sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Arteriosclerose

O que é O que é Arteriosclerose?

No meu consultório, tanto no SUS quanto em clínicas populares, atendo pelo menos três pacientes por dia com alguma consequência da arteriosclerose. Muitos chegam dizendo: “Doutor, minha pressão está alta” ou “sinto uma dor no peito quando subo ladeira”. Por trás dessas queixas, muitas vezes está esse processo silencioso que endurece e estreita as artérias. A arteriosclerose é um termo genérico que descreve o espessamento, o endurecimento e a perda de elasticidade das paredes das artérias. É como se os canos que levam sangue do coração para o resto do corpo fossem ficando mais rígidos e entupidos com o tempo. No Brasil, as doenças cardiovasculares ligadas à arteriosclerose são a principal causa de mortes: mais de 300 mil óbitos por ano, segundo dados do Ministério da Saúde. Na prática da clínica popular, vejo isso todos os dias: pacientes com infarto, AVC (derrame) e dores nas pernas ao caminhar que muitas vezes não associam esses problemas ao mesmo processo.

É comum as pessoas confundirem arteriosclerose com aterosclerose, mas vale esclarecer: a arteriosclerose é o guarda-chuva que inclui vários tipos de endurecimento das artérias. A aterosclerose é o tipo mais frequente e o que mais preocupa na saúde pública brasileira. Ela é caracterizada pelo acúmulo de placas de gordura, colesterol, cálcio e outras substâncias na parede das artérias, formando as chamadas “placas ateroscleróticas”. Com o passar dos anos, essas placas crescem e podem bloquear o fluxo de sangue ou se romper, causando coágulos que levam a eventos agudos como infarto ou AVC. No SUS, programas como o HIPERDIA (cadastro de hipertensos e diabéticos) tentam prevenir a progressão da arteriosclerose, pois hipertensão e diabetes são dois dos maiores fatores de risco.

Na minha experiência, o paciente típico da clínica popular é um trabalhador de 50 a 70 anos, muitas vezes com diagnóstico recente de pressão alta ou diabetes, que nunca fez exames de colesterol. A arteriosclerose é traiçoeira porque não dói enquanto as placas estão se formando – a pessoa se sente bem até o dia em que o estreitamento crítico causa sintomas. Por isso, a educação em saúde e o acesso a medicamentos genéricos (como estatinas, anti-hipertensivos) são fundamentais. A ANVISA regula esses medicamentos, e o CFM orienta os médicos a rastrear fatores de risco desde a atenção primária. O papel do clínico geral é identificar precocemente quem está em risco e orientar mudanças de estilo de vida – algo que muitas vezes esbarra na realidade socioeconômica do paciente, que não consegue parar de fumar ou comprar alimentos saudáveis. Mesmo assim, pequenas ações, como caminhar 30 minutos por dia e reduzir o sal, já fazem diferença.

Como funciona / Características

Para entender como a arteriosclerose age no corpo, pense em uma torneira velha que vai enferrujando por dentro. O fluxo de água diminui e, se a ferrugem soltar pedaços, pode entupir de vez. Algo parecido acontece nas artérias. O processo começa com uma lesão na camada mais interna da parede arterial (endotélio). Essa lesão pode ser causada por pressão alta, tabagismo, colesterol elevado, diabetes ou inflamação. O corpo tenta reparar a lesão enviando células de defesa e depósitos de gordura (principalmente LDL, o “colesterol ruim”). Com o tempo, forma-se uma placa dura e espessa que reduz o diâmetro do vaso.

No cotidiano da clínica, vejo três cenários principais: 1) Isquemia silenciosa – a placa cresce lentamente, mas o corpo cria vasos colaterais (como desvios) e a pessoa não sente nada; 2) Isquemia sintomática – quando o estreitamento passa de 70%, atividades que exigem mais oxigênio, como subir escadas, causam dor (angina, claudicação intermitente); 3) Evento agudo – se a placa se rompe, forma-se um coágulo que obstrui a artéria de repente, causando infarto ou AVC. Muitos pacientes que atendo contam que ignoraram pequenas dores por meses até terem um evento grave.

Um exemplo prático: seu José, 62 anos, motorista de ônibus em Fortaleza, chegou ao posto reclamando de uma dor na panturrilha direita que aparecia depois de caminhar um quarteirão e melhorava com o descanso. Ele achava que era “problema de circulação” e passava pomada. Após exame clínico e Doppler, diagnosticamos doença arterial periférica causada por arteriosclerose. Ele estava com placas nas artérias das pernas. Infelizmente, três meses depois, ele teve um infarto – o mesmo processo já estava nas artérias do coração. Esse caso ilustra que a arteriosclerose é uma doença sistêmica: se afeta uma artéria, é provável que outras também estejam comprometidas.

Tipos e Classificações

No Brasil, usamos a classificação clássica, que ajuda o médico a entender a causa e o tratamento mais adequado. Os principais tipos de arteriosclerose são:

  • Aterosclerose – a mais comum, com placas de gordura e inflamação. É a que mais causa infarto e AVC. Responsável por cerca de 90% dos casos clínicos que atendo.
  • Arteriosclerose de Monckeberg – calcificação da camada média das artérias, mais frequente em idosos e diabéticos. Não costuma obstruir o fluxo, mas deixa os vasos rígidos, contribuindo para hipertensão sistólica isolada.
  • Arteriolosclerose – acomete as pequenas artérias (arteríolas), comum em hipertensos e diabéticos crônicos. Leva a danos em órgãos como rins e cérebro, podendo causar micro-AVCs.

Além disso, classificamos a aterosclerose por localização anatômica: coronariana (artérias do coração), carotídea (artérias do pescoço que vão para o cérebro), periférica (pernas e braços), renal (artérias dos rins) e mesentérica (artérias do intestino). Na prática do SUS, usamos escalas de risco como o Escore de Framingham ou o Escore de Risco Global (adaptado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia) para estratificar o paciente e definir quando iniciar medicamentos. A ANVISA aprova estatinas (sinvastatina, atorvastatina) e antiagregantes (AAS) que são distribuídos gratuitamente pelo SUS dentro do programa Farmácia Popular.

Quando procurar um médico

Muitos pacientes me perguntam: “Doutor, quando devo me preocupar?”. A resposta é: o ideal é procurar o médico antes de sentir qualquer sintoma, especialmente se você tem fatores de risco como hipertensão, diabetes, colesterol alto, tabagismo, obesidade ou histórico familiar de infarto ou AVC. O check-up anual com exames de sangue (perfil lipídico, glicemia) e aferição da pressão arterial são a principal ferramenta para detectar a arteriosclerose no início.

Os sinais de alerta que indicam que a doença já está avançada incluem:

  • Dor, aperto ou queimação no peito, especialmente aos esforços (pode irradiar para braço, costas, mandíbula) – suspeita de aterosclerose coronariana.
  • Falta de ar progressiva, cansaço fácil.
  • Dormência ou fraqueza súbita de um lado do corpo, dificuldade para falar, perda de visão de um olho – suspeita de aterosclerose carotídea ou AVC.
  • Dor nas pernas ou nádegas ao caminhar que melhora com o repouso (claudicação intermitente) – sinal de doença arterial periférica.
  • Feridas que não cicatrizam nos pés ou dedos, ou sensação de frio constante – pode indicar obstrução grave.
  • Impotência sexual em homens, especialmente se associada a outros fatores de risco.

Se você apresentar qualquer um desses sintomas, não espere. No SUS, a porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde (UBS). O clínico geral fará o acolhimento, solicitará exames iniciais e, se necessário, referenciará para um cardiologista, angiologista ou neurologista. Em caso de dor no peito forte, falta de repouso ou sintomas de AVC, ligue 192 (SAMU) ou vá a uma emergência. Nas clínicas populares, também fazemos esse rastreio, mas sempre orientamos que situações agudas exigem atendimento hospitalar imediato.

Termos Relacionados

  • Aterosclerose – Tipo mais comum de arteriosclerose, caracterizado por placas de gordura nas artérias. Responsável pela maioria dos infartos e AVCs.
  • Colesterol LDL – Lipoproteína de baixa densidade, conhecido como “colesterol ruim”. Quando elevado, aumenta o risco de formar placas ateroscleróticas.
  • Placa aterosclerótica – Acúmulo de gor