O que é O que é Amputação transtibial?
A amputação transtibial é um procedimento cirúrgico que consiste na remoção de uma parte da perna, abaixo do joelho, mantendo a articulação do joelho intacta. Na prática do dia a dia, no SUS e em clínicas populares brasileiras, essa é uma das amputações mais comuns, geralmente indicada quando há perda de viabilidade do membro inferior devido a doenças como diabetes descompensado, doença arterial obstrutiva periférica, infecções graves (como o pé diabético) ou traumas extensos.
No consultório de um clínico geral, o termo aparece com frequência durante o acompanhamento de pacientes com feridas crônicas nos pés ou na perna que não cicatrizam. O médico precisa orientar sobre os riscos de evolução para uma amputação e, quando ela se torna inevitável, preparar o paciente e a família para o processo cirúrgico e a reabilitação. Dados do Ministério da Saúde indicam que, no Brasil, ocorrem cerca de 150 mil amputações de membros inferiores por ano, sendo a maioria decorrente de complicações do diabetes mellitus. A amputação transtibial representa aproximadamente 40% desses casos, muitas vezes evitável com cuidados primários adequados.
A escolha por esse nível de amputação, em vez de uma acima do joelho, é fundamental para preservar a articulação, o que facilita muito a adaptação a uma prótese e a reabilitação funcional. No SUS, o acesso a próteses e à fisioterapia é um direito garantido pela Política Nacional de Atenção à Pessoa com Deficiência, mas na prática, em regiões mais carentes, a fila de espera pode ser longa. O clínico geral tem o papel de encaminhar o paciente para o serviço de reabilitação mais próximo e orientar sobre os direitos, como a disponibilidade de órteses e próteses pelo Sistema Único de Saúde (veja Ministério da Saúde – Amputação).
Como funciona / Características
A amputação transtibial é realizada em ambiente hospitalar, sob anestesia geral ou raquianestesia, por uma equipe cirúrgica composta por cirurgião vascular ou ortopedista. O procedimento consiste em cortar os ossos da perna (tíbia e fíbula) cerca de 10 a 15 centímetros abaixo da articulação do joelho, modelar o coto (a parte que sobra) para que fique bem arredondado e possa se encaixar em uma prótese, e suturar os músculos e a pele. A recuperação inicial leva de 2 a 4 semanas, com curativos diários e controle rigoroso da dor e da infecção.
No cotidiano de uma clínica popular, o clínico geral acompanha o paciente após a alta hospitalar. As principais queixas são: dor no coto (sensação de membro fantasma), dificuldade de cicatrização da ferida operatória, inchaço e dificuldade emocional para aceitar a nova condição. Um ponto crítico é o risco de infecção no coto, especialmente em pacientes diabéticos ou com má circulação. Por isso, orientamos a lavagem diária com água e sabão neutro, secagem suave com toalha limpa, e uso de meia elástica compressiva (quando prescrita) para evitar edema.
Uma característica importante é que a amputação transtibial permite que o paciente mantenha o joelho funcional, o que é fundamental para deambular com prótese. A prótese transtibial (também chamada de “perna mecânica” ou “perna robótica”, dependendo do modelo) é composta por um soquete que se encaixa no coto, uma haste e um pé artificial. No SUS, o modelo básico de prótese é gratuito, mas pode levar meses para ser entregue. Enquanto isso, o paciente usa uma prótese provisória ou anda com auxílio de muletas. A reabilitação inclui exercícios para fortalecer o quadril e a coxa, treino de equilíbrio e marcha com prótese, acompanhados por fisioterapeuta.
Tipos e Classificações
A amputação transtibial pode ser classificada de acordo com o comprimento do coto e a técnica cirúrgica, aspectos que influenciam a adaptação à prótese. No Brasil, os cirurgiões utilizam principalmente a classificação de Burgess (cirurgia convencional) e a técnica de Ertl (osteomioplástica), que preserva melhor a massa muscular e a vascularização do coto.
– **Coto curto**: quando a amputação é feita muito próxima ao joelho (menos de 8 cm de tíbia). Dificulta a adaptação protética e exige maior força muscular da coxa. Mais comum em traumas graves.
– **Coto médio**: é o padrão mais frequente (cerca de 12 a 15 cm de tíbia). Oferece boa alavanca para a prótese e melhor qualidade de marcha.
– **Coto longo**: quando a amputação é feita mais distal, próximo ao tornozelo. Raro, pois geralmente o pé pode ser salvo com outros procedimentos.
Quanto à técnica cirúrgica, a **amputação guilhotina** (aberta) é usada em infecções graves com necessidade de drenagem, sendo depois revisada para um coto fechado. Já a **amputação fechada** é o padrão, com sutura primária da pele. O Ministério da Saúde recomenda que a escolha do nível e da técnica seja feita por equipe especializada, considerando a condição vascular, a infecção e as condições sociais do paciente.
Quando procurar um médico
O clínico geral deve orientar pacientes de risco (diabéticos, hipertensos, tabagistas, com história de feridas nas pernas) a procurar atendimento imediato ao notar qualquer um dos seguintes sinais:
– **Ferida no pé ou na perna que não cicatriza em 2 semanas**, especialmente com pus, vermelhidão, inchaço ou cheiro forte.
– **Mudança de cor da pele** (escurecimento, palidez ou coloração azulada) na perna ou no pé.
– **Dor intensa e constante** no membro inferior, mesmo em repouso, que piora à noite.
– **Febre** associada a dor ou inchaço na perna.
– **Perda de sensibilidade ou dormência** em uma região do pé ou perna.
No contexto de uma clínica popular, muitos pacientes chegam com feridas crônicas já avançadas. Se houver sinais de infecção profunda ou necrose (tecido morto, enegrecido), o encaminhamento urgente para um serviço de emergência hospitalar é necessário. A demora pode levar à necessidade de uma amputação mais alta (acima do joelho), o que piora o prognóstico funcional.
Para quem já passou pela amputação, sinais de alerta após a cirurgia incluem: vermelhidão excessiva ao redor do coto, saída de pus, dor que não melhora com analgésicos, febre, e descolamento da pele da sutura. Nesses casos, o paciente deve retornar ao serviço de saúde imediatamente.
Termos Relacionados
- Coto: a porção remanescente do membro após a amputação. Deve ser bem cuidado para evitar dor e facilitar o uso da prótese.
- Prótese transtibial: dispositivo artificial que substitui a parte da perna amputada, permitindo andar. No SUS, é fornecida gratuitamente, mas há fila de espera.
- Reabilitação: processo multidisciplinar (fisioterapia, terapia ocupacional, psicologia) que ajuda o paciente a readquirir independência e qualidade de vida após a amputação.
- Membro fantasma: sensação de que o membro amputado ainda está presente. Pode incluir dor (dor fantasma) ou apenas formigamento. É comum e tratável com medicação e fisioterapia.
- Pé diabético: complicação grave do diabetes que leva a úlceras, infecções e, em casos extremos, amputação. É a principal causa de amputações transtibiais no Brasil.
- Doença arterial obstrutiva periférica (DAOP): obstrução das artérias das pernas por placas de gordura, que reduz o fluxo sanguíneo e pode causar necrose, levando à amputação.
- Desarticulação do joelho: amputação que remove a perna mantendo a articulação do joelho, mas com coto mais curto que a transtibial. É menos funcional que a transtibial.
- Cicatrização por segunda intenção: processo em que a ferida operatória é deixada aberta para cicatrizar de dentro para fora, comum em amputações infectadas ou com risco de infecção.
Perguntas Frequentes sobre O que é Amputação transtibial
1. A amputação transtibial dói muito?
A cirurgia é feita com anestesia, então o paciente não sente dor durante o procedimento. Após a cirurgia, a dor é controlada com analgésicos e anti-inflamatórios prescritos pelo médico. Muitos pacientes relatam uma sensação de formigamento ou choque no coto, que é normal. A dor crônica (dor fantasma) pode acontecer, mas tem tratamento com medicação específica e fisioterapia. É importante relatar qualquer dor persistente ao seu médico.
2. Quanto tempo leva para andar com prótese após a amputação transtibial?
O tempo varia de pessoa para pessoa, mas geralmente começa-se a treinar marcha com prótese provisória entre 4 a 8 semanas após a cirurgia, quando o coto já está cicatrizado e o inchaço diminuiu. A adaptação completa à prótese definitiva pode levar de 6 meses a 1 ano, dependendo da reabilitação, da saúde geral do paciente e do acesso ao serviço de fisioterapia. No SUS, a demora para receber a prótese pode prolongar esse período.
3. É possível evitar uma amputação transtibial?
Sim, em muitos casos, especialmente quando causada por diabetes ou doença vascular, a amputação pode ser evitada com cuidados preventivos: controle rigoroso da glicemia, inspeção diária dos pés, uso de calçados adequados, tratamento de calos e feridas, e acompanhamento regular com clínico geral e angiologista. Infecções e traumas também podem ser prevenidos com higiene e cuidados com ferimentos. Se houver sinais de ferida que não cicatriza, procure ajuda médica imediatamente.
4. Como cuidar do coto em casa?
Lave o coto diariamente com água morna e sabão neutro, seque-o delicadamente com uma toalha limpa (não esfregue). Evite usar cremes ou pomadas sem prescrição. Use a meia compressiva indicada pelo médico para controlar o inchaço. Mantenha a pele hidratada, mas sem umidade excessiva. Observe qualquer vermelhidão, ferida ou secreção e comunique ao médico. Não coloque peso sobre o coto sem orientação da fisioterapia.
5. A amputação transtibial afeta a vida sexual?
A amputação em si não interfere diretamente na função sexual, mas pode impactar a autoestima e a imagem corporal, o que indiretamente afeta a vida sexual. Muitos pacientes se adaptam bem e retomam uma vida sexual plena. O apoio psicológico e a conversa aberta com o parceiro(a) são importantes. Se houver dificuldades, o clínico geral pode encaminhar para um psicólogo ou sexólogo.
6. Tenho direito a prótese pelo SUS? Como conseguir?
Sim, toda pessoa com amputação tem direito a uma prótese pelo Sistema Único de Saúde, assim como a reabilitação e fisioterapia. Você deve procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima ou o serviço de reabilitação do seu município. O médico fará um encaminhamento para o centro de referência em saúde da pessoa com deficiência (CER) ou unidade de reabilitação. É necessário apresentar laudo médico, documentos pessoais e comprovante de residência. Infelizmente, o tempo de espera pode variar muito de uma região para outra. Para mais informações, consulte Ministério da Saúde – Reabilitação.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


