O que é O que é Atetose?
Na minha prática como clínico geral, primeiro no SUS e depois em clínicas populares, atendi muitas crianças e adultos que chegavam com movimentos que eu descrevia assim para a família: “Imagine que a pessoa tenta segurar um copo, mas os dedos se torcem devagar, como se estivessem fazendo uma dança lenta e descontrolada”. Isso é a atetose – um distúrbio do movimento caracterizado por contrações musculares involuntárias, lentas, contorcidas e contínuas, que afetam principalmente mãos, braços, pernas e, às vezes, o rosto.
A atetose não é uma doença em si, mas um sinal clínico de que algo alterou o funcionamento dos gânglios da base, uma região profunda do cérebro responsável por controlar a suavidade e a precisão dos movimentos. No Brasil, a causa mais comum que vejo em consultório é a paralisia cerebral do tipo atetóide, que atinge aproximadamente 1 a cada 1.000 nascidos vivos – dados do Ministério da Saúde indicam que a paralisia cerebral é a principal deficiência motora na infância no país. Outra causa frequente, especialmente em crianças de baixa renda atendidas no SUS, é o kernicterus (icterícia neonatal grave não tratada), que lesa os núcleos da base e deixa sequelas motoras para a vida inteira.
Em clínicas populares, ouço relatos de pais que notam que o bebê “não larga o brinquedo direito” ou que “os dedinhos ficam se abrindo e fechando sem parar”. É um movimento que piora com estresse e melhora durante o sono. O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na observação dos movimentos e na história do paciente. O CFM orienta que todo médico, mesmo o generalista, saiba reconhecer esses sinais para encaminhar ao neurologista e iniciar reabilitação precoce.
Como funciona / Características
A atetose acontece por um desequilíbrio entre os neurotransmissores nos gânglios da base, principalmente entre a dopamina e a acetilcolina. Sem a regulação adequada, os músculos recebem ordens confusas: ora contraem, ora relaxam de forma desorganizada, produzindo aqueles movimentos lentos e torcidos que lembram uma “onda” passando pelos dedos ou pelo punho.
No dia a dia do consultório, observo o seguinte padrão:
- O paciente tenta pegar um objeto – a mão se fecha lentamente, mas os dedos se entrelaçam em posições estranhas, dificultando a pegada.
- Quando está em repouso, os movimentos diminuem, mas não param completamente – o paciente pode balançar a mão ou o pé suavemente.
- Em situações de ansiedade, cansaço ou esforço voluntário, a atetose se intensifica, atrapalhando tarefas como escrever, abotoar uma camisa ou caminhar.
- Durante o sono, os movimentos desaparecem, o que ajuda a diferenciar de outras condições como a coreia (movimentos mais rápidos e abruptos) ou a distonia (posturas fixas e sustentadas).
Muitos pacientes desenvolvem posturas compensatórias – por exemplo, inclinam o tronco para estabilizar o braço ou usam a mão não afetada para segurar a mão atetóide. Essas adaptações são importantes para a reabilitação e devem ser avaliadas por fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, serviços que o SUS oferece nos Centros Especializados em Reabilitação (CER).
Tipos e Classificações
Na literatura brasileira e nos protocolos do SUS, a atetose costuma ser classificada de duas formas principais:
- Atetose pura: movimentos lentos e contorcidos, sem outros distúrbios associados. É mais rara.
- Coreoatetose: combinação de atetose com coreia – movimentos rápidos e irregulares misturados aos lentos. É o tipo mais comum na paralisia cerebral.
- Hemiatetose: atetose restrita a um lado do corpo, geralmente causada por lesão unilateral nos gânglios da base (ex: AVC em adulto).
- Distonia atetóide: quando há posturas distônicas fixas associadas aos movimentos contorcidos.
Do ponto de vista etiológico – que uso muito na prática para explicar às famílias –, classificamos conforme a causa:
- Paralisia cerebral atetóide: decorrente de lesão cerebral perinatal (falta de oxigênio, prematuridade, icterícia).
- Pós-ictérica (kernicterus): causada pela deposição de bilirrubina nos núcleos da base, mais comum em bebês com icterícia não tratada.
- Medicamentosa: induzida por neurolépticos, levodopa ou outros fármacos – costuma ser reversível com a suspensão da medicação.
- Degenerativa: associada a doenças como a doença de Huntington ou a neuroacantocitose, mais raras em consultório de clínica geral.
O Ministério da Saúde inclui a reabilitação da paralisia cerebral (incluindo a forma atetóide) na Política Nacional de Atenção à Pessoa com Deficiência, garantindo acesso a fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional.
Quando procurar um médico
Como médico, sempre oriento os pais e cuidadores a ficarem atentos aos seguintes sinais que podem indicar a presença de atetose ou de uma condição neurológica subjacente:
- No bebê: demora para segurar objetos, movimentos “em torção” das mãos ou dos pés que não desaparecem após os 4 meses de idade, dificuldade para mamar ou engolir, choro irritado e persistente.
- Na criança ou adulto: movimentos involuntários que atrapalham a escrita, a alimentação, a caminhada ou a fala; piora dos movimentos com estresse ou em situações sociais; posturas estranhas e repetitivas das mãos ou dos pés.
- Em qualquer idade após lesão cerebral conhecida: após um AVC, traumatismo craniano ou meningite, se surgirem movimentos lentos e contorcidos em um lado do corpo ou nas extremidades.
No SUS, o primeiro passo é procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) para avaliação do clínico geral ou pediatra. Se houver suspeita de atetose, o médico solicitará exames de imagem (como ressonância magnética) e encaminhará ao neurologista. A intervenção precoce é fundamental – quanto mais cedo começar a fisioterapia e a terapia ocupacional, melhor o desenvolvimento motor e a qualidade de vida. O CFM estabelece que todo paciente com distúrbio do movimento deve ter acesso a avaliação neurológica especializada.
Termos Relacionados
- Coreia – movimentos involuntários rápidos, abruptos e irregulares, que podem se misturar à atetose (coreoatetose). Diferencia-se pela velocidade dos movimentos.
- Distonia – contrações musculares sustentadas que causam posturas anormais e torções repetitivas. Na distonia atetóide, há componentes dos dois distúrbios.
- Paralisia Cerebral – grupo de desordens permanentes do movimento e da postura decorrentes de lesão cerebral na primeira infância. A forma atetóide (discinética) é uma das classificações.
- Gânglios da Base – conjunto de núcleos cerebrais (caudado, putame, globo pálido, núcleo subtalâmico e substância negra) que coordenam os movimentos voluntários. Lesões nessa região levam à atetose.
- Espasticidade – aumento do tônus muscular com resistência ao alongamento, típica da paralisia cerebral espástica. Pode coexistir com atetose em formas mistas.
- Hemibalismo – movimento involuntário violento de um lado do corpo (semelhante a “arremessos”), geralmente causado por lesão no núcleo subtalâmico. É mais abrupto que a atetose.
- Kernic


