O que é Ascaridíase?
A ascaridíase é uma infecção intestinal causada pelo parasita Ascaris lumbricoides, conhecido popularmente como lombriga. Trata-se da verminose mais comum no mundo e, no Brasil, afeta principalmente crianças em idade escolar e populações que vivem em áreas com saneamento básico inadequado. No meu dia a dia como clínico geral no SUS e em clínicas populares, atendo dezenas de pacientes por mês com queixas de dor abdominal, barriga inchada e, às vezes, eliminando os vermes nas fezes ou pela boca. A doença é um reflexo direto das desigualdades sociais: onde falta água tratada e coleta de esgoto, a ascaridíase encontra terreno fértil.
Dados do Ministério da Saúde indicam que a prevalência média no Brasil gira em torno de 15% a 20% em regiões Norte e Nordeste, podendo chegar a mais de 40% em comunidades ribeirinhas ou rurais. Embora tenha caído nas últimas décadas graças a campanhas de desparasitação em massa feitas pelo SUS, a doença ainda é endêmica em muitas localidades. O ciclo do parasita começa quando a pessoa ingere ovos presentes em solo contaminado (geralmente por mãos sujas, alimentos mal lavados ou água não tratada). Dentro do intestino, as larvas eclodem, atravessam a parede intestinal, caem na corrente sanguínea, vão para os pulmões, sobem pelas vias aéreas e são novamente deglutidas, amadurecendo no intestino delgado. Todo esse percurso leva cerca de 60 a 75 dias.
O tratamento é simples e eficaz: uma ou duas doses de medicamentos como albendazol ou ivermectina, disponíveis gratuitamente nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) do SUS. O grande desafio, porém, é a reinfecção, já que a prevenção depende de melhores condições sanitárias e de mudanças de hábitos, como lavar bem as mãos e os alimentos. No consultório, sempre reforço que remédio sozinho não resolve – é preciso romper o ciclo de contaminação no ambiente.
Como funciona / Características
O Ascaris lumbricoides é um verme cilíndrico, de coloração rosada ou amarelada, que pode atingir de 15 a 40 centímetros de comprimento. As fêmeas são maiores que os machos e produzem até 200 mil ovos por dia. Esses ovos saem nas fezes da pessoa infectada e, uma vez no solo, tornam-se infectantes após algumas semanas, dependendo da temperatura e umidade. A via de entrada mais comum é a oral-fecal: a criança coloca a mão suja de terra na boca, ou come uma fruta não lavada que estava em contato com o solo contaminado.
Nos primeiros dias após a ingestão dos ovos, a pessoa pode não sentir nada. Quando as larvas passam pelos pulmões (fase de migração pulmonar), podem surgir sintomas respiratórios: tosse seca, chiado no peito, febre baixa e, às vezes, uma pneumonia leve chamada Síndrome de Löeffler. Muitas crianças chegam ao posto com diagnóstico de “bronquite” que não melhora com antibiótico – aí pensamos em verminose. Já na fase intestinal, os sintomas mais comuns são dor na barriga (cólica ao redor do umbigo), náuseas, falta de apetite, barriga inchada (distensão abdominal) e, em casos de carga parasitária alta, obstrução intestinal ou desnutrição. Pacientes adultos podem relatar eliminação de vermes nas fezes, o que causa bastante angústia.
No cotidiano da clínica popular, vejo mães que trazem os filhos com queixas recorrentes de “barriga d’água” ou “criança que não engorda”. Ao exame físico, a barriga pode estar aumentada e dolorida à palpação. A confirmação é simples: exame parasitológico de fezes (três amostras coletadas em dias alternados). O tratamento de primeira linha no SUS é o albendazol 400 mg (comprimido ou suspensão) em dose única. Em casos de infecção mista ou quando a criança tem menos de 2 anos, ajustamos a dose ou usamos o mebendazol por três dias. Sempre oriento a repetir o exame de fezes após 30 dias para confirmar a eliminação.
Tipos e Classificações
Embora a ascaridíase seja causada por uma única espécie (Ascaris lumbricoides), a classificação clínica leva em conta a carga parasitária e a fase de evolução. No Brasil, o Ministério da Saúde adota a seguinte classificação prática:
- Infecção leve: até 10 vermes – geralmente assintomática ou com sintomas vagos (cólicas leves).
- Infecção moderada: 10 a 50 vermes – dor abdominal, náuseas, inapetência, eliminação eventual de vermes.
- Infecção grave: mais de 50 vermes – pode causar obstrução intestinal, desnutrição, comprometimento do crescimento, e, em crianças, quadro de suboclusão intestinal com vômitos e parada de eliminação de fezes.
Há também a classificação por localização: intestinal (a mais comum) e extraintestinal (rara). Formas extraintestinais ocorrem quando o verme migra para canais biliares (causando colangite ou abscesso hepático) ou para o apêndice (apendicite por Ascaris). Essas são emergências cirúrgicas e felizmente incomuns. No SUS, orientamos que qualquer quadro de dor abdominal intensa, vômitos biliosos ou icterícia em paciente com parasitose conhecida deve ser avaliado com urgência.
Quando procurar um médico
Você deve procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou clínica popular se apresentar qualquer um dos seguintes sinais:
- Dor abdominal persistente, especialmente se for cólica ao redor do umbigo.
- Barriga inchada (distensão) associada a gases e desconforto.
- Eliminação de vermes vivos nas fezes ou vômito (muitas vezes a pessoa vê o verme e fica assustada – fique tranquilo, o tratamento é simples).
- Tosse seca que não passa, principalmente se vier acompanhada de chiado no peito e em crianças que têm contato com terra.
- Perda de peso, falta de apetite ou anemia sem causa explicada.
- Crianças com baixo rendimento escolar, sono agitado ou irritabilidade – podem ser sinais de verminose.
Procure atendimento de urgência se:
- Dor abdominal muito forte, com vômitos e parada de eliminação de fezes (suspeita de obstrução intestinal).
- Febre alta com icterícia (pele e olhos amarelados) ou dor no lado direito do abdômen.
- Criança que não consegue se alimentar ou está prostrada.
Lembre-se: o SUS oferece gratuitamente o exame de fezes e o tratamento. Não é preciso pagar por consulta particular. Mesmo as clínicas populares costumam ter valores acessíveis para quem prefere agilidade. O importante é não automedicar – o uso repetido de vermífugos sem orientação pode gerar resistência do parasita.
Termos Relacionados
- Helmintíase: Doença causada por helmintos (vermes). A ascaridíase é um tipo de helmintíase intestinal, assim como a ancilostomose e a tricuríase.
- Geo-helmintíase: Infecções por vermes que necessitam do solo para completar seu ciclo (Ascaris, Trichuris, Ancilostomídeos). No Brasil, são endêmicas em regiões com saneamento precário.
- Ovos de Ascaris: Estruturas microscópicas eliminadas nas fezes. São resistentes e podem sobreviver no solo por vários meses. A identificação no exame de fezes confirma o diagnóstico.
- Ciclo de Löeffler: Fase pulmonar da ascaridíase, com infiltrado pulmonar transitório e eosinofilia (aumento de células de defesa). Causa tosse e chiado, simulando asma ou bronquite.
- Albendazol: Medicamento antiparasitário de primeira linha no tratamento da ascaridíase. Dose única de 400 mg para adultos e crianças acima de 2 anos. Dispensado gratuitamente pelo SUS.
- Ivermectina: Alternativa ao albendazol, também eficaz. Usada em dose única (6 mg para adultos), mas não é indicada para crianças menores de 15 kg ou grávidas.
- Exame parasitológico de fezes (EPF): Exame laboratorial que identifica ovos, larvas ou cistos de parasitas. Deve ser feito com três amostras coletadas em dias alternados para maior sensibilidade.
- Obstrução intestinal por Ascaris: Complicação grave em que uma grande quantidade de vermes se entrelaça formando um bolo que bloqueia o intestino. Requer internação e, às vezes, cirurgia.
Perguntas Frequentes sobre O que é Ascaridíase
1. Como pego ascaridíase?
Você pega ao ingerir ovos do parasita presentes em solo contaminado. Isso acontece quando coloca a mão suja de terra na boca, come frutas, verduras ou legumes mal lavados, ou bebe água não tratada. Crianças que brincam em chão de terra e levam as mãos à boca são as mais afetadas. Não se pega ascaridíase pelo contato direto com outra pessoa – os ovos precisam amadurecer no solo antes de se tornar infectantes.
2. Quais são os sintomas mais comuns?
No início, pode não haver sintomas. Quando aparecem, os mais comuns são: dor em volta do umbigo (cólica), barriga inchada, náuseas, falta de apetite, e às vezes diarreia ou prisão de ventre. Na fase pulmonar, tosse seca, chiado e febre baixa. Muitas pessoas só descobrem quando veem o verme nas fezes. Se você ou seu filho têm esses sintomas, procure uma UBS para fazer o exame de fezes.
3. Ascaridíase tem cura?
Sim, tem cura completa. O tratamento com albendazol ou ivermectina elimina os vermes adultos em uma ou duas doses. O exame de fezes deve ser repetido depois de 30 dias para confirmar a cura. No entanto, se não houver melhora das condições de saneamento e higiene, a pessoa pode se reinfectar várias vezes. Por isso, a prevenção é tão importante quanto o tratamento.
4. Posso tomar vermífugo sem receita todo ano?
Não é recomendado. O uso indiscriminado de vermífugos (como albendazol ou mebendazol) pode selecionar parasitas resistentes e também causar efeitos colaterais desnecessários (náusea, dor de cabeça, tontura). O ideal é fazer o exame de fezes para confirmar a presença de ovos e só então tratar. O SUS distribui vermífugos gratuitamente, mas apenas sob prescrição ou em campanhas específicas. Se você acha que está com vermes, vá ao médico – é rápido e gratuito.
5. Minha filha de 2 anos pode tomar albendazol?
O albendazol é contraindicado para crianças menores de 1 ano. Para crianças de 1 a 2 anos, o médico pode avaliar o risco-benefício, mas geralmente a dose é reduzida ou usa-se o mebendazol por três dias. Jamais dê remédio sem orientação médica para bebês. O pediatra da UBS pode pesar a criança e calcular a dose exata.
6. Como prevenir a ascaridíase em casa?
As medidas mais eficazes são: lavar bem as mãos com água e sabão antes das refeições e após usar o banheiro; lavar frutas, verduras e legumes com água corrente e deixar de molho em água com hipoclorito (uma colher de sopa de água sanitária para cada litro de água) por 15 minutos; beber apenas água filtrada ou fervida; usar calçados ao andar em solo contaminado (embora a ascaridíase seja transmitida por via oral, não pela pele); e, principalmente, destinar corretamente as fezes humanas – ter vaso sanitário ligado à rede de esgoto ou fossa séptica. O SUS também promove campanhas de desparasitação em massa em escolas em áreas endêmicas.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.
Para mais informações oficiais, consulte: Ministério da Saúde – Ascaridíase e Conselho Federal de Medicina.


