sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Amputação transfemoral

O que é Amputação transfemoral?

Amputação transfemoral é o procedimento cirúrgico de remoção do membro inferior acima do joelho, ou seja, entre a articulação do quadril e o joelho. No meu dia a dia como clínico geral no SUS e em clínicas populares de Fortaleza, esse termo aparece com frequência em prontuários de pacientes que chegam com feridas crônicas, pé diabético complicado ou complicações vasculares que evoluíram para necrose irreversível. Trata-se de uma cirurgia de grande porte, que altera profundamente a mobilidade e a qualidade de vida, mas que, quando bem indicada, pode salvar vidas ao remover um foco de infecção ou gangrena.

No Brasil, estima-se que cerca de 85% das amputações de membros inferiores estejam relacionadas a complicações do diabetes mellitus e doenças vasculares periféricas, segundo dados do Ministério da Saúde e do DATASUS. Em clínicas populares, vemos muitos pacientes que perderam o acompanhamento regular, não aderiram ao controle glicêmico ou vieram de regiões com acesso limitado a cuidados de pé diabético. A amputação transfemoral, nesse contexto, não é um fracasso, mas muitas vezes a única opção para evitar sepse e morte. O SUS oferece o procedimento, próteses básicas e reabilitação, embora os prazos de espera para próteses possam ser longos.

No consultório, costumo explicar ao paciente que “transfemoral” significa que o corte passa pelo osso da coxa (fêmur). O nível exato da amputação é definido pelo cirurgião ortopédico ou vascular baseado na circulação local e viabilidade dos tecidos. Manter um coto bem cicatrizado e saudável é fundamental para o uso futuro de próteses. A reabilitação no SUS envolve fisioterapia, treino de marcha e adaptação psicológica, pois a perda de um membro afeta a autoestima, a independência e a inserção social.

Como funciona / Características

A decisão de realizar uma amputação transfemoral nunca é tomada de forma leve. Antes da cirurgia, eu e a equipe multidisciplinar avaliamos a perfusão do membro (com Doppler ou angiografia), infecções ativas, estado nutricional e capacidade funcional do paciente. O procedimento é feito sob anestesia geral ou raquianestesia. O cirurgião faz uma incisão na coxa, identifica os músculos, vasos e nervos, liga as artérias e veias, corta o fêmur em nível adequado e modela o coto para receber uma prótese.

Após a cirurgia, o paciente permanece internado geralmente de 3 a 7 dias, dependendo da presença de comorbidades. O cuidado com a ferida é essencial: trocas de curativo, prevenção de infecção (muitas vezes já havia infecção prévia) e controle da dor. No SUS, a equipe de enfermagem das clínicas populares orienta a família sobre como cuidar do coto em casa. Uma dica que sempre dou: nunca use substâncias caseiras ou álcool no coto.

Na reabilitação, o paciente começa a usar uma prótese provisória (ou “prótese de treino”) após cerca de 4 a 6 semanas, quando o coto já está mais firme. A adaptação exige paciência: muitos pacientes têm dores fantasmas (sensação de que o membro ainda está lá) ou desconforto no coto. O SUS fornece próteses definitivas através dos Centros de Reabilitação, mas há filas. Em clínicas particulares conveniadas ou ONGs, o acesso pode ser mais rápido. Meu papel é orientar sobre os direitos do paciente (Lei 13.146/2015 – Estatuto da Pessoa com Deficiência) e encaminhar para assistência social.

Tipos e Classificações

A classificação da amputação transfemoral leva em conta o nível do corte ao longo do fêmur. As principais são:

  • Amputação transfemoral proximal: corte nos terços superiores da coxa, próximo ao quadril. Resta um coto curto, que dificulta a adaptação de próteses com encaixe funcional. O paciente pode precisar de uma prótese com cinto pélvico ou de dispositivos especiais.
  • Amputação transfemoral média: corte no meio da coxa. É o nível mais comum, pois permite um bom acoplamento da prótese e preserva músculos importantes para a marcha.
  • Amputação transfemoral distal (ou supracondiliana): corte próximo ao joelho, mas acima da articulação. Ao contrário da desarticulação do joelho, esse nível mantém o coto mais longo, mas pode ter problemas de coxim para a prótese. Há debate entre cirurgiões sobre qual abordagem é melhor.
  • Amputação com desarticulação de joelho: embora não seja tecnicamente transfemoral, muitas vezes é considerada no mesmo espectro. Remove o membro na altura da articulação do joelho, poupando o fêmur inteiro. Oferece um coto longo e resistente, ideal para próteses.

Nos prontuários do SUS, também vemos a classificação AG (acima do joelho) vs AB (abaixo do joelho). A transfemoral é uma forma de amputação AG. Os cirurgiões seguem as normas da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) para indicação e técnica.

Quando procurar um médico

Pacientes que já passaram por uma amputação transfemoral devem procurar o médico imediatamente se apresentarem:

  • Sinais de infecção no coto: vermelhidão, calor, inchaço, pus, odor forte ou febre acima de 37,8°C.
  • Dor intensa que não melhora com analgésicos comuns ou dor fantasma que interfere no sono e na alimentação.
  • Mudança na coloração do coto (escurecimento ou palidez) – pode indicar isquemia ou trombose.
  • Ferida que não cicatriza após duas semanas de cuidados básicos.
  • Dificuldade respiratória súbita, dor no peito ou inchaço na perna contralateral – riscos de tromboembolismo.
  • Alterações emocionais graves: tristeza profunda, isolamento, pensamentos de desesperança – a depressão pós-amputação é comum e deve ser tratada.

Além disso, qualquer pessoa com diabetes, pressão alta ou doença arterial periférica que apresente feridas nos pés que não cicatrizam, ou dor ao caminhar (claudicação), deve buscar avaliação médica antes que a situação evolua para uma amputação. A prevenção ainda é o melhor caminho: o SUS oferece o Programa de Pé Diabético em muitas Unidades Básicas de Saúde.

Termos Relacionados

  • Amputação transtibial: remoção do membro abaixo do joelho, poupando a articulação. Prognóstico funcional melhor, já que o joelho é preservado.
  • Desarticulação de joelho: amputação na altura da articulação do joelho, deixando o fêmur intacto. Menos comum, mas permite prótese estável.
  • Coto de amputação: a parte remanescente do membro após a cirurgia. Sua saúde é crucial para suportar a prótese.
  • Dor fantasma: sensação dolorosa que parece vir do membro amputado, presente em até 80% dos pacientes. Pode ser tratada com medicação, fisioterapia e técnicas de espelho.
  • Reabilitação protética: processo multidisciplinar que inclui exercícios, treino de equilíbrio, fortalecimento e adaptação à prótese.
  • Proporção de amputações no Brasil: segundo o DATASUS, em 2022 foram realizadas cerca de 60 mil amputações de membros inferiores, sendo 30% transfemorais. A maioria (85%) em pacientes com diabetes.
  • Estomatoterapia: especialidade que cuida de ostomias e feridas, auxiliando no curativo do coto.
  • Órtese vs. prótese: órtese é um suporte externo (ex: tala, joelheira) que auxilia um membro existente; prótese substitui o segmento ausente.

Perguntas Frequentes sobre O que é Amputação transfemoral

1. A amputação transfemoral é dolorosa?

Sim, a cirurgia em si causa dor, mas é controlada com medicamentos no hospital. Após a alta, muitos pacientes sentem dor fantasma – uma sensação dolorosa no pé ou perna que não existe mais. Isso é normal e melhora com o tempo, mas requer tratamento com analgésicos específicos, fisioterapia e até terapias como a caixa de espelho. A dor aguda no coto que piora com o toque pode ser sinal de infecção – procure o médico.

2. Quanto tempo leva para andar com prótese após uma amputação transfemoral?

O processo é gradual. Após a cirurgia, o paciente precisa aguardar a cicatrização completa do coto (cerca de 4 a 6 semanas). Então inicia-se a reabilitação com a prótese provisória. Muitos pacientes começam a dar os primeiros passos com andador em 2 a 3 meses. A marcha independente com prótese definitiva pode levar de 6 meses a 1 ano, dependendo da idade, condição física e acesso à fisioterapia. No SUS, o tempo de espera para a prótese pode atrasar esse cronograma.

3. Posso dirigir após uma amputação transfemoral?

Sim, desde que o carro seja adaptado e a pessoa tenha força e equilíbrio para acionar os pedais. Existem dispositivos como acelerador à esquerda, controle manual e adaptações para câmbio automático. O Detran oferece avaliação para pessoas com deficiência. É possível obter a Carteira Nacional de Habilitação Especial (CNH adaptada). Recomendo buscar uma autoescola especializada e o serviço de reabilitação do SUS para treino.

4. A prótese paga pelo SUS funciona bem?

Sim, o SUS oferece próteses de boa qualidade, mas o modelo mais comum é a prótese mecânica com joelho monocêntrico, que exige mais esforço do paciente para andar. Para próteses com tecnologia mais avançada (como joelho com controle de fluxo ou microprocessador), o acesso é mais restrito e depende de critérios específicos. Muitos pacientes precisam de treino intensivo para se adaptar. O importante é iniciar o processo: com a prótese básica, a maioria das pessoas consegue deambular e realizar atividades diárias.

5. Existe risco de infecção no coto anos depois?

Sim, especialmente se houver uma ferida, trauma ou contato com sujeira. A pele do coto tem menor sensibilidade e pode sofrer escoriações sem que a pessoa perceba. É fundamental inspecionar o coto diariamente (com um espelho, se necessário), manter a higiene, usar meias limpas e ajustar a prótese regularmente. Diabetes e má circulação aumentam o risco. Qual sinal de vermelhidão, calor ou secreção – procure o posto de saúde ou clínica rapidamente.

6. A amputação transfemoral muda a vida sexual?

Pode afetar a imagem corporal e a autoestima, mas muitos pacientes retomam uma vida sexual ativa e satisfatória. A comunicação com o parceiro(a) é essencial. Alguns ajustes posturais podem ser necessários. Existem grupos de apoio e psicólogos especializados em reabilitação. Não hesite em conversar com seu médico ou encaminhar para um profissional de saúde sexual. A perda de um membro não precisa ser um obstáculo para o afeto e a intimidade.

Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.