O que é Aorta ascendente?
A aorta ascendente é a primeira porção da maior artéria do corpo humano, a aorta, que nasce diretamente do ventrículo esquerdo do coração. Em termos simples, é como se fosse o “cano principal” que sai do coração e leva sangue rico em oxigênio para todo o organismo. Essa parte inicial, com cerca de 5 a 7 centímetros de comprimento, sobe em direção ao pescoço antes de se curvar (formando o arco aórtico) e descer pelo tórax e abdômen. No meu dia a dia como clínico geral no SUS e em clínicas populares, ouço falar da aorta ascendente principalmente quando um paciente chega com uma suspeita de aneurisma ou dissecção, condições que podem ser silenciosas até um evento agudo.
Na prática clínica brasileira, a aorta ascendente ganha destaque porque doenças que a afetam, como o aneurisma e a dissecção, estão ligadas à hipertensão arterial não controlada, um problema de saúde pública no Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 30% da população adulta brasileira é hipertensa, e muitos desses pacientes têm acesso limitado a exames de imagem, como ecocardiograma, na atenção primária. Por isso, é comum que um problema na aorta ascendente seja descoberto tardiamente, durante uma emergência. O SUS oferece protocolos para rastreamento de aneurisma em grupos de risco, mas a fila para cirurgia eletiva ainda é um desafio, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
Entender o que é a aorta ascendente ajuda o paciente leigo a reconhecer a importância de controlar a pressão arterial e de procurar atendimento diante de sintomas como dor torácica súbita ou dor nas costas. Embora seja um termo técnico, ele aparece com frequência em laudos de ecocardiograma e tomografias, gerando dúvidas. Por isso, este verbete foi preparado para esclarecer, de forma acessível, o papel dessa estrutura vital e os cuidados necessários.
Como funciona / Características
A aorta ascendente funciona como uma via de alta pressão. Cada batimento cardíaco empurra cerca de 70 ml de sangue para dentro dela, sob pressão que pode chegar a 120 mmHg (no pico sistólico). Sua parede é composta por três camadas: a íntima (interna), a média (com fibras elásticas e musculares) e a adventícia (externa). Essa estrutura permite que a artéria se distenda e se contraia, amortecendo o impacto do sangue e garantindo um fluxo contínuo para o resto do corpo. Com o envelhecimento e a hipertensão, as fibras elásticas perdem força, e a parede pode se dilatar, formando um aneurisma.
Na rotina de uma clínica popular, vejo pacientes que ignoram a medição regular da pressão. Muitos só descobrem uma alteração na aorta ascendente quando fazem um exame de imagem por outro motivo, como uma radiografia de tórax que mostra alargamento do mediastino. Um exemplo prático: um senhor de 62 anos, hipertenso há 20 anos, chega com dor nas costas e sudorese. O ecocardiograma revela uma aorta ascendente com 4,5 cm de diâmetro (o normal é até 3,7 cm). Isso já é um sinal de alerta. No SUS, encaminhamos para o cardiologista e, se necessário, para cirurgia cardíaca em hospitais de referência como o Incor (SP) ou o Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Características importantes: a aorta ascendente tem dois ramos principais – as artérias coronárias direita e esquerda, que irrigam o próprio coração. Qualquer problema nesse segmento pode comprometer a perfusão coronariana e levar a um infarto. Além disso, por estar logo após a válvula aórtica, ela está sujeita a doenças valvares, como a estenose aórtica. No Brasil, a febre reumática ainda é uma causa relevante de lesão valvar, embora tenha diminuído nas últimas décadas graças ao tratamento de garganta estreptocócica nas UBS.
Tipos e Classificações
Embora a aorta ascendente seja uma parte anatômica, as doenças que a afetam têm classificações que ajudam no tratamento. As principais são:
- Aneurisma da aorta ascendente: dilatação localizada. Classifica-se em fusiforme (dilatação em todo o perímetro) e sacular (dilatação em uma porção, como um “balão”). O diâmetro de risco para cirurgia eletiva geralmente é 5,5 cm, mas pacientes com síndrome de Marfan podem operar antes (4,5 a 5,0 cm). Essa classificação é usada pelos cirurgiões cardiovasculares do SUS.
- Dissecção da aorta ascendente: uma ruptura na camada íntima permite que o sangue entre na parede, criando um falso canal. A classificação mais usada no Brasil é a de Stanford: tipo A (envolve a aorta ascendente, independente da extensão) e tipo B (não envolve a ascendente). O tipo A é uma emergência cirúrgica. Outra classificação é a de DeBakey (tipos I, II, III), mas o Stanford é mais prático para decisão clínica.
- Ectasia da aorta ascendente: termo usado quando há um leve aumento do diâmetro (entre 3,7 e 4,2 cm), ainda não considerado aneurisma. É um achado comum em ecocardiogramas de pacientes hipertensos idosos, e exige acompanhamento semestral ou anual.
No contexto do SUS, os critérios de classificação seguem as Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), que orientam quando solicitar exames como angiotomografia e quando encaminhar para cirurgia. A classificação é essencial para priorizar pacientes na fila do Sistema Único de Saúde.
Quando procurar um médico
Procurar um médico imediatamente é fundamental se você apresentar algum dos seguintes sinais que podem envolver a aorta ascendente:
- Dor torácica ou nas costas súbita, intensa e em “rasgão”, que pode irradiar para o pescoço ou mandíbula.
- Desmaio (síncope) sem causa aparente, especialmente se associado a dor.
- Falta de ar súbita ou dificuldade para respirar.
- Rouquidão ou dificuldade para engolir, causada pela compressão do nervo laríngeo ou esôfago pela aorta dilatada.
- Pressão arterial muito diferente entre os braços (diferença > 20 mmHg), que pode sinalizar dissecção.
Na atenção primária do SUS, a orientação é: se você tem hipertensão, diabetes, tabagismo ou histórico familiar de aneurisma, faça acompanhamento regular. O ecocardiograma transtorácico é o primeiro exame, e pode ser solicitado na UBS, embora haja fila. Em caso de sintomas agudos, vá diretamente a um pronto-socorro. Não espere. Lembro de um paciente que chegou à clínica com “queimação nas costas” que ele achava ser muscular; era uma dissecção tipo A. Felizmente, foi transferido a tempo para cirurgia.
Vale ressaltar que a aorta ascendente pode estar comprometida


