quarta-feira, maio 27, 2026

O que é Anorexia

O que é O que é Anorexia?

No meu consultório, no SUS e nas clínicas populares de Fortaleza, atendo muitas jovens — e também alguns rapazes — que chegam com queixas vagas: cansaço, tontura, queda de cabelo, intestino preso. Muitas vezes a família está junto, preocupada, e revela: “Doutor, ela não quer comer, diz que está gorda, mas está pele e osso”. É nesse momento que eu levanto a suspeita de anorexia nervosa, um transtorno alimentar grave que vai muito além de “não querer comer”. O que é anorexia? É um distúrbio psiquiátrico caracterizado por uma restrição extrema da ingestão de alimentos, medo intenso de engordar e uma distorção da imagem corporal — a pessoa se vê acima do peso mesmo quando está severamente magra.

A anorexia não é uma escolha, não é “frescura” nem uma dieta que passou do ponto. É uma doença que pode levar à desnutrição severa, parada cardíaca e morte. No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 0,5% a 1% da população jovem (principalmente mulheres entre 15 e 25 anos) sofre com anorexia nervosa. O IBGE, em pesquisas de saúde, aponta que os transtornos alimentares têm crescido entre adolescentes, especialmente nas regiões Sudeste e Sul, mas também chegam com força ao Nordeste, onde o acesso a especialistas como psiquiatras e nutricionistas é mais limitado pela falta de profissionais no SUS.

Na prática do dia a dia, lido com pacientes que vivem em áreas de vulnerabilidade social. Muitas vezes a anorexia é confundida com falta de apetite por verminose ou por problemas financeiros — “não como porque não tem dinheiro para comida” —, mas o transtorno se revela quando a pessoa esconde alimentos, pratica exercícios em excesso, usa laxantes e nega o emagrecimento. O SUS oferece atendimento multiprofissional nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e em ambulatórios de transtornos alimentares, mas faltam vagas. O CFM (Conselho Federal de Medicina) orienta que o diagnóstico precoce é a chave para evitar a cronificação.

Como funciona / Características

Imagine uma paciente de 17 anos, chamada Maria. Ela começou uma “dieta saudável” depois que um colega disse que ela estava “cheinha”. Em três meses, perdeu 15 quilos. Ela pesa 45 kg com 1,65 m de altura. No entanto, olha no espelho e vê uma pessoa obesa. Ela conta as calorias de cada garfada, pesa os alimentos, corta carboidratos, gorduras e depois corta também frutas. Ela sente prazer em controlar o que come, mas sente pânico se precisar almoçar com a família. No meu consultório, Maria aparece com pressão baixa, batimentos cardíacos lentos (bradicardia), anemia e unhas quebradiças. Ela nega que esteja doente. Esse é o padrão clássico do comportamento anoréxico: restrição alimentar intensa, medo mórbido de engordar e distorção de imagem corporal.

A anorexia não age sozinha. O corpo, em estado de inanição, entra em modo de economia: cai a frequência cardíaca, a pressão arterial despenca, os ossos perdem massa (osteoporose precoce), o cabelo cai, a pele fica seca e amarelada, e as menstruações param (amenorreia). Nos homens, cai a testosterona. O cérebro fica mais lento, a pessoa fica irritadiça, obcecada por comida, vê receitas, cozinha para os outros mas não come. O coração é o órgão mais ameaçado: arritmias podem matar em minutos.

Dois subtipos são comuns: restritivo (a pessoa apenas restringe a alimentação) e purgativo (também usa vômitos, laxantes ou diuréticos para “compensar” o que comeu). Muitos pacientes misturam os dois. No contexto de clínica popular, vejo pacientes que começam como restritivos e depois passam a vomitar por vergonha de ter comido algo “proibido”.

Tipos e Classificações

No Brasil, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e a Classificação Internacional de Doenças (CID-11) são usados pelo SUS e pelos médicos. A anorexia nervosa se divide em dois tipos principais:

  • Tipo restritivo: Perda de peso obtida por dieta, jejum ou exercício excessivo. Não há episódios de compulsão alimentar nem purgação nos últimos três meses.
  • Tipo purgativo/compulsão: A pessoa tem episódios de compulsão alimentar (come muito em pouco tempo) seguidos de purgação (vômitos, laxantes, diuréticos) para evitar ganho de peso.

Além disso, há a anorexia atípica, em que a pessoa tem todos os sintomas, mas o peso ainda está dentro ou acima do normal. No consultório, vejo isso em pacientes que emagrecem rapidamente mas ainda não estão abaixo do peso ideal — muitos médicos demoram a diagnosticar por achar que “magreza demais” é o único critério. A CID-11 ainda classifica a anorexia nervosa com base no índice de massa corporal (IMC), sendo grave abaixo de 15 kg/m². O CFM recomenda que todo paciente com IMC abaixo de 17,5 kg/m² seja investigado para transtorno alimentar.

Quando procurar um médico

Fique atento a estes sinais de alerta em você ou em alguém próximo:

  • Perda de peso rápida e não intencional (mais de 5% do peso em um mês).
  • Recusa constante em comer, mesmo com fome.
  • Medo exagerado de engordar e comentários frequentes sobre o peso.
  • Uso de roupas largas para esconder o corpo.
  • Exercícios físicos em excesso, mesmo doentes ou cansados.
  • Desaparecimento após as refeições (para vomitar).
  • Irritabilidade, isolamento social, queda no rendimento escolar ou no trabalho.
  • Sinais físicos: tontura, desmaio, pele seca, unhas fracas, parada da menstruação (em mulheres) ou perda de libido (em homens).

Quando procurar um médico? Ao notar qualquer um desses sinais, marque consulta com um clínico geral, pediatra ou psiquiatra. No SUS, procure a Unidade Básica de Saúde (posto) ou o CAPS mais próximo. Quanto mais cedo, maior a chance de reversão. Exames simples como hemograma, eletrólitos, função renal e eletrocardiograma podem mostrar riscos imediatos. Não espere o paciente “pedir ajuda” — a anorexia tira a percepção da doença (anosognosia). A família precisa intervir com amor, sem julgamentos.

Termos Relacionados

  • Bulimia nervosa: Episódios de compulsão alimentar seguidos de purgação (vômito, laxantes). Difere da anorexia purgativa porque o peso costuma ficar normal ou levemente acima.
  • Transtorno de compulsão alimentar: A pessoa come grandes quantidades em curto espaço de tempo, sente culpa, mas não purga. Muito comum em obesidade.
  • Vigorexia: Obsessão por ganhar massa muscular, levando ao uso de anabolizantes e dietas hiperproteicas. É o “avesso” da anorexia, mas com distorção de imagem também.
  • Ortorexia: Fixação em alimentação “saudável” e pura, a ponto de excluir grupos alimentares e causar desnutrição.
  • Imagem corporal: A percepção que a pessoa tem do próprio corpo. Na anorexia, essa percepção é distorcida — o cérebro “mente” e vê gordura onde não existe.
  • CAIS/Transtorno alimentar: O CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) é a porta de entrada no SUS para tratamento multidisciplinar de transtornos alimentares, com psicólogo, psiquiatra, nutricionista e assistente social.
  • Refeeding syndrome (síndrome de realimentação): Condição perigosa que ocorre quando um paciente desnutrido volta a se alimentar muito rápido, levando a alterações letais de potássio, fósforo e magnésio. Por isso, o tratamento da anorexia deve ser sempre supervisionado por médico.
  • ANVISA e suplementos: A Agência Nacional de Vigilância Sanitária regula a venda de fórmulas alimentares e medicamentos usados no tratamento, alertando para o risco de uso indiscriminado de laxantes e diuréticos.

Perguntas Frequentes sobre O que é Anorexia

Anorexia é uma doença só de adolescentes?

Não. Embora seja mais comum em adolescentes e adultos jovens (15–25 anos), pode afetar crianças a partir dos 8 anos, adultos de meia-idade e idosos. No meu consultório, já atendi senhoras de 60 anos que desenvolveram anorexia após o luto ou cirurgia bariátrica. O corpo não tem idade para sofrer.

Anorexia tem cura?

Sim, com tratamento adequado e precoce. O índice de remissão chega a 60-70% quando o paciente adere à terapia multidisciplinar (psicoterapia, nutrição e medicação, se necessário). Porém, a recuperação pode ser lenta, com altos e baixos. Infelizmente, a anorexia tem a maior taxa de mortalidade entre todos os transtornos psiquiátricos — cerca de 10% dos casos evoluem a óbito, principalmente por complicações cardíacas ou suicídio. Por isso, não deixe de buscar ajuda.

O SUS trata anorexia?

Sim, o SUS oferece tratamento gratuito nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e em ambulatórios especializados em transtornos alimentares. Muitas capitais têm equipes de referência. O acesso ainda é desigual: em Fortaleza, por exemplo, há filas, mas é possível. Além disso, o Ministério da Saúde disponibiliza diretrizes para o cuidado. Pacientes de baixa renda podem contar com a Estratégia de Saúde da Família para encaminhamento.

Qual profissional trata anorexia?

O ideal é uma equipe: psiquiatra (medicações como antidepressivos e antipsicóticos podem ajudar), psicólogo (terapia cognitivo-comportamental é a mais eficaz), nutricionista (para reeducação alimentar segura e controle da síndrome de realimentação) e clínico geral (para monitorar exames). O Conselho Federal de Medicina orienta que o tratamento seja compartilhado e não apenas feito por um especialista isolado.

Anorexia é só em mulher? E homem?

Não. Cerca de 10% dos casos são em homens, mas a subnotificação é enorme porque muitos homens escondem ou são diagnosticados tardiamente. No SUS, vejo rapazes que praticam esportes de alto rendimento (como luta, corrida) e desenvolvem anorexia por pressão estética. O estigma de “doença de mulher” atrapalha o diagnóstico.

O que fazer se meu filho não quer comer e está emagrecendo?

Não force a comida nem brigue. Procure um médico de confiança para avaliação clínica e psicológica. Enquanto isso, mantenha um ambiente tranquilo nas refeições, evite comentários sobre peso e ofereça alimentos variados sem cobrança. O amor e a paciência são o primeiro remédio. Agende uma consulta com a equipe de saúde da família ou, se houver risco (desmaio, batimento cardíaco irregular), vá ao pronto-socorro.

Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.