O que é O que é Anorgasmia?
A anorgasmia é a dificuldade persistente ou a impossibilidade de atingir o orgasmo, mesmo quando a pessoa sente excitação sexual e recebe estímulos adequados. Na minha prática de 15 anos no SUS e em clínicas populares, esse é um dos motivos mais frequentes de procura – mas também um dos que mais demoram a ser revelados. Muitas pacientes chegam tímidas, achando que “é coisa da cabeça” ou que estão sozinhas nessa experiência. A realidade é diferente: estudos brasileiros indicam que cerca de 25% a 30% das mulheres relatam dificuldade para ter orgasmo em algum momento da vida, e para aproximadamente 10% o quadro é persistente (dados do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana).
No dia a dia do consultório, a anorgasmia aparece de várias formas: uma jovem de 20 anos que nunca teve um orgasmo e se sente “quebrada”; uma mulher de 45 anos que, após o uso de um antidepressivo, perdeu a capacidade de chegar ao clímax; um homem de 60 anos que, por medicação para pressão, também enfrenta o mesmo problema. Sim, homens também podem ter anorgasmia – embora seja menos comum, é uma queixa real que exige escuta atenta. O importante é saber que anorgasmia não é uma doença, mas um sintoma que pode ter causas físicas, psicológicas, medicamentosas ou relacionais.
No contexto do SUS, a abordagem começa na Unidade Básica de Saúde (UBS). Médicos generalistas, como eu, fazem a primeira avaliação e encaminham para ginecologistas, urologistas, psicólogos ou psiquiatras conforme a necessidade. O CFM orienta que nenhuma disfunção sexual deve ser banalizada, e que o tratamento deve ser humanizado e baseado em evidências. Infelizmente, ainda falta capacitação em saúde sexual na graduação, mas muitos serviços já contam com ambulatórios especializados. Você pode saber mais sobre saúde sexual no site do Ministério da Saúde.
Como funciona / Características
O orgasmo é uma resposta complexa que envolve o sistema nervoso central, circulação sanguínea, hormônios e emoções. Quando alguma dessas engrenagens não funciona direito, o clímax pode não vir – ou vir com muito esforço. No consultório, costumo explicar que anorgasmia não é sobre “falta de vontade”. Muitas pacientes têm desejo intenso e se excitam normalmente, mas o orgasmo “não desce”.
Características comuns que observo:
- Anorgasmia primária: a pessoa nunca teve um orgasmo em toda a vida. Frequentemente associada a falta de educação sexual, tabus religiosos ou desconhecimento do próprio corpo.
- Anorgasmia secundária: a pessoa já teve orgasmos antes, mas perdeu essa capacidade. Causas comuns: antidepressivos (especialmente ISRS como fluoxetina e sertralina), menopausa, cirurgias pélvicas, problemas de tireoide, diabetes ou conflitos conjugais.
- Anorgasmia situacional: acontece só em certas situações (ex.: com parceiro, mas não na masturbação; apenas em determinadas posições).
- Anorgasmia generalizada: ocorre em todas as situações e com qualquer estímulo.
Na prática, o que mais vejo é a confusão entre orgasmo e excitação. Uma paciente me disse: “Doutora, eu fico molhada, sinto prazer, mas não ‘explodo’.” Expliquei que excitação e orgasmo são fases distintas – ela estava excitada, mas não conseguia o pico final. Muitas vezes, a causa é simples: falta de estimulação do clitóris durante a penetração, pois cerca de 80% das mulheres precisam de estímulo clitoridiano direto para chegar ao orgasmo. Isso não é anorgasmia de fato – é uma questão técnica que pode ser resolvida com informação.
Um alerta importante: o uso de antidepressivos é uma das causas mais comuns de anorgasmia secundária no Brasil. Estima-se que até 60% dos pacientes em uso de ISRS relatem alguma disfunção sexual. Oriento meus pacientes a nunca interromperem a medicação por conta própria; conversamos com o psiquiatra para ajuste de dose, troca da classe ou uso de estratégias como “janela de medicamento” no dia da relação sexual.
Tipos e Classificações
Na prática clínica brasileira, usamos a classificação baseada no DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e as diretrizes do CFM. Os principais tipos são:
- Anorgasmia feminina: a mais estudada e relatada. Subdivide-se em primária (nunca teve orgasmo) e secundária (adquirida após um período de normalidade).
- Anorgasmia masculina: também chamada de ejaculação retardada ou ausente. Mais rara, mas ocorre. No homem, o orgasmo e a ejaculação são eventos separados; é possível ter orgasmo sem ejacular e vice-versa.
- Anorgasmia por uso de substâncias: relacionada a medicamentos (antidepressivos, antipsicóticos, anti-hipertensivos) ou drogas (álcool, maconha, opioides).
- Anorgasmia orgânica: causada por doenças neurológicas (esclerose múltipla, lesão medular), hormonais (hipotireoidismo, menopausa), vasculares ou pós-cirúrgicas.
No SUS, utilizamos a Classificação Internacional de Doenças (CID-10) com o código F52.3 (Anorgasmia). Isso facilita o registro e o encaminhamento para especialistas. É importante saber que o diagnóstico exige que o quadro dure pelo menos 6 meses e cause sofrimento significativo.
Uma classificação prática que ensino aos residentes é a “regra dos 3 P’s”: Primária × Secundária; Global × Situacional; Com angústia × Sem angústia. Se não há angústia, não há transtorno – apenas uma variação da normalidade. Isso evita medicalizar a experiência de quem simplesmente não valoriza o orgasmo.
Quando procurar um médico
Procure atendimento quando a anorgasmia estiver causando sofrimento pessoal ou problemas no relacionamento. Não existe um prazo exato, mas se você se sente frustrada(o), evita relações sexuais por medo de “fracassar” ou já pensa nisso como um problema, está na hora de buscar ajuda.
Sinais de alerta que vejo no consultório:
- Angústia ou choro após a relação por não ter conseguido o orgasmo.
- Diminuição do desejo sexual secundária à decepção repetida.
- Evitação de intimidade ou conflitos constantes com o parceiro(a).
- Uso de medicamentos que possam estar causando o quadro (nunca pare por conta própria!).
- Presença de outros sintomas como secura vaginal, dor durante a relação ou problemas de ereção/ejaculação.
No SUS, o primeiro passo é marcar uma consulta na UBS com o clínico geral ou ginecologista. Leve uma lista dos medicamentos que usa. Seu médico pode solicitar exames básicos (hormônios tireoidianos, prolactina, glicemia) e avaliar se há causas físicas. Dependendo do caso, você será encaminhado para psicoterapia sexual, fisioterapia pélvica ou psiquiatria. Muitas cidades contam com ambulatórios de sexualidade nos hospitais universitários ou Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Vale lembrar: a anorgasmia tem tratamento! Na maioria das vezes, as abordagens psicossociais e educativas são suficientes. O CFM reconhece a terapia sexual como conduta de primeira linha. Consulte a página do Conselho sobre disfunções sexuais femininas para mais informações.
Termos Relacionados
- Ejaculação retardada: dificuldade ou ausência de ejaculação apesar de ereção e orgasmo normais. O equivalente masculino da anorgasmia.
- Disfunção sexual: termo geral que engloba problemas de desejo, excitação, orgasmo ou dor sexual.
- Libido baixa: redução do interesse por sexo. Pode ser causa ou consequência da anorgasmia.
- Vaginismo: contração involuntária da musculatura vaginal que impede a penetração. Pode estar associado à anorgasmia.
- Dispareunia: dor durante a relação sexual. A dor pode inibir o orgasmo.
- ISRS (Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina): classe de antidepressivos que frequentemente causa anorgasmia como efeito colateral.
- Orgasmo: a sensação de prazer máximo durante a atividade sexual, acompanhada de contrações musculares rítmicas.
- Terapia sexual: abordagem psicoterapêutica focada em disfunções sexuais, que inclui técnicas comportamentais e educação sexual.
Perguntas Frequentes sobre O que é Anorgasmia
Anorgasmia é só falta de tesão?
Não. Tesão (desejo) e orgasmo são coisas diferentes. Uma pessoa pode ter muito desejo e excitação, mas não conseguir chegar ao clímax. A anorgasmia é especificamente a dificuldade no orgasmo, não no desejo. Muitas pacientes me procuram dizendo “quero muito, mas não chego lá”. Isso é anorgasmia com desejo preservado, e o tratamento é diferente de quando há baixa libido.
Tem cura?
Sim, na grande maioria dos casos. A cura depende da causa. Se for por um medicamento, o ajuste ou troca pode resolver. Se for por falta de conhecimento sobre a própria anatomia, a educação sexual e a masturbação gu


