O que é Apneia do sono?
Apneia do sono é um distúrbio respiratório crônico que faz a pessoa parar de respirar repetidamente durante o sono — às vezes dezenas ou centenas de vezes por noite. No meu dia a dia no SUS e em clínicas populares de Fortaleza, atendo muitos pacientes que chegam cansados, com dores de cabeça matinais, pressão alta descontrolada e o famoso “ronco de cortar vidro”. A maioria não sabe que esses sinais podem ser apneia. A pausa na respiração dura de 10 segundos a mais de um minuto e provoca uma queda repentina de oxigênio no sangue, o que força o coração a trabalhar mais e prejudica a qualidade do sono.
No Brasil, estima-se que 15% a 30% dos adultos tenham apneia obstrutiva do sono em algum grau, mas a maioria não é diagnosticada. Dados do Ministério da Saúde indicam que o problema está associado a doenças como hipertensão, diabetes tipo 2, AVC e infarto. Na prática clínica, vejo que a apneia é muito mais comum em homens acima dos 40 anos, mulheres na pós-menopausa e pessoas com sobrepeso ou obesidade, mas também atinge crianças com amígdalas grandes ou obesidade infantil.
O tratamento pelo SUS inclui desde mudanças de hábitos até o uso de CPAP (aparelho que envia ar pressurizado para manter a via aérea aberta). A ANVISA regula os equipamentos, e o CFM tem diretrizes para diagnóstico e tratamento. A boa notícia é que, com o tratamento correto, a qualidade de vida melhora drasticamente — os pacientes voltam a dormir bem, acordam dispostos e controlam melhor outras doenças.
Como funciona / Características
Imagine a garganta como um cano mole. Durante o sono, os músculos da faringe relaxam naturalmente. Em quem tem apneia obstrutiva do sono, esse relaxamento é exagerado, e a língua, o palato e as amígdalas caem para trás, fechando a passagem do ar. O cérebro percebe a falta de oxigênio, acorda a pessoa (mesmo que ela não se lembre), os músculos da garganta se contraem e a respiração volta com um grunhido ou engasgo. Esse ciclo se repete a noite toda.
No consultório, um paciente típico chega com queixa de sono não reparador. A esposa ou o marido conta que o ronco é intenso e interrompido por pausas. O paciente pode relatar acordar com a boca seca, dor de cabeça, sensação de sufocamento, ou até ir ao banheiro várias vezes à noite. Durante o dia, a sonolência atrapalha o trabalho, a direção e até as refeições. Muitos confundem com “preguiça” ou “falta de vontade”, mas é a apneia que está drenando a energia.
Existem características que ajudam a suspeitar do distúrbio: circunferência do pescoço maior que 40 cm em homens e 38 cm em mulheres, obesidade, histórico familiar, uso de álcool ou sedativos à noite, e deformidades na face ou maxilar. Na avaliação, uso a escala de sonolência de Epworth (perguntas sobre chances de cochilar em situações do dia a dia) e peço que o familiar grave o sono com um celular — isso ajuda muito na triagem.
Tipos e Classificações
A apneia do sono se divide em três tipos principais, e a classificação é importante para definir o tratamento:
- Apneia Obstrutiva do Sono (AOS) – a mais comum (cerca de 84% dos casos). Causada pelo colapso mecânico das vias aéreas superiores. É o que a maioria dos pacientes que atendo apresenta.
- Apneia Central do Sono (ACS) – o cérebro “esquece” de enviar o comando para respirar. É menos frequente e está associada a doenças como insuficiência cardíaca, AVC ou uso de opioides.
- Apneia Mista – combinação dos dois tipos, geralmente iniciando com central e evoluindo para obstrutiva.
Na prática, classificamos a gravidade da AOS pelo Índice de Apneia-Hipopneia (IAH), que mede quantas pausas ou reduções da respiração ocorrem por hora de sono:
- Leve: 5 a 15 eventos por hora
- Moderada: 15 a 30 eventos por hora
- Grave: mais de 30 eventos por hora
O SUS oferece polissonografia (exame que registra o sono) em hospitais credenciados, mas a fila de espera é longa. Em clínicas populares, às vezes o paciente faz o exame em casa com equipamento portátil, o que é aceito por muitos pneumologistas como triagem. A classificação auxilia na decisão de uso de CPAP, cirurgia ou tratamento posicional.
Quando procurar um médico
Se você ou seu parceiro(a) notam os sinais abaixo, é hora de marcar uma consulta na UBS ou em um clínico geral:
- Ronco alto e irregular, com pausas na respiração seguidas de engasgos ou ofegos.
- Sonolência excessiva diurna – cochila no trabalho, dirigindo, vendo TV ou em reuniões.
- Acordar cansado mesmo após 7 a 9 horas na cama.
- Dor de cabeça matinal, boca seca ou dor na garganta ao acordar.
- Irritabilidade, dificuldade de concentração ou perda de memória.
- Pressão alta de difícil controle ou arritmias noturnas.
- Noites agitadas, com despertares frequentes ou sensação de sufocamento.
Na rede pública, o primeiro passo é procurar a UBS. O médico pode fazer a suspeita clínica e encaminhar para o pneumologista ou neurologista. Em clínicas populares, a consulta com clínico geral já pode solicitar a polissonografia domiciliar (custa por volta de R$ 200 a R$ 500, dependendo da região). Se o IAH for moderado ou grave, ou se houver comorbidades, o CPAP pode ser prescrito. O SUS disponibiliza o aparelho em alguns centros de referência, mas a demanda é alta.
Não ignore os sinais. A apneia não tratada aumenta o risco de acidentes de trânsito, infarto, AVC e até morte súbita. O tratamento é seguro e transforma vidas.
Termos Relacionados
- Ronco – ruído produzido pela vibração dos tecidos da garganta durante a respiração. Nem todo ronco é apneia, mas ronco alto e irregular é um sinal de alerta.
- CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas) – aparelho que envia ar pressurizado por uma máscara para manter a via aérea aberta durante o sono. Tratamento padrão-ouro para AOS moderada a grave.
- Polissonografia – exame que monitora o sono, registrando ondas cerebrais, oxigenação, movimentos dos olhos, frequência cardíaca e respiratória. “Padrão-ouro” para diagnóstico.
- Índice de Apneia-Hipopneia (IAH) – número de pausas ou reduções da respiração por hora de sono. Usado para classificar a gravidade da apneia.
- Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) – conjunto de sintomas (ronco, sonolência, pausas) causado pela AOS.
- Hipoxemia – queda do oxigênio no sangue que ocorre durante as pausas respiratórias. Pode causar danos ao coração e ao cérebro a longo prazo.
- Ortodontia e cirurgia maxilofacial – tratamentos alternativos para apneia, como avanço mandibular ou remoção de amígdalas, indicados em casos específicos.
- Tratamento posicional – estratégia para evitar dormir de barriga para cima, posição que piora o colapso da garganta. Pode ajudar na apneia leve.
Perguntas Frequentes sobre O que é Apneia do sono
Apneia do sono tem cura?
Tratamento adequado controla completamente os sintomas e reduz os riscos, mas poucas pessoas ficam “curadas” de forma definitiva. Em casos de apneia leve associada a obesidade, a perda de peso significativa (5 a 10% do peso corporal) pode resolver o problema. Cirurgias para retirada de amígdalas ou correção de maxilar também têm boas chances de cura. Para a maioria, o controle é feito com CPAP ou aparelhos orais. O importante é que o tratamento permite uma vida normal e saudável.
Qual a diferença entre ronco e apneia do sono?
O ronco é apenas o barulho da passagem do ar por uma garganta estreitada. Na apneia, além do ronco, há pausas na respiração. Se você grava o sono e percebe que o ronco para por 10 segundos ou mais, seguido de um resfôlgo ou engasgo, isso sugere apneia. O ronco isolado não causa paradas respiratórias nem queda de oxigênio, mas ambos merecem avaliação médica.
Apneia do sono pode matar?
Sim, indiretamente. A apneia não tratada aumenta em até 4 vezes o risco de infarto do miocárdio e AVC, além de contribuir para arritmias cardíacas fatais. Também eleva o risco de acidentes de trânsito (sonolência ao volante) e de morte súbita durante o sono, especialmente em pacientes com insuficiência cardíaca. Felizmente, o tratamento com CPAP reduz drasticamente esses riscos.
O que é CPAP e dói para usar?
CPAP é uma sigla em inglês para “pressão positiva contínua nas vias aéreas”. O aparelho tem um motor que empurra ar filtrado e umidificado por uma máscara no nariz ou nariz e boca. Não dói, mas pode causar desconforto inicial. As primeiras noites são de adaptação: a máscara pode pressionar o rosto, o barulho do ar incomoda um pouco e a respiração contra a pressão exige prática. Com ajustes de máscara e pressão, a maioria se acostuma em 1 a 2 semanas. O SUS fornece o CPAP em alguns serviços, mediante avaliação.
Perder peso resolve a apneia do sono?
Depende. Em muitos pacientes com sobrepeso e apneia leve a moderada, perder de 5 a 10% do peso corporal melhora significativamente o IAH e pode até eliminar a necessidade de CPAP. A gordura no pescoço comprime as vias aéreas, e a perda de peso alivia essa pressão. Além disso, a obesidade é fator de risco para apneia central. No entanto, se a apneia for grave ou houver fatores anatômicos (queixo pequeno, amígdalas grandes), só a dieta pode não resolver. Mesmo assim, o emagrecimento é sempre benéfico.
Crianças podem ter apneia do sono?
Sim, especialmente crianças de 2 a 8 anos com hipertrofia de amígdalas e adenoides (as famosas “carne esponjosa”). Elas podem roncar alto, dormir de boca aberta, ter respiração ruidosa e ficar inquietas à noite. A apneia infantil também causa sonolência diurna, irritabilidade, déficit de atenção e até problemas de crescimento. O tratamento é frequentemente a retirada cirúrgica das amígdalas e adenoides. A obesidade infantil também está associada ao problema. Se o seu filho ronca muito e tem sono agitado, consulte um pediatra ou otorrinolaringologista.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.
Fontes confiáveis:
Ministério da Saúde


