terça-feira, junho 9, 2026

O que é Anúria

O que é O que é Anúria?

A anúria é a ausência total ou a produção de menos de 100 mL de urina por um adulto em 24 horas. No meu consultório, tanto no SUS quanto em clínicas populares, atendo pacientes que chegam assustados porque “não urinam há um dia ou mais”. A anúria não é uma doença em si, mas um sinal de alerta de que os rins não estão filtrando o sangue adequadamente ou que há um bloqueio impedindo a saída da urina. É uma emergência médica, principalmente quando associada a inchaço, falta de ar ou desorientação.

Dentro da realidade brasileira, a anúria aparece com frequência em casos de insuficiência renal aguda (IRA) em pacientes desidratados, com quadros infecciosos graves (sepse) ou após uso de medicamentos nefrotóxicos, como anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) tomados sem acompanhamento. Também é comum em pacientes com doença renal crônica (DRC) avançada. Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 10% da população adulta brasileira apresenta algum grau de DRC, e aproximadamente 140 mil pessoas estão em tratamento dialítico no SUS. A anúria em um paciente renal crônico é um dos principais critérios para início ou ajuste da diálise.

Na prática da clínica popular, muitas vezes o paciente só procura ajuda quando já está com anúria há mais de 12 horas, associada a náuseas e cansaço extremo. Por isso, explico sempre: não espere para buscar atendimento. O SUS oferece acolhimento em unidades de pronto‑atendimento (UPAs) e hospitais de referência, onde exames simples como creatinina, ureia e potássio no sangue podem confirmar a gravidade e orientar o tratamento, que pode incluir hidratação intravenosa, sondagem vesical ou até hemodiálise de urgência.

Como funciona / Características

Para entender a anúria, pense nos rins como filtros que removem toxinas e excesso de água do sangue, transformando tudo em urina. Se a produção cai drasticamente, essas substâncias se acumulam, intoxicando o corpo. No dia a dia, identificamos três mecanismos principais:

Pré‑renal: falta de sangue chegando aos rins. É comum em desidratação grave (vômitos, diarreia, queimaduras), insuficiência cardíaca ou choque. Exemplo real: idoso acamado que não bebe água por dias e interrompe a urina. Renal: dano direto ao tecido renal. Pode ser por uso de anti‑inflamatórios, contraste de exames, infecções (como leptospirose, mais comum em regiões de baixa renda) ou doenças autoimunes. Pós‑renal: obstrução no trato urinário, como pedras (cálculos) na bexiga ou uretra, aumento da próstata (hiperplasia prostática benigna) ou tumores. Já atendi homens acima de 60 anos com anúria por próstata aumentada – a sondagem vesical resolve na hora, mas a causa precisa ser tratada.

Na clínica, o primeiro passo é sempre perguntar: “Quando foi a última vez que você urinou? Quanto?”. Se houver anúria confirmada, solicito creatinina, ureia, sódio e potássio séricos, além de um ultrassom de rins e vias urinárias para descartar obstrução. Esses exames são cobertos pelo SUS e fundamentais para definir se a pessoa precisa de diálise imediata. A anúria prolongada (mais de 24 horas) pode levar a hipercalemia (potássio alto), arritmias cardíacas e morte, por isso não pode ser negligenciada.

Tipos e Classificações

No Brasil, a classificação mais usada na prática clínica é baseada na causa, conforme mencionado: anúria pré‑renal, anúria renal e anúria pós‑renal. Essa divisão ajuda a guiar o tratamento rapidamente – por exemplo, na pré‑renal, hidratação venosa pode reverter o quadro; na pós‑renal, a desobstrução (sonda, cirurgia) é a prioridade.

Também existe a classificação por tempo: anúria aguda (instalação súbita, horas ou dias) versus anúria crônica (progressiva, em geral em pacientes com DRC terminal). Na nefrologia brasileira, seguimos as diretrizes do Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) para estadiamento da lesão renal aguda, onde a anúria por mais de 12 horas já é critério para estágio 3 (grave). Isso orienta, por exemplo, a decisão de iniciar diálise de urgência, procedimento regulamentado pelo CFM e disponível na rede pública.

Quando procurar um médico

Procure atendimento médico imediato (UPA, emergência hospitalar ou clínica de pronto‑socorro) se você ou um familiar apresentar:

  • Ausência de urina por 12 horas ou mais.
  • Vontade de urinar mas não consegue (pode indicar obstrução).
  • Inchaço nos pés, pernas ou rosto (edema).
  • Falta de ar ou cansaço anormal.
  • Náuseas, vômitos, confusão mental ou sonolência.
  • Dor intensa na região lombar ou no abdome.

Lembre‑se: não tente “esperar urinar” ou tomar chás caseiros. A anúria pode progredir rapidamente. No SUS, você será avaliado com exame físico, medição de pressão arterial, ausculta cardíaca e exames laboratoriais. Se for por desidratação, uma hidratação venosa pode resolver; se houver obstrução, a sonda vesical alivia; se os rins estiverem danificados, a diálise temporária ou definitiva salva vidas.

Termos Relacionados

  • Oligúria – produção de urina entre 100 e 400 mL por dia (é um estágio antes da anúria).
  • Insuficiência renal aguda (IRA) – queda rápida da função dos rins, podendo causar anúria.
  • Doença renal crônica (DRC) – perda progressiva e irreversível da função renal; anúria é comum na fase terminal.
  • Diálise – tratamento artificial que substitui a função dos rins na filtração do sangue, indicado na anúria prolongada.
  • Sondagem vesical – introdução de um cateter pela uretra até a bexiga para drenar urina, usada para desobstrução.
  • Creatinina – exame de sangue que avalia a função renal; níveis elevados indicam falência renal.
  • Hipercalemia – aumento do potássio no sangue, complicação grave da anúria que pode causar parada cardíaca.
  • Nefrologista – médico especialista em rins, que acompanha pacientes com anúria crônica ou aguda grave.

Perguntas Frequentes sobre O que é Anúria

Anúria é o mesmo que não urinar por um dia inteiro?

Sim, tecnicamente consideramos anúria quando a pessoa urina menos de 100 mL em 24 horas – na prática, isso significa praticamente zero. Se você passou o dia sem urinar e não sente desconforto, pode ser apenas desidratação leve. Mas se durar mais de 12 horas, procure ajuda.

Qual a diferença entre anúria e oligúria?

Enquanto na anúria a produção de urina é quase nula (menos de 100 mL/dia), na oligúria a pessoa ainda produz entre 100 e 400 mL/dia – o suficiente para molhar a calça ou ir ao banheiro uma ou duas vezes. A oligúria é um sinal de alerta menos grave, mas também merece investigação.

O que fazer se eu estiver com anúria e não tiver plano de saúde?

Dirija‑se à UPA mais próxima ou ao hospital público de referência. O SUS atende todas as urgências, inclusive anúria. Você passará por triagem médica, exames de sangue e urina, e se necessário será encaminhado para nefrologia e diálise. Não é preciso agendamento – é um atendimento de emergência, gratuito e universal.

Chá de quebra‑pedra ou outros remédios caseiros podem tratar anúria?

Não. A anúria pode ser sinal de uma obstrução (pedra na uretra, por exemplo) ou de falência renal. Chás caseiros não resolvem e podem até piorar, se houver desidratação ou toxicidade. O tratamento correto depende da causa: hidratação venosa, sonda, diálise ou cirurgia. Nunca substitua a avaliação médica por remédios caseiros.

Anúria pode ser causada por medicamentos?

Sim, especialmente anti‑inflamatórios não esteroides (ibuprofeno, diclofenaco, naproxeno), alguns antibióticos (gentamicina), contrastes radiológicos e medicamentos para pressão (como inibidores da ECA em excesso). No Brasil, o uso indiscriminado de anti‑inflamatórios é comum em clínicas populares e pode levar a anúria por nefrite intersticial ou necrose tubular aguda. Sempre informe ao médico quais remédios você toma.

Quanto tempo uma pessoa pode ficar sem urinar antes de ter complicações?

Após 12 horas de anúria, o acúmulo de toxinas e potássio já começa a afetar o coração e o cérebro. Em 24 horas, o risco de arritmia fatal é alto. Por isso, a orientação é clara: procure atendimento imediato assim que notar ausência de urina por mais de meio dia, especialmente se houver inchaço ou falta de ar.

Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.