O que é Butirilcolinesterase?
Butirilcolinesterase (BuChE) – também chamada de pseudocolinesterase ou colinesterase plasmática – é uma enzima produzida pelo fígado e liberada na corrente sanguínea. Ela atua como um “limpador” natural do organismo, quebrando substâncias que contêm ésteres de colina, como alguns medicamentos usados durante anestesias e certos agrotóxicos (organofosforados e carbamatos). No dia a dia de uma clínica popular brasileira, o exame de atividade da BuChE é solicitado principalmente em duas situações: para avaliar exposição a inseticidas em trabalhadores rurais e para investigar o risco de complicações com anestésicos antes de cirurgias eletivas.
No Brasil, o uso intensivo de agrotóxicos na agricultura torna a intoxicação por organofosforados um problema frequente de saúde pública. Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) indicam que, entre 2007 e 2022, foram registrados mais de 170 mil casos de intoxicação exógena, com os agrotóxicos agrícolas liderando as notificações. O Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox), presente em vários estados, utiliza a dosagem da butirilcolinesterase como biomarcador para confirmar a exposição e monitorar a gravidade. Essa realidade é vivenciada todos os dias em ambulatórios do SUS, onde pacientes chegam com sintomas como náusea, sudorese excessiva, fraqueza muscular e até convulsões após contato com defensivos químicos.
Além disso, a BuChE é fundamental na medicina perioperatória. Ela hidrolisa relaxantes musculares como a succinilcolina e o mivacúrio, usados em anestesias. Quando a atividade da enzima está baixa por fatores genéticos (variantes atípicas) ou adquiridos (doenças hepáticas), o paciente pode apresentar apneia prolongada após a cirurgia – um evento que exige suporte ventilatório e intervenção rápida. Embora a prevalência de deficiência genética significativa seja de cerca de 1:3.500 na população geral, a miscigenação brasileira torna importante considerar esse diagnóstico diferencial, principalmente em pacientes com histórico de reação adversa a anestésicos.
Como funciona / Características
A butirilcolinesterase atua quebrando ésteres de colina em ácido e colina, tornando inativos compostos que poderiam causar danos ao sistema nervoso ou bloquear a comunicação neuromuscular. No laboratório clínico, medimos a atividade enzimática em unidades por litro (U/L). Valores normais costumam ficar entre 7.000 e 19.000 U/L, dependendo do método. Uma queda de 30% a 50% já sugere exposição significativa a inseticidas anticolinesterásicos.
No cotidiano de uma clínica popular, recebo frequentemente trabalhadores rurais encaminhados por médicos do trabalho ou Agentes Comunitários de Saúde. Eles relatam “dor de cabeça, visão embaçada e muita salivação” após aplicação de veneno. Quando faço a anamnese, pergunto sobre a rota de exposição (inalação, pele, ingestão) e solicito o exame de colinesterase plasmática (BuChE) e eritrocitária (para acetilcolinesterase). A BuChE é mais fácil de dosar e reflete exposições recentes; a eritrocitária, por sua vez, indica exposição crônica. No SUS, o exame é oferecido gratuitamente em laboratórios de referência e a coleta pode ser feita nas Unidades Básicas de Saúde (UBS).
Outra característica clínica importante é a variabilidade genética. Existem mais de 40 mutações no gene BCHE que reduzem a atividade enzimática. As mais conhecidas são a “atípica” (substituição Asp70Gly) e a “silenciosa” (ausência total de atividade). Pessoas com essas variantes podem não metabolizar adequadamente a succinilcolina, levando a paralisia muscular prolongada – algo que aprendi a sempre descartar antes de procedimentos eletivos, especialmente em pacientes com cirurgias prévias complicadas ou parentes com histórico de apneia pós-anestésica.
Tipos e Classificações
Na prática clínica brasileira, classificamos a deficiência de butirilcolinesterase em dois grandes grupos:
- Deficiência adquirida (secundária) – causada por doenças hepáticas (cirrose, hepatite), desnutrição, gravidez, uso de anticoncepcionais orais, queimaduras ou exposição a organofosforados. É a forma mais comum aqui no SUS. O tratamento consiste em corrigir a causa de base e evitar novas exposições.
- Deficiência hereditária (genética) – determinada por mutações no gene BCHE. As principais variantes são:
- Variante atípica (50% de redução da atividade);
- Variante silenciosa (atividade próxima de zero);
- Variante fluororresistente (mais rara, também leva a baixa atividade);
- Variante K (mais frequente em populações europeias, mas também presente no Brasil).
O exame genético não é rotina no SUS – em geral, o diagnóstico é feito clinicamente e confirmado por teste da diluição com dibucaína (inibe a variante típica) e pela curva de atividade enzimática. O Conselho Federal de Medicina (CFM) recomenda que, em procedimentos eletivos com uso de succinilcolina, a atividade da BuChE seja investigada se houver qualquer suspeita clínica.
Quando procurar um médico
Você deve procurar atendimento médico se apresentar sinais de intoxicação por organofosforados após contato com inseticidas, como:
- Suor excessivo, salivação, lacrimejamento;
- Contração das pupilas (miose) e visão turva;
- Falta de ar, chiado no peito, tosse;
- Aceleração ou lentificação dos batimentos cardíacos;
- Fraqueza muscular, tremores, convulsões;
- Confusão mental ou perda de consciência.
Também é importante relatar ao médico qualquer história de apneia prolongada após uma cirurgia anterior ou reação anormal a medicações usadas em anestesia, como a succinilcolina. Se você trabalha na agricultura, no controle de pragas urbanas ou na indústria química, faça exames periódicos de colinesterase (hemograma com dosagem da BuChE) como parte do Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) – é obrigatório pela Norma Regulamentadora NR-7 do Ministério do Trabalho.
No SUS, você pode procurar a Unidade Básica de Saúde mais próxima para orientação e solicitação de exames. Em caso de emergência, dirija-se a um pronto-socorro ou ligue para o Ciatox (0800‑722‑6001) para orientação imediata.
Termos Relacionados
- Acetilcolinesterase – Enzima presente nos glóbulos vermelhos e no sistema nervoso; também é usada como biomarcador de exposição crônica a organofosforados.
- Organofosforados – Classe de inseticidas que inibem a acetilcolinesterase e a butirilcolinesterase, causando intoxicações agudas.
- Succinilcolina – Relaxante muscular de ação curta usado em anestesias; seu metabolismo depende da butirilcolinesterase.
- Apneia prolongada pós-anestésica – Complicação rara, mas grave, causada por deficiência genética de BuChE.
- SINAN – Sistema de Informação de Agravos de Notificação, do Ministério da Saúde, que registra casos de intoxicação exógena no Brasil.
- CIATox – Centros de Informação e Assistência Toxicológica, que prestam suporte telefônico e presencial para casos de intoxicação.
- NR-7 – Norma Regulamentadora que estabelece a obrigatoriedade de exames ocupacionais, incluindo dosagem de colinesterase para trabalhadores expostos.
- Anestesiologia – Especialidade médica que lida com a segurança do paciente durante procedimentos cirúrgicos, incluindo a avaliação do risco relacionado à butirilcolinesterase.
Perguntas Frequentes sobre O que é Butirilcolinesterase
O que significa butirilcolinesterase baixa?
Valores abaixo do normal indicam que a enzima não está funcionando com toda a sua capacidade. Isso pode ser devido a exposição recente a inseticidas, doença no fígado, desnutrição, gravidez ou uma condição hereditária. O médico deve interpretar o resultado junto com seus sintomas e histórico.
Como é feito o exame de butirilcolinesterase?
É um exame de sangue simples, como qualquer coleta de rotina. Você não precisa de preparo especial – apenas evite aplicar inseticidas ou ter contato com agrotóxicos nas 24 horas anteriores, se possível. O sangue é coletado em um tubo sem anticoagulante e enviado ao laboratório. O resultado sai em alguns dias e é expresso em U/L.
Posso ter deficiência de butirilcolinesterase sem saber?
Sim. Muitas pessoas com a variante atípica ou silenciosa nunca apresentam sintomas, a menos que recebam succinilcolina ou sejam expostas a organofosforados. Estima-se que cerca de 1 em cada 3.500 pessoas tenha uma deficiência significativa. Se você tem parentes que tiveram reações ruins à anestesia, vale a pena conversar com seu médico e solicitar o exame.
O que fazer se eu tiver intoxicação por organofosforados?
Procure imediatamente um serviço de emergência


