O que é O que é Aspirina?
No meu consultório, vejo a Aspirina – nome comercial mais famoso do ácido acetilsalicílico (AAS) – como um dos remédios mais versáteis e ao mesmo tempo mais mal compreendidos pelos pacientes. Na prática diária da clínica popular, ela aparece tanto na mão do trabalhador que tomou para aliviar uma dor de cabeça depois do expediente quanto na receita do idoso que usa uma dose baixa todo dia para proteger o coração. Trata-se de um medicamento da classe dos anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), com propriedades analgésica (tira a dor), antitérmica (abaixa a febre), anti-inflamatória (diminui a inflamação) e, em doses baixas, antiplaquetária (impede a formação de coágulos).
No Brasil, o ácido acetilsalicílico está presente na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) e é distribuído gratuitamente nas Unidades Básicas de Saúde do SUS, além de ser vendido sem receita em farmácias populares. Segundo dados do Ministério da Saúde, ele está entre os cinco fármacos mais consumidos no país, com milhões de comprimidos dispensados por ano. Mas essa popularidade esconde riscos: estima-se que cerca de 30% dos pacientes que usam AAS regularmente apresentam algum desconforto digestivo, e as internações por sangramento digestivo relacionado a AINEs ainda são frequentes nos hospitais públicos. Por isso, todo médico que atende no SUS ou em clínicas populares tem o dever de orientar o uso correto, especialmente quando o paciente compra o remédio por conta própria.
A Aspirina não é um remédio inofensivo. Ela funciona maravilhosamente bem quando usada para os fins certos, mas também pode causar sérios problemas se usada no momento errado ou na dose errada. Por exemplo, em casos de suspeita de dengue – doença que infelizmente vemos com frequência no Brasil – o uso de qualquer AINE, incluindo a Aspirina, está terminantemente contraindicado por aumentar o risco de sangramentos graves. A ANVISA mantém alertas claros sobre isso em seu Bulário Eletrônico.
Como funciona / Características
Imagine que seu corpo, quando sofre uma lesão ou infecção, produz substâncias chamadas prostaglandinas, que são as responsáveis pela dor, febre e inflamação. A Aspirina funciona inibindo uma enzima chamada ciclooxigenase (COX), que fabrica essas prostaglandinas. Mas ela não é seletiva: atinge tanto a COX I (que protege o estômago e ajuda na função plaquetária) quanto a COX II (envolvida na inflamação). Daí vem o efeito terapêutico, mas também os efeitos colaterais – a irritação gástrica é o mais comum.
No dia a dia da clínica, vejo isso na prática: um paciente chega com dor de cabeça tensional. Em 20 a 30 minutos após tomar um comprimido de 500 mg, a dor cede. Outro exemplo é o senhor de 65 anos que sofreu um infarto há dois anos e toma 100 mg de Aspirina toda manhã. Nessa dose baixa, o efeito antiplaquetário é o principal: a Aspirina bloqueia a COX I das plaquetas de forma irreversível, impedindo que essas células se agreguem e formem um trombo que poderia causar um novo infarto ou um AVC. Essa ação dura a vida inteira da plaqueta (cerca de 7 a 10 dias), por isso a suspensão do medicamento deve ser sempre orientada por um médico, especialmente antes de cirurgias.
A absorção é rápida pelo estômago e intestino delgado. Por isso, recomenda-se tomar com alimentos ou após as refeições para diminuir a irritação gástrica. Para quem tem estômago sensível, existem as formas revestidas (comprimidos entérico), que só se dissolvem no intestino, mas atenção: elas não reduzem o risco de sangramento digestivo – apenas minimizam o desconforto. No SUS, o comprimido revestido de 100 mg (conhecido como “AAS Cardio” ou “Aspirina Prevent”) é o mais usado na prevenção cardiovascular.
Tipos e Classificações
A Aspirina (e seus genéricos) está disponível em várias apresentações no Brasil. A classificação mais prática para o dia a dia é por dose e forma farmacêutica:
- Comprimido de 500 mg (ou 325 mg em alguns genéricos) – dose comum para dor, febre e inflamação. Vendido sem receita, mas que deve ser usado com cautela.
- Comprimido de 100 mg (ou 81 mg) – conhecido como “AAS infantil” ou “Aspirina Prevent” – usado exclusivamente para profilaxia de eventos trombóticos. A dose pediátrica é orientada por peso, mas atualmente a síndrome de Reye fez com que praticamente não se recomende AAS para crianças com febre; prefere-se paracetamol ou ibuprofeno.
- Comprimido efervescente (500 mg) – mais suave para o estômago, por ser diluído em água, e de ação um pouco mais rápida. Muito usado para ressaca e dor de cabeça.
- Comprimido revestido (entérico) – disponível em doses de 100 mg e 500 mg. A cobertura entérica retarda a dissolução para o intestino, reduzindo a queimação estomacal. Não confundir com proteção total; o risco de sangramento persiste.
- Associações – existem produtos que combinam AAS com cafeína (ex: “Melhoral”) ou com antiácidos, mas a base continua sendo o ácido acetilsalicílico.
Para fins de prescrição, a classificação mais relevante é a terapêutica: analgésico-antitérmico (doses altas) ou antiplaquetário (doses baixas). No Brasil, a RENAME 2022 inclui o AAS 100 mg e 500 mg como essenciais, assegurando seu acesso gratuito no SUS. A Anvisa também classifica o AAS como medicamento sujeito a controle especial apenas em algumas apresentações de liberação prolongada? Não – a maioria é de venda livre, mas a orientação médica é sempre recomendada, principalmente para uso crônico.
Quando procurar um médico
Na clínica popular, muitos pacientes chegam com receitas prontas de Aspirina que pegaram com vizinhos ou que compraram por conta própria. Mas há situações em que é fundamental buscar um médico antes de tomar ou enquanto está tomando:
- Sinais de sangramento digestivo: fezes escuras (como borra de café), vômito com sangue ou em grânulos, dor abdominal forte, fraqueza e tontura. Isso pode indicar uma úlcera ou gastrite medicamentosa, que é emergência.
- Dor de cabeça nova e intensa: especialmente se for do tipo “pior da vida” ou acompanhada de rigidez na nuca, febre alta, confusão mental – pode ser meningite ou hemorragia cerebral. Não tome nada por conta.
- Febre em crianças ou adolescentes: o uso de Aspirina em quadros virais (gripe, catapora) está associado ao risco de Síndrome de Reye, uma doença rara mas gravíssima que ataca fígado e cérebro. Prefira paracetamol ou ibuprofeno, sempre orientado por pediatra.
- Uso prolongado (>10 dias) para dor ou febre: pode mascarar doenças mais sérias (câncer, infecção crônica, vasculite). Um médico precisa avaliar.
- Histórico de úlcera, gastrite, asma (especialmente a sensível a AINEs), doença renal ou hepática: contraindicam o uso de Aspirina ou exigem monitoração rigorosa.
- Gestantes: especialmente no terceiro trimestre, o AAS pode causar fechamento precoce do ducto arterioso no bebê e complicações na hora do parto. Não use sem orientação.
- Suspeita de dengue: não tome Aspirina! Use dipirona ou paracetamol, mas sempre após confirmação médica. O AAS potencializa o risco de hemorragia.
- Cirurgia programada: o efeito antiplaquetário dura dias. O médico ou dentista precisa saber para suspender o remédio no tempo adequado.
Lembre-se: usar Aspirina para “prevenir infarto” sem indicação médica pode fazer mais mal do que bem. A decisão de usar baixas doses deve levar em conta seu risco cardiovascular, idade, pressão, diabetes, colesterol e histórico. Existem calculadoras de risco que o médico utiliza antes de prescrever.
Termos Relacionados
- Ácido Acetilsalicílico (AAS): princípio ativo da Aspirina. Nome químico que aparece nas bulas e prescrições.
- Anti-inflamatório não esteroidal (AINE): classe de medicamentos que inclui AAS, ibuprofeno, diclofenaco, nimesulida, entre outros. Agem bloqueando a COX.
- Antiplaquetário: efeito da Aspirina em baixas doses (100 mg/dia) que impede a agregação das plaquetas, prevenindo trombos. Usado na prevenção de infarto e AVC.
- Síndrome de Reye: doença grave associada ao uso de aspirina em crianças/adolescentes com infecções virais. Causa dano hepático


