O que é Câncer de células de Merkel?
O câncer de células de Merkel é um tipo raro e agressivo de tumor de pele que se origina das células de Merkel, presentes na camada mais superficial da pele e responsáveis pela sensação tátil. Apesar de ser pouco frequente — representa menos de 1% dos cânceres cutâneos —, sua incidência vem crescendo nas últimas décadas, principalmente entre pessoas acima dos 60 anos e em indivíduos com sistema imunológico comprometido (como transplantados, portadores de HIV ou em uso de medicamentos imunossupressores). No Brasil, os registros ainda são escassos, mas o Instituto Nacional de Câncer (INCA) e o Ministério da Saúde incluem esse tumor nos protocolos de atenção oncológica, sendo tratado em unidades de alta complexidade (CACON e UNACON) do SUS.
Na rotina de uma clínica popular ou de um posto de saúde, o câncer de células de Merkel costuma ser um achado durante a investigação de uma lesão de pele suspeita. Muitos pacientes chegam com uma “bolinha” ou “nódulo” que cresceu rápido, indolor, de coloração avermelhada ou violácea, e que não cicatriza. Por ser parecido com outras lesões benignas (como cistos ou lipomas) ou até com carcinomas mais comuns (basocelular ou espinocelular), o diagnóstico pode demorar. É aí que entra a experiência do clínico: ao notar características atípicas — crescimento acelerado, consistência firme, bordas mal definidas —, encaminhamos para dermatoscopia e biópsia. O SUS disponibiliza esses exames, embora o tempo de espera possa variar conforme a região. A agilidade é fundamental, pois esse tumor tem alta capacidade de metastatizar para linfonodos e órgãos distantes.
O prognóstico está diretamente ligado ao estadiamento no momento do diagnóstico. Quando detectado precocemente, as chances de cura são boas, mas a doença avançada exige tratamentos multidisciplinares, como cirurgia ampla, radioterapia e, mais recentemente, imunoterapia. No Brasil, desde 2021, o SUS incorporou o pembrolizumabe (um imunoterápico) para alguns tipos de câncer de pele avançado, incluindo o de Merkel, ampliando as opções terapêuticas. É fundamental que o paciente e a família sejam acolhidos com clareza e empatia, pois o diagnóstico de um câncer raro costuma gerar medo e dúvidas.
Como funciona / Características
O câncer de células de Merkel se desenvolve quando essas células sofrem mutações genéticas e passam a se multiplicar de forma descontrolada. Em cerca de 80% dos casos, a doença está associada ao poliomavírus de células de Merkel (MCV), um vírus que, em condições normais, vive de forma inativa na pele. Quando o sistema imunológico está enfraquecido, o vírus pode se reativar e desencadear o tumor. Os outros 20% dos casos estão ligados à exposição excessiva à radiação ultravioleta (sol), sem a presença do vírus.
Na prática clínica, o que chama a atenção é o comportamento biológico agressivo. Diferente de um carcinoma basocelular que cresce lentamente, o câncer de células de Merkel pode dobrar de tamanho em poucas semanas. Muitas vezes o paciente relata: “Doutor, esse caroço apareceu do nada e está crescendo”. A lesão geralmente é única, de superfície lisa e brilhante, podendo ulcerar ou sangrar. A localização mais comum é em áreas expostas ao sol: cabeça, pescoço, braços e pernas. Porém, também pode surgir em áreas cobertas, especialmente em pessoas de pele mais escura.
O diagnóstico confirmatório é feito por biópsia (retirada de um fragmento da lesão) seguida de imuno-histoquímica, que identifica marcadores específicos como a citoqueratina 20 (CK20) e o cromogranina A. No SUS, esse exame é realizado em laboratórios de patologia de referência. Uma vez confirmado, o paciente é estadiado com exames de imagem (ultrassom de linfonodos, tomografia computadorizada ou PET-CT) para verificar se há metástases. O tratamento inicial é cirúrgico, com remoção ampla da lesão e, se necessário, biópsia do linfonodo sentinela para avaliar disseminação.
Tipos e Classificações
Na prática oncológica brasileira, a classificação mais usada é a do sistema TNM (Tumor, Linfonodo, Metástase), proposto pela American Joint Committee on Cancer (AJCC) e adotado pelo INCA. Ela divide o câncer de células de Merkel em estágios de 0 a IV:
- Estágio 0 (in situ): tumor limitado à epiderme, sem invasão. Raro.
- Estágio I: tumor menor que 2 cm, sem comprometimento de linfonodos.
- Estágio II: tumor maior que 2 cm ou que invadiu estruturas profundas, sem linfonodos comprometidos.
- Estágio III: qualquer tumor com comprometimento de linfonodos regionais (ínguas).
- Estágio IV: metástases para órgãos distantes (pulmão, fígado, ossos, cérebro).
Outra subclassificação importante diferencia os tumores associados ao vírus MCV (maior resposta à imunoterapia) daqueles causados por dano solar. Embora não altere o estadiamento, essa informação ajuda a equipe médica a prever a evolução e escolher o tratamento. No SUS, a pesquisa do vírus não é feita de rotina, mas pode ser solicitada em centros de referência.
Quando procurar um médico
Você deve consultar um clínico geral ou dermatologista sempre que notar uma lesão de pele nova que:
- Cresce rapidamente (em semanas ou poucos meses);
- Aparece como um nódulo firme, indolor, de cor rósea, vermelha ou roxa;
- Não cicatriza, sangra com facilidade ou apresenta crosta;
- É acompanhada de “íngua” na axila, virilha ou pescoço do mesmo lado da lesão.
Na atenção primária do SUS, o médico da Unidade Básica de Saúde (UBS) pode fazer a suspeita e encaminhar para a dermatologia. Se houver confirmação de câncer de células de Merkel, o paciente será referenciado a um hospital habilitado em oncologia. Não espere a lesão desaparecer sozinha: quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de cura com cirurgia menos mutilante.
Termos Relacionados
- Carcinoma de células de Merkel: mesmo que câncer de células de Merkel; nome técnico da doença.
- Poliomavírus de células de Merkel (MCV): vírus associado a cerca de 80% dos casos; não é transmitido entre pessoas, mas reativado quando a imunidade cai.
- Linfonodo sentinela: primeiro linfonodo que recebe a drenagem do tumor; sua biópsia indica se o câncer já se espalhou.
- Imunoterapia: tratamento que estimula o sistema imunológico a combater o câncer; usado em casos avançados no SUS.
- Dermatoscopia: exame que amplia a visualização da lesão de pele, ajudando na suspeita diagnóstica.
- Biópsia de pele: retirada de um fragmento do tumor para análise microscópica; passo essencial para confirmar o diagnóstico.
- Radioterapia: tratamento com radiação para destruir células tumorais
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