O que é O que é Bactérias gram-positivas?
No dia a dia de uma clínica popular ou do SUS, quando um paciente chega com uma dor de garganta purulenta, uma infecção de pele com pus ou uma pneumonia comunitária, uma das primeiras coisas que pensamos é: será que é causada por bactérias gram-positivas? Essas bactérias são um grupo que, ao serem coradas pelo método de Gram (técnica criada pelo médico dinamarquês Hans Christian Gram), retêm a coloração violeta-escura, ficando roxas ao microscópio. Isso acontece porque elas têm uma parede celular grossa, formada principalmente por uma substância chamada peptidoglicano – como se fosse um escudo espesso e rígido.
No Brasil, as infecções por bactérias gram-positivas são extremamente comuns. Segundo dados do Ministério da Saúde, a faringite estreptocócica (causada pelo Streptococcus pyogenes) é uma das queixas mais frequentes em unidades básicas de saúde, especialmente em crianças e adolescentes. Além disso, o Staphylococcus aureus é o principal responsável por infecções de pele e partes moles em todas as idades, e sua versão resistente à meticilina (MRSA) é uma preocupação crescente em hospitais brasileiros, monitorada pela ANVISA. Na ponta do lápis, cerca de 60% das infecções comunitárias tratadas na atenção primária são causadas por gram-positivas, o que mostra como esse tema é central no nosso dia a dia.
Para o clínico, reconhecer uma infecção por bactérias gram-positivas ajuda a escolher o antibiótico certo. Muitas dessas bactérias respondem bem a antibióticos como penicilinas (amoxicilina, benzilpenicilina), cefalosporinas (cefalexina) e macrolídeos (azitromicina), que estão disponíveis na farmácia popular e na rede SUS. Mas a automedicação e o uso indevido têm gerado resistência, por isso a orientação médica é tão importante.
Como funciona / Características
A principal diferença entre uma bactéria gram-positiva e uma gram-negativa está na parede celular. Enquanto as gram-positivas têm uma camada grossa de peptidoglicano (como um colete à prova de balas), as gram-negativas têm uma camada fina mais uma membrana externa adicional. Isso faz com que as bactérias gram-positivas sejam mais sensíveis à ação de antibióticos que atacam a parede celular, como as penicilinas. Na prática, se você vai ao posto com uma ferida infectada e o médico suspeita de Staphylococcus, ele pode receitar cefalexina – um antibiótico que age justamente quebrando o escudo da bactéria.
Outra característica importante é que muitas bactérias gram-positivas produzem toxinas potentes. O Streptococcus pyogenes, por exemplo, libera toxinas que podem causar febre reumática e glomerulonefrite (complicações renais) se a infecção não for tratada adequadamente. O Staphylococcus aureus produz toxinas que provocam desde intoxicação alimentar até síndrome do choque tóxico. Por isso, no consultório, sempre reforçamos a importância de completar o tratamento antibiótico, mesmo que os sintomas melhorem em dois dias – a bactéria pode estar “escondida” e voltar mais forte.
No laboratório, a identificação é simples: o material coletado (secreção de garganta, pus ou escarro) é espalhado numa lâmina, corado com cristal violeta e lugol, fixado e examinado. Se as bactérias ficarem roxas, são gram-positivas. Esse exame é barato, rápido e disponível em muitos laboratórios do SUS, sendo fundamental para guiar o tratamento.
Tipos e Classificações
As bactérias gram-positivas são classificadas de várias formas, mas a mais usada no dia a dia clínico brasileiro é pela morfologia (forma) e pela necessidade de oxigênio. Veja as principais:
- Cocos gram-positivos: esféricos, agrupados em cachos (estafilococos) ou em cadeias (estreptococos). Exemplos: Staphylococcus aureus (pele, pneumonia), Streptococcus pyogenes (garganta), Streptococcus pneumoniae (pneumonia, meningite), Enterococcus faecalis (infecções urinárias hospitalares).
- Bacilos gram-positivos: em forma de bastonete. Incluem Bacillus (ex.: Bacillus anthracis – antraz, raro mas controlado pela vigilância), Clostridium (tétano, botulismo, gangrena gasosa – preveníveis por vacina e cuidados com ferimentos), Listeria monocytogenes (perigosa em gestantes e imunodeprimidos).
- Quanto ao oxigênio: a maioria é aeróbia (cresce em presença de ar), mas os Clostridium são anaeróbios (crescem em ambientes sem oxigênio, como ferimentos profundos). Essa classificação é importante para escolher o antibiótico certo e para o manejo de infecções hospitalares.
No Brasil, a ANVISA mantém um sistema de vigilância de resistência bacteriana, e entre as gram-positivas, os Staphylococcus aureus resistentes à meticilina (MRSA) e os Enterococcus resistentes à vancomicina (VRE) são os mais monitorados nos hospitais. Já na comunidade, o Streptococcus pneumoniae resistente à penicilina é uma preocupação, especialmente em crianças e idosos.
Quando procurar um médico
Você deve procurar um médico – no posto de saúde, UPA ou clínica popular – se apresentar sinais de infecção que não melhoram em 48 horas ou que pioram. Os principais alertas para uma possível infecção por bactérias gram-positivas incluem:
- Febre persistente (acima de 37,8°C) por mais de 2 dias, com calafrios.
- Dor de garganta intensa com pus nas amígdalas, dificuldade para engolir e gânglios no pescoço doloridos.
- Feridas na pele que ficam vermelhas, quentes, inchadas e com secreção amarelada (pus).
- Tosse produtiva com catarro amarelado ou esverdeado, associada a febre e falta de ar.
- Vermelhidão e calor em uma região do corpo, especialmente se houver uma ferida ou cirurgia recente.
- Sinais de sepse: confusão mental, respiração rápida, batimento cardíaco acelerado, queda da pressão – nesse caso, procure um serviço de emergência imediatamente.
Lembre-se: não use antibióticos sem prescrição. Muitos pacientes chegam à clínica depois de tomar “sobras” de amoxicilina de um parente, o que piora a resistência bacteriana e dificulta o tratamento. O médico pode solicitar uma cultura e um antibiograma (exame que mostra a qual antibiótico a bactéria é sensível) – esse exame é coberto pelo SUS e é fundamental para infecções graves ou recorrentes.
Termos Relacionados
- Coloração de Gram: técnica labor
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