sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Ataxia

O que é O que é Ataxia?

No meu consultório, tanto no SUS quanto em clínicas populares do Ceará, atendo com frequência pacientes que chegam com uma queixa que parece simples: “Doutor, estou tonto e ando desequilibrado”. Muitas vezes a pessoa já tomou remédio para labirintite, fez exames de ouvido, mas o sintoma persiste. É aí que precisamos investigar mais a fundo. A ataxia é um termo médico que descreve a falta de coordenação dos movimentos voluntários. Não é uma doença em si, mas sim um sinal clínico de que algo no sistema nervoso – especialmente no cerebelo (a região do cérebro responsável por equilibrar e coordenar os movimentos) – não está funcionando como deveria.

Para o paciente leigo, explico que a ataxia é como se o “controle remoto” do corpo estivesse com falha: a pessoa quer pegar um copo, mas a mão vai além; quer andar reto, mas o corpo balança. No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que as internações por ataxia não especificada (CID-10 R27.0) representam cerca de 1.200 casos por ano no SUS (DATASUS, 2022), mas esse número subestima a realidade, já que muitos diagnósticos são feitos em nível ambulatorial. As causas são variadas: desde sequelas de AVC, uso excessivo de álcool, deficiência de vitamina B12, até doenças hereditárias, como a ataxia de Friedreich, que atinge cerca de 1 caso a cada 50 mil nascidos vivos no país (Sociedade Brasileira de Genética Médica). Na clínica popular, vejo muitos casos relacionados ao abuso de álcool e ao uso de medicamentos antiepilépticos em idosos polimedicados.

O diagnóstico de ataxia no SUS segue as diretrizes do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para doenças neurológicas, que orientam a solicitação de exames como ressonância magnética, exames de sangue (para descartar deficiências vitamínicas) e, em casos selecionados, teste genético. Mas, na prática das clínicas populares, nem sempre temos acesso a tudo de imediato. Muitas vezes precisamos orientar o paciente a procurar um ambulatório de neurologia na rede pública ou, quando possível, realizar exames básicos na própria clínica. O importante é nunca deixar de investigar, pois a ataxia pode ser um sinal precoce de doenças graves que, tratadas a tempo, têm melhor prognóstico.

Como funciona / Características

Imagine que você está tentando costurar um botão à mão. O cérebro envia um comando para o braço, que precisa de milímetros de precisão para enfiar a agulha. Se o cerebelo não estiver funcionando bem, a mão fará movimentos exagerados, “passando do ponto”. É assim que a ataxia se manifesta: movimentos amplos, descoordenados, com tremor de intenção (aquele tremor que aparece quando a pessoa tenta pegar algo e piora ao se aproximar do alvo). No dia a dia, o paciente pode ter dificuldade para escrever (letra trêmula e irregular), tropeçar em degraus, sentir “tontura” ao virar a cabeça rapidamente ou ter a fala arrastada (disartria). Em crianças, a ataxia pode se apresentar como atraso no desenvolvimento motor, como dificuldade para engatinhar ou andar.

No contexto brasileiro, uma queixa muito comum em clínicas populares é a “tontura de idoso”. Quando um paciente acima de 70 anos relata quedas frequentes e insegurança ao caminhar, a ataxia é uma das primeiras hipóteses. Diferente da labirintite (vertigem rotatória), a ataxia não provoca sensação de giro, mas sim um “andar de bêbado” – marcha com base alargada (pernas afastadas) e passos incertos. Na prática, realizo o teste dedo-no-nariz (peço ao paciente para tocar o nariz com o dedo indicador, olhos fechados) e o teste calcanhar-joelho (deitado, tocar o calcanhar no joelho oposto) – se houver dismetria (erro na direção ou amplitude), o diagnóstico é forte indício de ataxia cerebelar.

A ataxia também pode afetar os olhos: o paciente pode apresentar nistagmo (movimentos rítmicos e involuntários dos olhos) ao olhar para os lados. Isso é facilmente observável no consultório. Muitos pacientes confundem com “nervoso” e nunca relatam, por isso sempre pergunto: “Você sente os olhos tremendo quando vira a cabeça?”. Essa atenção na anamnese é fundamental, principalmente porque no SUS temos tempo limitado de consulta e precisamos ser eficientes.

Tipos e Classificações

A classificação da ataxia mais usada na prática clínica brasileira – e que consta nos manuais do Ministério da Saúde – é baseada na causa e no início dos sintomas:

  • Ataxia hereditária: causada por mutações genéticas. A mais comum no Brasil é a ataxia de Friedreich (doença neurodegenerativa que também afeta o coração), seguida pelas ataxias espinocerebelares (SCA). Existem mais de 40 tipos; alguns são mais frequentes em certas regiões, como a SCA3 (doença de Machado-Joseph), que tem alta prevalência no Brasil devido à colonização portuguesa. O diagnóstico genético é feito pelo SUS através de centros de referência em doenças raras, mas o acesso é limitado.
  • Ataxia adquirida: resultante de lesão cerebelar por causas externas. Ex: AVC (isquêmico ou hemorrágico) – muito comum em hipertensos mal controlados; tumores cerebelares; traumatismo craniano; uso crônico de álcool (degeneração cerebelar alcoólica); deficiência de vitamina B1 (beribéri) ou B12; exposição a toxinas (chumbo, mercúrio); infecções (herpes zoster, HIV, cerebelite pós-viral); doenças autoimunes (esclerose múltipla, síndrome paraneoplásica).
  • Ataxia aguda: surge em horas ou dias. Em crianças, é frequentemente causada por infecções virais (cerebelite aguda). Em adultos, pensar em AVC, intoxicação (lítio, fenitoína) ou tumores. É uma emergência.
  • Ataxia crônica: progressiva ao longo de meses ou anos. Sugere doenças degenerativas, hereditárias ou deficiências nutricionais.

No CID-10 (Classificação Internacional de Doenças, usada no SUS), a ataxia aparece sob os códigos R27.0 (ataxia não especificada) e G11 (ataxia hereditária). A correta codificação é importante para o financiamento e registro de casos.

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