sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Câncer de células claras

O que é Câncer de células claras?

O Câncer de células claras é um tipo de tumor maligno que recebe esse nome porque, ao ser examinado no microscópio, as células doentes têm um citoplasma (a parte interna da célula) muito claro, quase transparente, devido ao acúmulo de glicogênio e lipídios (gordura). Em termos práticos, é a forma mais comum de câncer renal – isto é, câncer que se origina nos rins. Também há casos, menos frequentes, em outros órgãos como ovários, útero, pulmões e tireoide, mas o cenário que mais vejo no meu consultório na clínica popular e no SUS é, sem dúvida, o carcinoma de células claras renal (CCR do tipo células claras).

A relevância desse diagnóstico no Brasil é grande. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), o câncer de rim representa cerca de 2% de todos os tumores malignos no país. A estimativa para cada ano do triênio 2023-2025 é de aproximadamente 7.200 novos casos em homens e 4.500 em mulheres. Desses, o tipo mais frequente é exatamente o Câncer de células claras, respondendo por 70% a 80% dos tumores renais. Na minha prática, atendo pacientes acima dos 50 anos, com maior prevalência em homens, e muitos já chegam com sintomas avançados – o que reforça a necessidade de informação acessível.

No dia a dia de uma clínica popular, o termo aparece quando o paciente recebe o laudo de uma ultrassonografia abdominal de rotina. “Doutor, deu uma massa no rim”. Aí vem a investigação: tomografia, biópsia e o patologista descreve “carcinoma de células claras”. Explicar isso de forma simples é essencial. O paciente precisa entender que não é “culpa” dele, que há tratamentos disponíveis no SUS, como cirurgia e imunoterapia, e que o acompanhamento precoce muda o prognóstico.

Link de apoio: INCA – Câncer de Rim (dados oficiais)

Como funciona / Características

O Câncer de células claras começa nas células que revestem os pequenos túbulos dos rins, responsáveis por filtrar o sangue e produzir urina. Por alguma alteração genética – muitas vezes relacionada a mutações no gene VHL (von Hippel-Lindau) – essas células passam a se multiplicar sem controle. O tumor cresce lentamente no início, muitas vezes sem causar sintomas. Por isso, é comum descobrir o câncer de rim de forma incidental, quando o paciente faz um exame por outro motivo.

Na prática clínica, percebo dois cenários principais:

1. Diagnóstico precoce (incidental): Paciente faz uma ultrassom de rotina ou por dor nas costas inespecífica. Encontra-se uma massa renal pequena, geralmente assintomática. Nesses casos, a cirurgia parcial (retirada apenas do tumor) é curativa na maioria das vezes. No SUS, o acesso a cirurgias robóticas é limitado, mas a nefrectomia parcial ou total é realizada nos grandes centros.

2. Diagnóstico tardio: Paciente chega com sangue na urina (hematúria), dor lombar constante, emagrecimento sem causa, febre baixa e nódulo palpável no abdome. Muitas vezes já há metástases – os locais mais comuns são pulmão, ossos, fígado e linfonodos. Nessa fase, o tratamento é sistêmico: imunoterapia (inibidores de checkpoint) e terapia alvo (inibidores de tirosina quinase). Felizmente, o SUS incorporou esses medicamentos de alto custo, mas o acesso ainda é burocrático, exigindo protocolos específicos.

Uma característica marcante do Câncer de células claras é sua alta vascularização – o tumor cria muitos vasos sanguíneos para se nutrir. Isso explica por que a hematúria (sangue na urina) é um sintoma comum. Também explica a eficácia de medicamentos antiangiogênicos (que cortam a alimentação do tumor), como sunitinibe e pazopanibe, disponíveis no SUS via PROADI-SUS ou programas estaduais.

Tipos e Classificações

O Câncer de células claras é um subtipo dentro do grupo dos carcinomas renais. A classificação mais usada no Brasil, baseada na OMS, divide os tumores renais em:

Carcinoma de células claras (o mais comum, 70-80%)
– Carcinoma papilífero (tipo 1 e tipo 2)
– Carcinoma cromófobo
– Carcinoma dos ductos coletores (muito raro)

Dentro do próprio Câncer de células claras, existem subtipos histológicos e gradações de agressividade. O mais utilizado é o Sistema de Fuhrman (graus I a IV), que avalia o tamanho e a forma do núcleo das células tumorais. Tumores grau I e II têm melhor prognóstico; grau III e IV, pior. Na prática, oriento o paciente: “Quanto mais baixo o grau, mais lento o tumor costuma crescer.”

Além disso, o estadiamento (TNMS) é fundamental: T (tumor local), N (linfonodos), M (metástases). No SUS, usamos a classificação do American Joint Committee on Cancer (AJCC), 8ª edição, padronizada pelo Ministério da Saúde para guiar o tratamento.

Vale destacar que a síndrome de von Hippel-Lindau (VHL) é uma condição hereditária que predispõe ao Câncer de células claras bilateral e em idade jovem. Já atendi um paciente de 28 anos com história familiar – encaminhei ao serviço de genética do SUS. O teste genético é ofertado em centros de referência.

Quando procurar um médico

Diante da suspeita de Câncer de células claras, os sinais de alerta são:

– **Sangue na urina** (vermelho vivo ou cor de “coca-cola”) – nunca ignore!
– **Dor nas costas ou no flanco** (abaixo das costelas) que não passa com analgésicos comuns
– **Nódulo ou massa palpável na barriga** (em estágios avançados)
– **Perda de peso inexplicável** (5% ou mais do peso em 6 meses)
– **Cansaço extremo** (fadiga persistente)
– **Febre baixa** (sem infecção aparente)
– **Anemia** (descoberta em exames de rotina)

Na minha experiência, muitos pacientes confundem esses sintomas com “problemas na coluna” ou “infecção urinária”. Por isso, oriento: se você tem mais de 40 anos e apresenta hematúria (mesmo que microscópica, detectada no exame de urina) ou dor lombar persistente, procure uma UBS para solicitar uma ultrassonografia de abdome total. O exame é simples, barato e acessível no SUS.

Importante: fatores de risco aumentam a chance. Tabagismo (o principal!), obesidade, hipertensão, exposição a produtos químicos (como amianto, cádmio) e doença renal crônica em diálise prolongada. Quem tem esses fatores deve fazer check-up anual com exames de imagem.

Se houver diagnóstico, o CFM e o Ministério da Saúde recomendam que o tratamento seja definido por uma equipe multidisciplinar (oncologista, urologista, radiologista) em um hospital habilitado. No SUS, a Rede de Atenção Oncológica conta com centros especializados. A demora média para cirurgia varia, mas há prazos legais (Lei dos 60 dias) após diagnóstico confirmado.

Link de apoio: CFM – Pareceres sobre diagnóstico e tratamento oncológico

Termos Relacionados

  • Hematúria – presença de sangue na urina, sinal clássico de câncer renal. Pode ser visível a olho nu (macro) ou apenas ao exame microscópico.
  • Nefrectomia – cirurgia para remover o rim total ou parcialmente (nefrectomia parcial). É o tratamento principal para tumores localizados.
  • Imunoterapia – tratamento que estimula o sistema imunológico a atacar o câncer. Ex.: pembrolizumabe, nivolumabe. Disponível no SUS para casos avançados.
  • Terapia alvo – medicamentos que agem em moléculas específicas do tumor, como inibidores de tirosina quinase (sunitinibe, pazopanibe). Também no SUS.
  • Metástase – disseminação do câncer para outros órgãos (pulmão, ossos, fígado). Em geral, trata-se com imunoterapia ou terapia alvo.
  • Gene VHL – gene supressor tumoral cuja mutação está associada ao câncer de células claras hereditário (síndrome de VHL). O teste genético pode ser indicado.
  • Ultrassonografia renal – exame de imagem inicial para detectar massas nos rins. Rápido e sem radiação. Acesso amplo no SUS.
  • Biopia percutânea – coleta de amostra do tumor guiada por imagem (TC ou US) para confirmar o tipo histológico. Indicada quando a imagem não é conclusiva.

Perguntas Frequentes sobre Câncer de células claras

1. O câncer de células claras tem cura?

Sim, principalmente quando diagnosticado precocemente, antes de se espalhar. A cirurgia para retirada completa do tumor (nefrectomia parcial ou total) tem altas taxas de cura, acima de 90% nos estágios iniciais. Já nos casos avançados, não se fala em “cura”, mas os tratamentos atuais (imunoterapia, terapia alvo) conseguem controlar a doença por anos, com boa qualidade de vida. Muitos pacientes vivem décadas com o tumor controlado, como uma doença crônica.

2. Quais são os primeiros sintomas que devo observar?

Os mais comuns são sangue na urina (pode ser intermitente), dor lombar de um lado (que não melhora), sensação de massa no abdome, cansaço sem motivo e perda de peso. Mas atenção: muitos tumores são silenciosos no início. Por isso, exames de rotina, como ultrassom, são tão importantes. Se você tem fatores de risco (tabagismo, obesidade, pressão alta), converse com seu médico da UBS sobre a periodicidade dos exames.

3. O SUS oferece tratamento para câncer de rim avançado?

Sim. O Sistema Único de Saúde incorporou medicamentos de alto custo para o tratamento do Câncer de células claras metastático. Os protocolos incluem sunitinibe, pazopanibe (terapia alvo) e nivolumabe (imunoterapia). Além disso, cirurgias, radioterapia e cuidados paliativos estão disponíveis. O acesso se dá por hospitais habilitados em oncologia. O paciente deve ser encaminhado pela UBS para um centro de referência (como o INCA, São Paulo, etc.). O tempo de espera pode ser um desafio, mas há mecanismos legais (Lei dos 60 dias) para garantir o tratamento.

4. Essa doença é hereditária?

Na maioria dos casos (90-95%), o Câncer de células claras é esporádico, ou seja, não é herdado. Mas cerca de 5% dos casos têm base hereditária, como a síndrome de von Hippel-Lindau (VHL). Se houver histórico familiar de câncer renal, tumores múltiplos ou bilaterais ou diagnóstico em idade jovem (antes dos 40), é recomendável avaliação genética. O SUS oferece aconselhamento genético em alguns centros.

5. Qual a diferença entre câncer de células claras e outros tipos de câncer de rim?

O Câncer de células claras é o mais comum e tem características biológicas específicas: é muito vascularizado, relacionado à mutação do gene VHL e responde bem a terapias antiangiogênicas. Já o carcinoma papilífero (segundo mais comum) tende a ser menos agressivo, mas pode ser mais resistente a medicamentos. O carcinoma cromófobo tem prognóstico mais favorável. A diferenciação é feita por biópsia ou análise da peça cirúrgica. Saber o subtipo ajuda a escolher o melhor tratamento.

6. Preciso fazer exames de rotina para detectar precocemente?

Sim, especialmente se você tem fatores de risco. O exame mais simples é a ultrassonografia de abdome total, que pode ser solicitada na UBS. Não há recomendação de rastreamento populacional para câncer de rim, mas para pacientes com história familiar, síndromes genéticas ou rins policísticos, a ultrassonografia anual é indicada. Além disso, exames de urina com pesquisa de hematúria, feitos anualmente no check-up, podem dar o primeiro sinal. Lembre-se: diagnosticar cedo salva rins e vidas.

Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


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