O que é Barotrauma?
Barotrauma é uma lesão causada pela diferença entre a pressão do ambiente externo e a pressão dentro de uma cavidade do corpo humano – como os ouvidos, os seios da face, os pulmões ou até mesmo os dentes. Na prática clínica do SUS e das clínicas populares brasileiras, essa condição aparece com frequência, principalmente em pessoas que viajam de avião, que praticam mergulho ou que fazem uso de ventilação mecânica em unidades de terapia intensiva. No meu dia a dia, já atendi inúmeros pacientes com queixa de “ouvido tampado” após um voo de baixo custo ou com dor facial intensa depois de uma viagem de ônibus pela serra. Apesar de ser mais conhecida entre mergulhadores e aviadores, o barotrauma é um problema comum que pode afetar qualquer um, especialmente em situações cotidianas como uma simples descida de avião.
No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 10% dos passageiros de voos domésticos relatam algum desconforto auditivo relacionado à pressão, sendo que uma fração significativa evolui para barotrauma clinicamente relevante. Já entre os mergulhadores recreativos, estima-se que a incidência seja de 1 a 2 lesões a cada 10 mil mergulhos, mas esses números são subnotificados, pois muitos casos são leves e autolimitados. Em UTIs, o barotrauma pulmonar é uma complicação grave, especialmente em pacientes com síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) submetidos a ventilação mecânica por longos períodos. A ANVISA, por meio de suas normas de segurança aérea, orienta as companhias aéreas sobre a prevenção de eventos relacionados à pressurização, mas ainda assim o problema persiste, sobretudo em voos com pressurização inadequada ou em passageiros com condições pré-existentes, como gripes ou sinusites.
É essencial entender que o barotrauma não é uma doença isolada, mas sim um mecanismo de lesão que pode afetar diferentes órgãos. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado, que na maioria das vezes é simples e conservador, evitam complicações como infecções secundárias ou perda auditiva permanente. Como médico do SUS, vejo que a orientação preventiva é a melhor ferramenta: saber o que fazer durante a descida do avião, quando evitar mergulhos ou como manusear corretamente um respirador mecânico reduz drasticamente o risco.
Como funciona / Características
O princípio físico por trás do barotrauma é a Lei de Boyle: a pressão de um gás é inversamente proporcional ao volume ocupado. Quando a pressão externa muda rapidamente – por exemplo, durante a descida de um avião ou ao mergulhar em profundidade – o ar dentro das cavidades do corpo precisa se equilibrar com essa nova pressão. Se a equalização não acontecer (por obstrução de tubas auditivas, por exemplo), ocorre um desequilíbrio que pode causar estiramento, ruptura de tecidos e até sangramento.
No cotidiano de uma clínica popular, o exemplo mais comum é do barotrauma de ouvido médio. Um paciente chega queixando-se de dor forte, sensação de ouvido entupido e diminuição da audição logo após um voo de avião. Muitas vezes ele tentou bocejar ou mastigar chiclete, mas sem sucesso. Ao examinar com otoscópio, vemos uma membrana timpânica retraída ou até mesmo um derrame seroso ou hemorrágico atrás do tímpano – é o que chamamos de otite média barotraumática. Outro cenário frequente: o paciente que praticou mergulho em Fernando de Noronha e, ao emergir rapidamente, sentiu uma dor súbita no peito e dificuldade para respirar. Nesse caso, pode ser um barotrauma pulmonar, com risco de pneumotórax.
Caracteristicamente, o barotrauma se manifesta com dor (no ouvido, face, tórax), plenitude auricular, zumbido, vertigem, e, nos casos mais graves, sangramento pelo ouvido ou nariz, falta de ar e até desmaio. A chave para diferenciar de outras condições é a relação temporal com a mudança de pressão. Perguntar “você viajou de avião recentemente?” ou “praticou mergulho?” é um reflexo automático em qualquer atendimento de urgência no SUS. A maioria das lesões é autolimitada e melhora com repouso, analgesia e evitar novas exposições por alguns dias.
Tipos e Classificações
O barotrauma é classificado de acordo com a cavidade corporal afetada. Na prática brasileira, as classificações mais usadas são:
- Barotrauma de ouvido médio (otite barotraumática): o mais comum. Pode ser classificado pela escala de Teed (graus de 0 a 5), que avalia a hiperemia e a perfuração da membrana timpânica. No SUS, usamos essa classificação para orientar o tratamento: graus 0-2 (hiperemia leve) tratados conservadoramente; graus 3-4 (derrame ou perfuração) podem necessitar de miringotomia ou antibióticos.
- Barotrauma de seios paranasais (sinusite barotraumática): ocorre em passageiros com sinusite ou rinite alérgica. Caracteriza-se por dor facial, congestão e, em alguns casos, epistaxe. A classificação é clínica, baseada na localização e severidade.
- Barotrauma pulmonar: mais grave e raro. Inclui pneumotórax (ar na cavidade pleural), pneumomediastino (ar no mediastino) e enfisema subcutâneo. Em UTIs, a classificação de barotrauma pulmonar associado à ventilação mecânica segue os critérios de intensidade: leve (enfisema localizado) a grave (pneumotórax hipertensivo).
- Barotrauma dental: popularmente chamado de “aerodontalgia”. Dentes com cáries ou restaurações mal adaptadas podem sofrer dor intensa durante a mudança de pressão por causa de bolhas de ar presas. Não há classificação formal, mas o diagnóstico é clínico.
Essas classificações ajudam o médico a decidir a conduta, que pode ir desde simples analgesia e medicação tópica até drenagem cirúrgica de urgência, dependendo da gravidade.
Quando procurar um médico
Na maioria dos casos, o barotrauma leve cede sozinho em alguns dias. No entanto, existem sinais de alerta que exigem avaliação médica imediata. Oriento meus pacientes a procurarem um médico de família ou uma unidade básica de saúde se apresentarem:
- Dor no ouvido que não passa com analgésicos comuns ou que dura mais de 48 horas após o voo/mergulho.
- Perda auditiva significativa de um ou ambos os lados.
- Sangramento pelo ouvido ou nariz.
- Vertigem intensa (sensação de que tudo está girando) ou desequilíbrio.
- Falta de ar, dor no peito ou tosse com sangue após mergulho.
- Febre, que sugere infecção secundária (como otite média purulenta).
No SUS, a porta de entrada é a UBS. O médico clínico geral realiza o diagnóstico com história e exame físico (otoscopia, ausculta pulmonar). Caso haja suspeita de barotrauma pulmonar, o paciente será encaminhado a um hospital de urgência para exames de imagem (radiografia de tórax) e possível drenagem. Em clínicas populares, temos a vantagem da agilidade – muitos pacientes saem satisfeitos com uma receita de anti-inflamatório e a recomendação de não mergulhar por uma semana.
Termos Relacionados
- Equalização: manobra que equilibra a pressão dentro e fora do ouvido, como bocejar, engolir ou fazer a manobra de Valsalva. Essencial para prevenir barotrauma.
- Manobra de Valsalva: técnica de expirar forçadamente com a boca e o nariz fechados, usada para equalizar a pressão nos ouvidos. Deve ser feita com cuidado para não causar danos.
- Pneumotórax: acúmulo de ar no espaço pleural, que comprime o pulmão. Pode ser consequência de barotrauma pulmonar e exige drenagem urgente.
- Miringotomia: pequeno corte na membrana timpânica para drenar líquido ou sangue. Em casos graves de barotrauma de ouvido, pode ser indicada.
- Otite média barotraumática: nome técnico para o barotrauma de ouvido médio, com inflamação e acúmulo de líquido.
- Sinusite barotraumática: inflamação dos seios da face causada por diferença de pressão, comum em viajantes com rinite.
- Ventilação mecânica: suporte respiratório artificial usado em UTIs; quando mal ajustada, pode provocar barotrauma pulmonar.
- Descompressão: processo de redução da pressão ambiente, como na subida de um mergulhador; se rápida demais, causa barotrauma e doença descompressiva.
Perguntas Frequentes sobre O que é Barotrauma
Barotrauma pode causar surdez permanente?
Na maioria dos casos, não. O barotrauma leve a moderado causa perda auditiva temporária que melhora em dias ou semanas. No entanto, se houver perfuração da membrana timpânica sem cicatrização ou uma infecção secundária não tratada, pode haver perda auditiva permanente. Por isso, se a audição não voltar ao normal após uma semana do voo, procure um médico.
Posso voar com gripe ou sinusite?
É melhor evitar. A congestão nasal obstrui a tuba auditiva, dificultando a equalização da pressão. Se não for possível adiar a viagem, use descongestionantes nasais (spray) antes da decolagem e da descida, e faça a manobra de Valsalva suavemente. Bebês e crianças pequenas são mais vulneráveis – evite voar com eles muito resfriados.
Quanto tempo dura a dor do barotrauma?
A dor geralmente desaparece em poucas horas após a normalização da pressão. Se houver lesão tecidual (como derrame seroso), a dor pode persistir por 1 a 3 dias. Analgésicos comuns, como dipirona ou ibuprofeno, ajudam. Se a dor se intensificar ou surgir febre, há risco de infecção.
Crianças são mais propensas a barotrauma?
Sim, porque as tubas auditivas das crianças são mais estreitas e menos funcionais. Crianças


