O que é Blefarite?
Blefarite é uma inflamação crônica e recorrente das bordas das pálpebras, a região onde nascem os cílios. Na prática de um clínico geral com 15 anos de experiência no SUS e em clínicas populares, essa é uma das queixas oculares mais comuns, especialmente entre mulheres jovens e idosos. O paciente chega ao consultor relatando “olhos que ardem”, “sensação de areia”, “coceira nas pálpebras” e, muitas vezes, acorda com os olhos grudados por uma secreção amarelada ou crostas na base dos cílios.
No Brasil, estima-se que a blefarite afete cerca de 20% a 30% da população em algum momento da vida, segundo dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). A condição é ainda mais frequente em pessoas com dermatite seborreica (caspa no couro cabeludo), rosácea ou síndrome do olho seco. No âmbito do SUS, a blefarite é um diagnóstico corriqueiro nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos ambulatórios de oftalmologia, mas muitas vezes é subdiagnosticada porque seus sintomas se confundem com os de conjuntivite alérgica ou ressecamento ocular. A ANVISA regulamenta produtos para higiene palpebral, como lenços umedecidos e soluções de limpeza, que são orientados como parte do tratamento.
É importante que o paciente entenda que a blefarite não é uma infecção contagiosa, mas sim uma inflamação crônica que exige cuidados diários. Se não tratada adequadamente, pode levar a complicações como terçol (hordéolo), calázio (cisto na pálpebra) e até alterações na superfície da córnea. O papel do clínico geral é identificar os sinais precoces, iniciar as medidas de higiene palpebral e encaminhar ao oftalmologista quando necessário.
Como funciona / Características
A blefarite ocorre por um desequilíbrio na produção de secreção das glândulas de Meibômio, localizadas na borda palpebral. Essas glândulas produzem uma gordura que compõe a lágrima e evita sua evaporação rápida. Quando há inflamação, essa secreção fica espessa e obstrui a saída das glândulas, formando um ambiente propício para a proliferação de bactérias da própria pele (como Staphylococcus aureus).
No cotidiano da clínica popular, um exemplo típico é a paciente que trabalha muitas horas em frente ao computador e passa o dia com os olhos secos. Ela relata que, ao acordar, tem crostas duras entre os cílios (como “casquinhas”) e que a pálpebra fica vermelha e inchada, principalmente pela manhã. Outro cenário comum é o paciente idoso com rosácea, que apresenta blefarite posterior – aquela que atinge as glândulas de Meibômio – e queixa-se de sensação de corpo estranho e fotofobia (sensibilidade à luz).
Na avaliação clínica, o médico observa com uma lupa ou oftalmoscópio as bordas palpebrais: presença de crostas amareladas ou esbranquiçadas, vasos sanguíneos dilatados (telangiectasias) na margem da pálpebra, e cílios com grumos de secreção. Muitas vezes, o paciente não percebe esses sinais e acha que é apenas “cansaco dos olhos”. O tratamento básico consiste em compressas mornas (para derreter a secreção) e massagem suave nas pálpebras, seguidas de limpeza com xampu neutro diluído ou lenços específicos (aprovados pela ANVISA).
Tipos e Classificações
A blefarite é classificada principalmente em dois tipos, com base na localização da inflamação:
- Blefarite anterior: atinge a base dos cílios e os folículos pilosos. Pode ser estafilocócica (causada por bactérias) ou seborreica (associada à dermatite seborreica). É mais comum em pacientes jovens com caspa no couro cabeludo ou na sobrancelha.
- Blefarite posterior: envolve as glândulas de Meibômio, que ficam atrás da linha dos cílios. Está frequentemente ligada à disfunção das glândulas de Meibômio (DGM) e é mais comum em adultos acima dos 40 anos, especialmente com rosácea ou olho seco.
Na prática clínica brasileira, usamos a Classificação Internacional de Doenças (CID-10), com o código H01.0 para blefarite. O Ministério da Saúde reconhece a condição como um problema de saúde pública devido ao impacto na qualidade de vida e ao custo com consultas repetidas. A ANVISA também classifica os produtos de higiene palpebral como dispositivos de baixo risco, mas recomenda que o uso seja orientado por um profissional.
Quando procurar um médico
Você deve procurar um médico – preferencialmente um clínico geral na UBS ou um oftalmologista – se apresentar os seguintes sinais:
- Sensação persistente de “areia” ou “ponta de pálpebra” que não melhora com lágrimas artificiais.
- Vermelhidão, inchaço ou dor nas pálpebras que dura mais de uma semana.
- Crostas amareladas ou esbranquiçadas na base dos cílios, especialmente ao acordar.
- Perda de cílios ou crescimento anormal (pálpebras com cílios virados para dentro).
- Sintomas que atrapalham atividades diárias como dirigir, ler ou trabalhar no computador.
- Sinais de complicação: aparecimento de um caroço doloroso na pálpebra (terçol ou calázio), secreção purulenta, febre, ou diminuição da visão.
No SUS, o acolhimento inicial pode ser feito pelo clínico geral, que prescreverá compressas mornas e orientará a higiene local. Caso não haja melhora em 2 semanas ou se houver suspeita de rosácea ou dermatite seborreica refratária, o encaminhamento ao oftalmologista é indicado. Lembre-se: blefarite não tratada pode levar a ceratite (inflamação da córnea) e olho seco grave, que no Brasil é uma das causas mais comuns de consultas oftalmológicas.
Termos Relacionados
- Hordéolo (terçol): infecção bacteriana aguda de uma glândula na pálpebra, geralmente dolorosa e com pus. Pode ser uma complicação da blefarite não tratada.
- Calázio: cisto benigno formado pela obstrução de uma glândula de Meibômio. Diferente do terçol, não costuma doer, mas pode causar desconforto estético e sensação de peso.
- Disfunção das glândulas de Meibômio (DGM): condição crônica em que as glândulas não secretam gordura adequadamente, principal causa de olho seco evaporativo. Muito associada à blefarite posterior.
- Olho seco: diminuição da produção ou qualidade da lágrima, que pode ser desencadeada ou agravada pela blefarite. Sintomas comuns: ardência, coceira, visão embaçada.
- Dermatite seborreica: inflamação da pele que causa descamação (caspa) no couro cabeludo, sobrancelhas e bordas das pálpebras, frequentemente associada à blefarite anterior.
- Rosácea ocular: variante da rosácea que afeta os olhos, causando vermelhidão, sensação de corpo estranho e inflamação das pálpebras. O tratamento inclui cuidados com a pele e colírios específicos.
- Blefaroplastia: procedimento cirúrgico estético ou funcional para corrigir pálpebras caídas. Pode ser recomendado em casos de blefarite crônica com pálpebras espessadas, mas apenas após controle da inflamação.
- Compressa morna: técnica caseira de aplicar um pano limpo umedecido em água morna sobre os olhos por 5 a 10 minutos, para amolecer as crostas e desobstruir as glândulas. É a base do tratamento não medicamentoso.
Perguntas Frequentes sobre O que é Blefarite
Blefarite é contagiosa?
Não. A blefarite é uma inflamação crônica, geralmente não infecciosa, causada por alterações na produção de gordura das glândulas palpebrais e pelo crescimento excessivo de bactérias da própria pele. Você não pega blefarite de outra pessoa nem transmite. Diferente da conjuntivite bacteriana ou viral, não é necessário ficar de isolamento. No entanto, se houver pus (terçol), recomenda-se evitar compartilhar toalhas ou fronhas até que a infecção seja resolvida.
Blefarite pode causar cegueira?
Em casos raros e não tratados adequadamente, a blefarite crônica pode levar a complicações que afetam a córnea,


