O que é Anemia perniciosa?
No dia a dia de uma clínica popular ou de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) do SUS, recebemos com frequência pacientes — principalmente mulheres acima dos 50 anos — que chegam com queixas de cansaço extremo, falta de ar ao subir uma ladeira, palidez na pele e nas mucosas, além de uma sensação incômoda de formigamento nas mãos e nos pés. Muitas vezes, essas pessoas já tentaram tratamento com sulfato ferroso, indicado para a anemia por falta de ferro, mas não tiveram melhora. É nesse cenário que precisamos lembrar que nem toda anemia é igual. Uma das causas mais específicas e importantes – e que exige um tratamento bem diferente – é a anemia perniciosa.
A anemia perniciosa é um tipo de anemia megaloblástica causada pela deficiência de vitamina B12 (cobalamina), que ocorre porque o organismo não consegue absorver essa vitamina dos alimentos. O motivo, na maioria dos casos, é uma doença autoimune: o sistema imunológico ataca as células do estômago que produzem uma proteína chamada fator intrínseco. Sem essa proteína, a vitamina B12 que ingerimos não é transportada para o intestino delgado (íleo) e, portanto, não entra na corrente sanguínea. Sem B12, a medula óssea não consegue fabricar glóbulos vermelhos saudáveis, e o sistema nervoso também sofre danos. No Brasil, estima-se que a prevalência de deficiência de B12 na população idosa (acima de 60 anos) gire em torno de 10 a 15%, sendo a anemia perniciosa uma das causas principais, embora menos comum que a deficiência por baixa ingestão ou uso de medicamentos como inibidores da bomba de prótons.
No contexto do SUS, o diagnóstico e o tratamento da anemia perniciosa estão disponíveis na atenção básica e nos ambulatórios de hematologia. O Ministério da Saúde inclui a dosagem de vitamina B12 e a pesquisa de anticorpos anti-fator intrínseco nos protocolos de investigação de anemias carenciais. O tratamento é padronizado com reposição parenteral (injeções intramusculares) de cianocobalamina, gratuitas nas farmácias das UBS. É fundamental que o paciente entenda que, uma vez diagnosticado, o tratamento será para o resto da vida, mas com acompanhamento adequado a qualidade de vida retorna ao normal.
Como funciona / Características
Para entender como a anemia perniciosa se manifesta, imagine o seguinte: o estômago de uma pessoa saudável produz o fator intrínseco, uma “chave” que se liga à vitamina B12 vinda dos alimentos (carnes, ovos, leite). Esse complexo viaja até o final do intestino delgado, onde a B12 é absorvida. Na anemia perniciosa, o corpo produz anticorpos que destroem as células da mucosa gástrica que fabricam essa “chave”. O resultado é que a B12 passa direto pelo intestino sem ser aproveitada. Com a falta de B12, a medula óssea tenta produzir glóbulos vermelhos, mas eles saem grandes, imaturos e frágeis (megaloblastos), incapazes de carregar oxigênio de forma eficiente. Ao mesmo tempo, a B12 é essencial para a manutenção da bainha de mielina que envolve os nervos; sua falta leva a sintomas neurológicos.
No consultório, os pacientes descrevem cansaço crônico que não melhora com repouso, falta de ar mesmo em esforços leves, palpitações, tontura e palidez intensa. O que chama a atenção do clínico experiente são os sintomas neurológicos: formigamento nas extremidades (parestesia), sensação de “andar como se pisasse em algodão”, perda de equilíbrio, dificuldade para lembrar de fatos recentes e, em casos avançados, alterações de humor, depressão ou confusão mental. É comum o paciente associar esses sinais à idade, retardando a procura por ajuda.
Um exemplo real que vivenciei: Seu José, 67 anos, motorista aposentado, veio à clínica popular com queixa de “fraqueza nas pernas e formigamento nos pés”. Ele já havia tomado ferro e ácido fólico por conta própria, sem melhora. Ao exame, apresentava palidez, língua lisa e avermelhada (glossite atrófica) e reflexos diminuídos. Pedi dosagem de vitamina B12 e hemograma: B12 de 85 pg/mL (normal > 200) e hemoglobina de 8,5 g/dL, com VCM elevado (macrocitose). Iniciamos reposição com injeções de cianocobalamina (1.000 mcg) uma vez por semana, e após 3 meses ele relatou melhora de 80% dos sintomas. Esse caso ilustra bem a importância de olhar para além da simples anemia ferropriva.
Tipos e Classificações
Na prática clínica brasileira, a anemia perniciosa é classificada principalmente quanto à sua causa. As classificações mais usadas são:
- Anemia perniciosa tipo 1 (autoimune clássica): a forma mais comum, caracterizada pela presença de anticorpos contra o fator intrínseco e/ou contra as células parietais gástricas. Geralmente associada a outras doenças autoimunes, como tireoidite de Hashimoto, diabetes tipo 1 ou vitiligo.
- Anemia perniciosa tipo 2 (pós-cirurgia gástrica): ocorre em pacientes submetidos a gastrectomia total ou parcial, cirurgia bariátrica (principalmente bypass gástrico) ou ressecção do íleo. A perda da região produtora de fator intrínseco ou do sítio de absorção leva à deficiência de B12.
- Anemia perniciosa associada a gastrite atrófica: a inflamação crônica do estômago (gastrite atrófica autoimune) destrói as células parietais, diminuindo a produção de ácido e de fator intrínseco. Essa condição é mais frequente em idosos e pode ser assintomática por anos até que a anemia se instale.
No CID-10, a anemia perniciosa é codificada como D51.0 (Anemia por deficiência de vitamina B12 devido a deficiência de fator intrínseco). O Ministério da Saúde não adota uma classificação específica diferente, mas orienta a investigação etiológica para diferenciar a perniciosa de outras causas de deficiência de B12, como má absorção por verminose (Diphyllobothrium), uso crônico de metformina ou de inibidores da bomba de prótons.
Quando procurar um médico
Você deve procurar um médico (clínico geral, médico da família ou hematologista) se apresentar um ou mais dos seguintes sinais de alerta:
- Cansaço inexplicável que persiste mesmo após descanso, acompanhado de palidez e falta de ar leve.
- Formigamento ou dormência nas mãos, pés, ou sensação de “agulhadas” sem causa aparente.
- Dificuldade de equilíbrio e quedas frequentes, especialmente em pessoas acima de 50 anos.
- Língua lisa, avermelhada e dolorida (glossite) ou alterações no paladar.
- Perda de memória recente, confusão mental ou alterações de humor (depressão, irritabilidade).
- Histórico de cirurgia gástrica ou bariátrica – nesses casos, a reposição de B12 deve ser preventiva, mesmo sem sintomas.
- Anemia prévia que não respondeu ao tratamento com ferro.
Se você se enquadra em algum desses itens, não espere. Vá à UBS mais próxima ou a uma clínica popular. O diagnóstico é simples: um hemograma que mostra glóbulos vermelhos grandes (macrocitose) e a dosagem de vitamina B12 no sangue. Se houver suspeita, seu médico pode solicitar também a pesquisa de anticorpos anti-fator intrínseco e a gastroscopia para avaliar a mucosa do estômago. Quanto mais cedo o tratamento começar, menores os riscos de lesões neurológicas irreversíveis.
Termos Relacionados
- Anemia megaloblástica: tipo de anemia caracterizada por glóbulos vermelhos grandes e imaturos, causada por deficiência de vitamina B12 ou ácido fólico. A anemia perniciosa é uma das suas formas.
- Vitamina B12 (cobalamina): nutriente essencial para a formação do sangue e manutenção do sistema nervoso. Encontrada em alimentos de origem animal.
- Fator intrínseco: proteína produzida pelo estômago que permite a absorção da vitamina B12 no intestino.
- Gastrite atrófica autoimune: inflamação crônica do estômago que destrói as células que produzem ácido e fator intrínseco, principal causa da anemia perniciosa.
- Neuropatia periférica: danos nos nervos das extremidades, causando formigamento, dormência e fraqueza. Sintoma comum da deficiência de B12.
- Mielopatia funicular: degeneração da medula espinhal causada pela falta de B12, levando a dificuldade de marcha, espasticidade e perda de sensibilidade profunda.
- Cianocobalamina: forma sintética da vitamina B12 usada em injeções intramusculares no tratamento da anemia perniciosa. Disponível no SUS.
- Reposição parenteral: administração da vitamina por via injetável, necessária em casos de má absorção, como na anemia perniciosa.
Perguntas Frequentes sobre O que é Anemia perniciosa
Anemia perniciosa tem cura?
A anemia perniciosa tem tratamento, mas não tem cura no sentido de reverter a causa autoimune. Uma vez que o organismo perde a capacidade de produzir fator intrínseco, essa deficiência é permanente. Porém, com a reposição regular de vitamina B12 por injeção (geralmente a cada 1 a 3 meses, dependendo do quadro), os sintomas desaparecem completamente e a pessoa volta a ter uma vida normal. O importante é não abandonar o tratamento e manter o acompanhamento médico.
Qual a diferença entre anemia perniciosa e anemia ferropriva?
A anemia ferropriva é causada pela falta de ferro no organismo (por má alimentação, sangramentos ou má absorção). Ela melhora com suplementação de ferro via oral. Já a anemia perniciosa é causada pela falta de vitamina B12 devido à ausência de fator intrínseco. O hem


