ou anos atrás) e até mesmo a memória de procedimentos (como andar de bicicleta ou escovar os dentes). Na prática clínica, costumo explicar aos pacientes com uma imagem: a memória é como um arquivo. A amnésia pode ser uma falha em “gravar” o arquivo novo, uma dificuldade em “recuperar” um arquivo antigo, ou até a perda física do arquivo.

Um exemplo que vejo com frequência: um senhor de 68 anos, hipertenso e diabético, chega à consulta acompanhado da esposa. Ela conta que ele passa o dia inteiro perguntando a mesma coisa, como “que dia é hoje?” ou “vamos almoçar?”. Ele não lembra de ter feito a pergunta minutos antes. Isso é típico de amnésia anterógrada: a dificuldade em formar novas memórias. Já a amnésia retrógrada é quando a pessoa não se recorda de eventos ocorridos antes do início do problema — por exemplo, um paciente que sofreu um AVC e não se lembra dos últimos dois anos. Em clínicas populares, também atendo muitos casos de amnésia global transitória: uma crise aguda de confusão e perda de memória que dura algumas horas e, depois, a pessoa fica sem lembrar do episódio. Isso assusta muito os familiares, mas geralmente tem bom prognóstico.

No cotidiano do SUS, a avaliação da amnésia começa na Atenção Primária com testes simples como o Mini Exame do Estado Mental (MEEM) e o Teste do Relógio. Se houver suspeita de demência, o paciente é encaminhado para a neurologia. Em casos de amnésia súbita e grave, como após um acidente ou um derrame, o atendimento é de urgência nas UPAs e hospitais. Exames de neuroimagem são fundamentais para descartar sangramentos, tumores e outras lesões.

Tipos e Classificações

Na prática médica brasileira, classificamos a amnésia principalmente com base em dois critérios: a localização temporal e a causa. Veja os principais tipos que eu encontro no dia a dia:

  • Amnésia anterógrada: incapacidade de formar novas memórias após o evento causador. É a forma mais comum em lesões do lobo temporal (como na Doença de Alzheimer e após lesões no hipocampo).
  • Amnésia retrógrada: perda de memórias formadas antes do início do problema. Pode ser extensa (anos) ou limitada (horas/dias).
  • Amnésia global transitória: episódio súbito de confusão, desorientação e perda de memória que dura de 1 a 24 horas. A pessoa não consegue reter novas informações, mas mantém a identidade. É mais comum em pessoas acima de 50 anos e geralmente sem sequelas permanentes.
  • Amnésia lacunar: “apagamento” de um período específico de tempo, geralmente associado a traumatismo craniano ou epilepsia. O paciente pode lembrar de tudo antes e depois, mas não do intervalo.
  • Amnésia psicogênica ou dissociativa: causada por trauma psicológico intenso, não por lesão cerebral. A pessoa pode perder a memória autobiográfica (quem é, onde mora) sem ter dano neurológico. É um quadro psiquiátrico previsto no CID-10 (F44.0).
  • Amnésia induzida por substâncias: uso crônico de álcool (Síndrome de Korsakoff), benzodiazepínicos, drogas ilícitas ou alguns medicamentos. É frequente em pacientes de clínicas populares.

No Brasil, a Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID-11) e os protocolos do Ministério da Saúde orientam o diagnóstico. Por exemplo, a amnésia global transitória tem código G45.4 (ataque isquêmico transitório afetando memória) e as demências são codificadas como G30, F00-F03. O CFM recomenda que o diagnóstico diferencial inclua sempre causas reversíveis como deficiência de vitamina B12, hipotireoidismo, infecções neurológicas e depressão.

Quando procurar um médico

Procure atendimento médico se você ou alguém próximo apresentar:

  • Esquecimentos frequentes que atrapalham o trabalho, as finanças ou a vida social.
  • Dificuldade súbita para lembrar de eventos recentes, nomes de familiares ou caminhos conhecidos.
  • Repetição da mesma pergunta várias vezes em um curto período.
  • Desorientação em lugares familiares (perder-se dentro de casa, não saber o dia da semana).
  • Alterações de comportamento associadas: apatia, agressividade, desconfiança.
  • Perda de memória após traumatismo craniano (queda, acidente, pancada na cabeça), mesmo que pareça leve.
  • Confusão repentina com duração de minutos a horas — pode ser amnésia global transitória ou AVC.

Nas clínicas populares e no SUS, a porta de entrada mais comum é a Unidade Básica de Saúde (UBS). O médico generalista fará uma triagem inicial. Se houver suspeita de causa neurológica, o encaminhamento é para o neurologista. Para casos de amnésia psicogênica, o psiquiatra ou psicólogo são os mais indicados. Lembre-se: amnésia não é “falta de atenção” nem “preguiça”. É um sintoma que merece investigação. Não demore a buscar ajuda, porque muitas causas têm tratamento e podem até ser reversíveis.

Termos Relacionados

  • Demência: síndrome caracterizada por declínio cognitivo global (memória, linguagem, raciocínio) que interfere na vida diária. A Doença de Alzheimer é a causa mais comum no Brasil.
  • Traumatismo Cranioencefálico (TCE): lesão no crânio e encéfalo, geralmente por acidentes ou quedas. Pode causar amnésia pós-traumática, muitas vezes transitória.
  • Acidente Vascular Cerebral (AVC): interrupção do fluxo sanguíneo no cérebro. Dependendo da área afetada, pode provocar amnésia anterógrada ou retrógrada.
  • Síndrome de Korsakoff: amnésia grave causada por deficiência de tiamina, comum em alcoólatras crônicos. Provoca dificuldade em formar novas memórias e confabulação (preencher lacunas com invenções).
  • Delirium: estado de confusão aguda com flutuação da atenção e da memória, geralmente causado por infecção, desidratação ou medicamentos. É uma emergência médica.
  • Teste do Relógio: exame simples de rastreio cognitivo, no qual o paciente deve desenhar um relógio marcando um horário específico. É amplamente usado nas UBS brasileiras.
  • Amnésia global transitória: episódio autolimitado de perda de memória anterógrada, associado a estresse, esforço físico ou mergulho em água fria. Autolimitado e benigno.
  • Hipocampo: estrutura cerebral fundamental para a formação de novas memórias. Lesões no hipocampo (como em Alzheimer e encefalites) causam amnésia anterógrada.

Perguntas Frequentes sobre O que é Amnésia

1. Amnésia é a mesma coisa que Alzheimer?