sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Arritmia cardíaca

O que é Arritmia cardíaca?

Arritmia cardíaca é qualquer alteração no ritmo normal dos batimentos do coração. Para entender melhor: o coração de um adulto saudável, em repouso, bate entre 60 e 100 vezes por minuto, de forma regular, como um metrônomo bem ajustado. Quando esse ritmo fica desorganizado — muito rápido, muito lento, ou simplesmente irregular — chamamos de arritmia. No meu consultório, tanto no SUS quanto em clínicas populares de Fortaleza, essa é uma das queixas mais comuns que atendo, principalmente em pacientes acima de 50 anos e em pessoas com condições como hipertensão, diabetes ou obesidade.

Dados do Ministério da Saúde indicam que as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no Brasil, e as arritmias, especialmente a fibrilação atrial, estão entre os fatores mais associados a acidentes vasculares cerebrais (AVC) e insuficiência cardíaca. Um estudo do DATASUS mostra que a prevalência de arritmias na população brasileira gira em torno de 2% a 4%, mas esse número sobe para mais de 10% em pessoas com mais de 70 anos. Na prática, significa que em uma sala de espera de uma clínica popular, pelo menos 2 ou 3 pacientes por dia estão lidando com algum tipo de alteração no ritmo cardíaco, muitas vezes sem saber.

O que muita gente não percebe é que nem toda arritmia é grave — algumas são benignas e nem exigem tratamento. Outras, porém, podem ser sinais de alerta de problemas mais sérios, como doença arterial coronariana, insuficiência cardíaca ou distúrbios eletrolíticos. Por isso, o diagnóstico correto e precoce é fundamental. Felizmente, o SUS oferece acesso a exames como o eletrocardiograma (ECG) e o holter 24 horas, que são as ferramentas mais usadas para identificar e classificar as arritmias.

Como funciona / Características

Para entender como a arritmia acontece, é preciso lembrar que o coração tem um sistema elétrico próprio. O nó sinusal, uma estrutura localizada no átrio direito, funciona como um “marcapasso natural” que dispara impulsos elétricos regulando cada batimento. Esses impulsos viajam pelos átrios e ventrículos, fazendo o coração se contrair e bombear sangue. Na arritmia, esse sistema elétrico falha: o nó sinusal pode disparar rápido demais (taquicardia), lento demais (bradicardia) ou de forma desordenada (fibrilação).

No cotidiano de uma clínica popular, o paciente típico chega com sintomas como “coração acelerado do nada”, “sensação de que o coração vai pular pela boca”, “tontura ao levantar” ou “falta de ar subindo uma ladeira”. Muitos descrevem como “um frio na barriga” ou “um aperto no peito que vem e vai”. Alguns pacientes, principalmente idosos, não sentem nada — a arritmia é descoberta em um exame de rotina. Por isso, sempre oriento que, mesmo sem sintomas, pessoas acima de 50 anos ou com fatores de risco façam um eletrocardiograma anualmente.

Uma característica importante que observo é o fator psicológico. A ansiedade e o estresse são gatilhos poderosos para arritmias benignas, como as extrassístoles (batimentos fora do ritmo). Já atendi dezenas de pacientes jovens, especialmente mulheres, com palpitações que sumiam depois de uma boa noite de sono ou com a prática regular de exercícios. Por outro lado, arritmias mais graves, como a fibrilação atrial, estão fortemente associadas a doenças estruturais do coração e exigem tratamento contínuo com anticoagulantes para prevenir AVC.

Tipos e Classificações

No dia a dia do consultório, classificamos as arritmias de duas maneiras principais: pela frequência cardíaca e pela origem do problema. Quanto à frequência, temos:

  • Taquiarritimias: batimentos acima de 100 por minuto. Exemplo clássico é a taquicardia sinusal, que pode ser normal durante exercícios ou estresse, mas também pode indicar febre, anemia ou hipertireoidismo.
  • Bradiarritmias: batimentos abaixo de 60 por minuto. Em atletas, isso pode ser normal. Em idosos, pode indicar doença do nó sinusal ou bloqueio cardíaco, que às vezes exige implante de marcapasso.

Quanto à origem, dividimos em:

  • Supraventriculares: originadas nos átrios ou no nó atrioventricular. As mais comuns são a fibrilação atrial (batimento rápido e desorganizado dos átrios), flutter atrial (batimento rápido mas organizado) e taquicardia paroxística supraventricular (crises de palpitação que começam e terminam de repente).
  • Ventriculares: originadas nos ventrículos. As extrassístoles ventriculares (batimentos extras isolados) são comuns e geralmente benignas. Já a taquicardia ventricular e a fibrilação ventricular são emergências médicas que podem levar à parada cardíaca.

No Brasil, a classificação mais usada na prática clínica é a da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), que também define os protocolos de tratamento disponíveis no SUS. Para a fibrilação atrial, por exemplo, o SUS oferece anticoagulantes como a varfarina (disponível nas farmácias populares) e, em casos selecionados, a ablação por cateter realizada em centros de referência como o Incor (SP) ou o Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Quando procurar um médico

Como médico que atende centenas de pacientes por ano, posso afirmar: a maioria das arritmias não é emergência, mas alguns sinais de alerta exigem busca imediata por atendimento — seja no posto de saúde, na clínica popular ou no pronto-socorro. Veja os principais:

  • Palpitações com desmaio ou quase desmaio: se você sente o coração acelerar e logo depois perde a consciência ou fica prestes a desmaiar, isso pode indicar uma arritmia ventricular grave.
  • Dor no peito junto com palpitação: pode ser sinal de isquemia cardíaca (falta de sangue no coração).
  • Falta de ar repentina: especialmente se vem acompanhada de cansaço extremo e inchaço nas pernas.
  • Palpitação que não passa: se o coração fica acelerado por mais de 10 minutos sem motivo aparente (sem exercício, sem estresse).
  • Tontura ou visão escurecida ao levantar: pode ser bradicardia ou queda de pressão associada.

Para quem não tem sintomas agudos, mas percebe que o coração “falha” ou “dá um pulinho” de vez em quando, o caminho certo é procurar uma consulta com clínico geral ou cardiologista para avaliação. No SUS, o encaminhamento pode ser feito pela Unidade Básica de Saúde (UBS). Em clínicas populares, conseguimos fazer o eletrocardiograma no mesmo dia, o que agiliza muito o diagnóstico. Não ignore: uma arritmia benigna pode ser facilmente controlada, mas uma não diagnosticada pode custar caro — inclusive com um AVC.

Termos Relacionados

  • Eletrocardiograma (ECG): exame simples e rápido que registra a atividade elétrica do coração. É a principal ferramenta para diagnosticar arritmias. Disponível em qualquer UBS ou clínica popular.
  • Holter 24 horas: um ECG portátil que o paciente usa por 24 horas, registrando todos os batimentos cardíacos. Ideal para capturar arritmias que vêm e vão. O SUS oferece esse exame em serviços de referência.
  • Fibrilação Atrial: a arritmia mais comum na prática clínica. Caracteriza-se por batimento rápido e irregular dos átrios. Aumenta em 5 vezes o risco de AVC. Tratamento inclui anticoagulantes e controle da frequência cardíaca.
  • Extrassístole: batimento cardíaco extra, que interrompe o ritmo normal. Muito comum e geralmente benigna, mas causa desconforto e ansiedade. Melhora com redução de cafeína, álcool e estresse.
  • Marcusso (marcapasso cardíaco): dispositivo implantado no peito para regular o ritmo cardíaco em casos de bradicardia grave. O SUS realiza implantes em hospitais credenciados.
  • Ablação por Cateter: procedimento minimamente invasivo que queima pequenas áreas do tecido cardíaco que estão gerando a arritmia. Indicada para casos refratários a medicamentos. Disponível em centros especializados do SUS.
  • Anticoagulantes: medicamentos como varfarina, rivaroxabana ou apixabana, usados para prevenir a formação de coágulos em pacientes com fibrilação atrial. A varfarina é distribuída gratuitamente em farmácias populares.
  • Síncope: termo médico para desmaio. Pode ser causada por arritmias graves que reduzem o fluxo sanguíneo cerebral. Toda síncope de causa desconhecida merece investigação cardiológica.

Perguntas Frequentes sobre O que é Arritmia cardíaca

Arritmia cardíaca pode matar?

Depende do tipo. Arritmias benignas, como as extrassístoles isoladas, não matam e muitas vezes nem precisam de tratamento. Porém, arritmias graves como a fibrilação ventricular ou a taquicardia ventricular sustentada podem levar à parada cardíaca e à morte se não forem tratadas rapidamente. A fibrilação atrial, se não controlada, aumenta significativamente o risco de AVC, que pode ser fatal ou deixar sequelas graves. Por isso a importância do diagnóstico precoce: uma arritmia identificada a tempo tem tratamento.

Qual a diferença entre arritmia e palpitação?

Palpitação é o sintoma — a sensação de que o coração está batendo forte, rápido, irregular ou “pulando”. Arritmia é a causa — uma alteração objetiva no ritmo cardíaco, detectada no eletrocardiograma ou no holter. Nem toda palpitação vem de uma arritmia perigosa. Ansiedade, estresse, cafeína em excesso e até uma noite mal dormida podem causar palpitações em corações saudáveis. Minha orientação: se as palpitações forem frequentes, vierem com tontura ou falta de ar, ou durarem mais de 10 minutos, procure um médico para fazer o eletrocardiograma.

Quem tem arritmia pode fazer exercícios?

Na maioria dos casos, sim, e com benefícios. O exercício regular fortalece o coração e reduz o estresse, dois fatores que ajudam a controlar arritmias benignas. Porém, é importante uma avaliação médica antes de começar qualquer atividade física, especialmente se a arritmia for ventricular ou se houver doença cardíaca estrutural. Para pacientes com arritmias controladas, recomendo exercícios aeróbicos moderados como caminhada, natação e ciclismo, sempre com orientação. Já atividades de alta intensidade, como crossfit ou corrida de longa distância, exigem liberação cardiológica específica.

Quais exames detectam arritmia?

Os principais são: eletrocardiograma (ECG), que captura o ritmo naquele momento; holter 24 horas, que registra todos os batimentos ao longo de um dia; e o teste ergométrico (teste de esteira), que avalia o comportamento do coração durante o esforço. Em casos mais complexos, o cardiologista pode pedir um ecocardiograma para ver a estrutura do coração ou um estudo eletrofisiológico, feito em ambiente hospitalar. No SUS, o ECG é a porta de entrada e está disponível em todas as UBS. O holter e o teste ergométrico exigem encaminhamento para centros de referência.

Arritmia tem cura?

Depende do tipo. Arritmias benignas, como as extrassístoles, podem desaparecer sozinhas com mudanças no estilo de vida (reduzir cafeína, dormir melhor, controlar ansiedade). Arritmias como a taquicardia paroxística supraventricular podem ser curadas definitivamente com a ablação por cateter. Já a fibrilação atrial, na maioria dos casos, não tem cura definitiva, mas tem excelente controle com medicamentos e, muitas vezes, com ablação. A bradicardia grave, quando não há outra causa, é tratada com implante de marcapasso, que não cura mas normaliza o ritmo. A palavra “cura” precisa ser usada com cuidado: o que buscamos sempre é o controle da arritmia, a prevenção de complicações e a melhora da qualidade de vida.

O que piora a arritmia?

Vários fatores podem desencadear ou piorar uma arritmia. Os mais comuns que vejo no consultório são: cafeína (café, chá preto, refrigerantes de cola), álcool, cigarro, estresse emocional, dormir mal, desidratação e medicamentos (como descongestionantes nasais, alguns antialérgicos e remédios para emagrecer). Em pacientes com doenças cardíacas prévias, o descontrole da pressão arterial, do diabetes ou do colesterol também contribui. Sempre oriento meus pacientes a manter um diário de sintomas: anote quando as palpitações ocorrem e o que você fez antes (comeu algum alimento, tomou algum remédio, passou por alguma situação estressante). Isso ajuda muito na investigação.

Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


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