O que é Bradiarritmia?
A bradiarritmia é qualquer alteração do ritmo cardíaco que faz o coração bater mais devagar do que o normal, geralmente abaixo de 60 batimentos por minuto (bpm) em repouso. É como se o “motor” do coração perdesse o passo, funcionando mais lento do que deveria. No meu dia a dia como médico clínico geral no SUS e em clínicas populares, essa é uma queixa muito comum entre pacientes idosos ou em uso de certos medicamentos. Muitas vezes, a pessoa chega ao consultório com cansaço excessivo, tonturas ou desmaios, e descobre que o coração está “preguiçoso”.
No Brasil, as bradiarritmias têm causas específicas que merecem atenção. Uma das principais é a doença de Chagas, que ainda atinge milhões de brasileiros, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Segundo dados do Ministério da Saúde (BVSMS), a cardiopatia chagásica é responsável por uma parcela significativa dos casos de bloqueios cardíacos que necessitam de marcapasso. Além disso, o envelhecimento da população, o uso de remédios para pressão (betabloqueadores, verapamil) e condições como o hipotireoidismo também estão por trás de muitos casos atendidos nas unidades básicas de saúde e ambulatórios de clínicas populares. Na prática, se um paciente relata fraqueza constante e “coisa na vista”, já suspeito de bradiarritmia e peço logo um eletrocardiograma (ECG).
É importante entender que nem toda bradicardia (coração lento) é doença. Atletas bem treinados podem ter frequência cardíaca entre 40 e 50 bpm em repouso, e isso é normal. O problema surge quando o batimento lento compromete o bombeamento de sangue para o cérebro e outros órgãos, gerando sintomas. Por isso, classificamos como bradiarritmia sintomática aquela que causa tontura, desmaio (síncope), falta de ar ou fadiga. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento gratuito para diagnóstico e tratamento, incluindo a implantação de marcapasso quando necessário, seguindo os protocolos do Ministério da Saúde e as diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).
Como funciona / Características
O coração tem um sistema elétrico próprio, como um gerador que dispara impulsos para fazer o músculo se contrair. O marcapasso natural, chamado nó sinusal, fica no topo do coração e manda sinais elétricos de 60 a 100 vezes por minuto em repouso. Quando esse gerador falha (dispara menos vezes) ou há um bloqueio nos fios (os ramos do sistema de condução, como o nó atrioventricular e o feixe de His), ocorre a bradiarritmia.
Na prática clínica, percebo que muitos pacientes confundem “coração lento” com “pressão baixa”. Embora possam andar juntos, são coisas diferentes. O eletrocardiograma é o exame mais simples e acessível para detectar a bradiarritmia — nas clínicas populares e unidades básicas de saúde (UBS), o ECG é feito rapidamente e custa pouco ou é gratuito pelo SUS. Outras características comuns no consultório: o paciente pode relatar “um baque no peito” seguido de pausa, que pode ser uma arritmia chamada de bloqueio atrioventricular de alto grau, ou ainda aquela sensação de cabeça vazia ao levantar da cadeira.
Exemplo real: Dona Maria, 78 anos, diabética e hipertensa, começou a sentir cansaço para andar até a feira e duas vezes desmaiou em casa. Na clínica popular, o ECG mostrou uma frequência de 38 bpm e bloqueio atrioventricular de segundo grau tipo 2. Ela foi encaminhada para o serviço de referência do SUS e implantou um marcapasso definitivo. Hoje vive bem. Casos como esse mostram que a detecção precoce muda a vida do paciente.
Tipos e Classificações
As bradiarritmias são classificadas de acordo com a origem do problema no sistema elétrico cardíaco. No Brasil, seguimos a mesma classificação internacional da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da SBC. Os principais tipos são:
- Bradicardia sinusal: o nó sinusal dispara em frequência abaixo de 60 bpm. Pode ser normal em pessoas jovens e atletas, ou patológica em idosos, no hipotireoidismo, na doença do nó sinusal e no uso de medicamentos (betabloqueadores, digitálicos).
- Bloqueio atrioventricular (BAV) de primeiro grau: o impulso demora mais para passar do átrio para o ventrículo. Geralmente não causa sintomas e é achado de ECG.
- Bloqueio atrioventricular de segundo grau: alguns impulsos não chegam ao ventrículo. Divide-se em tipo 1 (Mobitz I ou Wenckebach – geralmente benigno) e tipo 2 (Mobitz II – mais grave, risco de evoluir para bloqueio total).
- Bloqueio atrioventricular de terceiro grau (BAV total): nenhum impulso passa dos átrios para os ventrículos. O coração depende de um ritmo de escape ventricular, muito lento (30-40 bpm). É emergência médica, com alto risco de síncope e morte súbita.
- Doença do nó sinusal (Síndrome do Nó Sinusal): disfunção do marcapasso natural, com alternância de bradicardia e taquicardia (síndrome bradi-táqui). Comum em idosos.
- Ritmo de escape ventricular e ritmo idioventricular acelerado: respostas do coração quando o sistema de condução falha completamente.
Na minha prática, os bloqueios avançados (segundo grau tipo 2 e terceiro grau) são os que mais exigem encaminhamento urgente para implante de marcapasso, procedimento disponível pelo SUS em hospitais de referência. A avaliação inicial com ECG e, se necessário, o Holter de 24 horas (exame que registra o coração por um dia inteiro) são fundamentais para definir o tipo e a gravidade.
Quando procurar um médico
Você deve procurar atendimento médico (UBS, clínica popular ou UPA) se apresentar algum dos seguintes sinais, especialmente se forem repetitivos ou piorarem:
- Cansaço extremo ou falta de ar para fazer atividades que antes eram fáceis (subir escadas, carregar compras)
- Tontura, sensação de desmaio (pré-síncope) ou desmaio de fato (síncope)
- Palpitações seguida de parada ou sensação de coração “engasgando”
- Dor no peito, confusão mental ou dificuldade de concentração
- Quedas frequentes em idosos (muitas vezes a causa é cardíaca)
- Frequência cardíaca < 50 bpm em repouso com sintomas
Não ignore sintomas como “cabeça vazia” ou “coisa na vista”. Em clínicas populares, muitos pacientes chegam achando que é apenas cansaço da idade, mas o eletrocardiograma revela uma bradiarritmia que precisa de tratamento. Se você já usa remédios para pressão ou coração, nunca os interrompa por conta própria – isso pode piorar o quadro. Procure um médico para ajustar as medicações se estiver com batimentos muito lentos.
Importante: o SUS oferece acesso a exames e tratamento, incluindo consultas com cardiologista e implante de marcapasso. As clínicas populares costumam fazer o ECG na hora e encaminhar o paciente para o serviço público ou convênio. Quanto antes for diagnosticado, menores os riscos de complicações, como insuficiência cardíaca ou morte súbita.
Termos Relacionados
- Bradicardia: termo genérico para frequência cardíaca baixa (< 60 bpm). Pode ser normal ou patológica. A bradiarritmia é um tipo de bradicardia que envolve irregularidade do ritmo.
- Bloqueio Atrioventricular (BAV): falha parcial ou total na passagem do impulso elétrico entre os átrios e os ventrículos. É uma das principais causas de bradiarritmia.
- Marcapasso: dispositivo implantado no peito que envia estímulos elétricos ao coração para mantê-lo batendo em uma frequência adequada. Usado nos bloqueios avançados e na doença do nó sinusal.
- Síncope: desmaio súbito e temporário causado pela falta de fluxo sanguíneo ao cérebro. Nas bradiarritmias, ocorre quando o coração para por alguns segundos (pausa sinusal ou bloqueio).
- Eletrocardiograma (ECG): exame que registra a atividade elétrica do coração. Essencial para diagnosticar o tipo de bradiarritmia.
- Holter 24 horas: exame que grava o coração durante um dia inteiro, útil para detectar bradiarritmias intermitentes que não apare


