O que é Câncer de células escamosas da conjuntiva?
O câncer de células escamosas da conjuntiva (também chamado de carcinoma espinocelular da conjuntiva) é um tumor maligno que se origina na camada mais superficial do olho – a conjuntiva, membrana fina e transparente que recobre a parte branca do olho (esclera) e o interior das pálpebras. Na prática clínica aqui no Brasil, especialmente nas clínicas populares e no SUS, ele aparece como uma lesão elevada, avermelhada ou esbranquiçada, que muitas vezes o paciente confunde com um “pterígio” (a famosa “carne no olho”) ou uma conjuntivite que não melhora. A diferença crucial é que essa lesão não regride com colírios comuns e pode crescer lentamente ao longo de meses.
A incidência desse tipo de câncer no Brasil é maior em regiões de alta exposição solar, como o Nordeste e áreas rurais, e está fortemente associada à radiação ultravioleta (UV). Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam que os tumores de conjuntiva representam cerca de 5% a 10% dos cânceres oculares no país, sendo o carcinoma de células escamosas o mais frequente entre eles. Outros fatores de risco incluem infecção pelo papilomavírus humano (HPV), imunossupressão (como em pacientes com HIV ou transplantados) e exposição a produtos químicos, como alcatrão. No dia a dia da clínica, é comum atender trabalhadores rurais, pescadores e pessoas que passam longas horas ao ar livre sem proteção adequada – óculos escuros com filtro UV e chapéu de aba larga são medidas que repetimos incansavelmente.
O diagnóstico precoce é fundamental: quando identificado ainda no estágio inicial, o tratamento é cirúrgico e curativo na maioria dos casos. No SUS, o paciente pode ser encaminhado pela Unidade Básica de Saúde (UBS) para um oftalmologista, que realizará o exame com lâmpada de fenda e, se necessário, uma biópsia. O tratamento é feito em hospitais de referência em oncologia, como o INCA ou serviços credenciados. A demora no diagnóstico, infelizmente comum em regiões com pouca oferta de especialistas, pode levar a quadros mais avançados, que exigem cirurgias mais extensas e até radioterapia.
Como funciona / Características
O câncer de células escamosas da conjuntiva se desenvolve a partir de uma proliferação descontrolada das células epiteliais da conjuntiva, geralmente após anos de exposição solar crônica. Ele começa como uma lesão pré-maligna chamada neoplasia intraepitelial conjuntival (CIN, na sigla em inglês), que pode evoluir para um carcinoma invasor se não tratada. No consultório, a lesão típica é uma placa ou nódulo esbranquiçado, róseo ou avermelhado, com vasos sanguíneos dilatados na superfície (telangiectasias). Costuma ser indolor no início, mas pode causar irritação, sensação de corpo estranho, lacrimejamento e, em casos mais avançados, dor e visão embaçada.
Um exemplo real que vivencio: Seu João, 68 anos, agricultor aposentado, chega à clínica popular queixando-se de uma “mancha que cresce no olho direito” há seis meses. Ele já usou colírios de lágrima artificial e antibiótico, sem melhora. Ao exame com lâmpada de fenda, identificamos uma lesão elevada, branco-amarelada, na conjuntiva bulbar (parte que cobre a esclera), próximo à borda da córnea, com vasos nutridores evidentes. Suspeito imediatamente de carcinoma de células escamosas e encaminho para biópsia excisional no setor de oftalmologia do hospital regional. Esse é o padrão: lesões unilaterais, de crescimento lento, que não regridem com tratamento clínico.
A progressão pode ser localmente agressiva. Se não for tratado, o tumor pode invadir a córnea, a esclera, a órbita ocular e, raramente, dar metástases para linfonodos regionais (pré-auriculares, submandibulares) ou para órgãos distantes. Felizmente, a taxa de metástase é baixa (cerca de 2% a 5%), mas o risco aumenta em tumores maiores, recorrentes ou em pacientes imunossuprimidos.
Tipos e Classificações
No Brasil, a classificação mais usada na prática clínica e nos serviços de patologia segue a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o sistema TNM (Tumor, Node, Metastasis) para tumores de conjuntiva. Os principais tipos são:
- Carcinoma in situ (neoplasia intraepitelial conjuntival grau III): células malignas confinadas ao epitélio, sem invasão da camada subepitelial. É a lesão precursora, tratável com remoção cirúrgica ou crioterapia.
- Carcinoma invasivo: quando as células ultrapassam a membrana basal e invadem o estroma conjuntival. Pode ser classificado como bem, moderadamente ou pouco diferenciado, dependendo do grau de atipia celular.
- Carcinoma verrucoso: variante de crescimento exofítico (para fora), com superfície papilomatosa, menos agressiva.
- Carcinoma mucoepidermoide: raro, com mistura de células escamosas e mucinosas, prognóstico variável.
A classificação TNM ajuda a planejar o tratamento: T1 é tumor limitado à conjuntiva, T2 invade córnea ou esclera superficial, T3 invade estruturas profundas (ex.: órbita), T4 invade seio paranasal ou base do crânio. No SUS, a maioria dos casos é diagnosticada em estádios iniciais (T1/T2), mas em regiões com acesso limitado a oftalmologistas, vemos casos T3 que exigem cirurgias mais radicais, como exenteração (remoção do olho e tecidos orbitários).
Quando procurar um médico
Você deve procurar um oftalmologista (pode ser via UBS, clínica popular ou pronto-atendimento) se notar qualquer uma das seguintes alterações:
- Uma lesão elevada na parte branca do olho ou na pálpebra interna que não desaparece em duas semanas.
- Mancha esbranquiçada, rosada ou avermelhada que cresce lentamente.
- Irritação ocular persistente, sensação de areia ou corpo estranho, apesar de uso de colírios.
- Sangramento espontâneo ou ao toque da lesão.
- Alteração na visão, como embaçamento ou dor ocular.
- Aparecimento de nódulo nas pálpebras ou na região pré-auricular (próximo ao ouvido), que pode indicar comprometimento linfonodal.
Não espere meses. O diagnóstico precoce é simples: um exame com lâmpada de fenda (presente em toda unidade de oftalmologia do SUS) é suficiente para levantar a suspeita. A biópsia confirma. Se você tem fatores de risco – exposição solar crônica, histórico de pterígio, HIV, uso de imunossupressores – faça exames oftalmológicos anualmente. No SUS, a consulta com oftalmologista pode ser agendada pela UBS; em clínicas populares, o custo é baixo e o acesso rápido. Não negligencie: um tumor pequeno é tratado com cirurgia ambulatorial; um tumor avançado pode exigir mutilação.
Termos Relacionados
- Pterígio: crescimento benigno da conjuntiva em direção à córnea, comum em pessoas expostas ao sol. Difere do câncer por ser regular, plano e não crescer rapidamente. Pode evoluir para lesão maligna em alguns casos.
- Neoplasia intraepitelial conjuntival (CIN): lesão pré-maligna que pode evoluir para carcinoma. É classificada em graus I, II e III (carcinoma in situ). O tratamento é cirúrgico ou com crioterapia.
- Melanoma conjuntival: tumor maligno menos comum, originado dos melanócitos. Apresenta pigmentação escura. Tem maior potencial metastático que o carcinoma escamoso.
- Carcinoma de células basais: tumor maligno de pele, mas pode afetar pálpebras. Raro na conjuntiva. É o mais comum entre cânceres de pálpebra, não de conjuntiva.
- Exenteração orbitária: cirurgia radical que remove o olho e todo o conteúdo da órbita, indicada em tumores avançados ou recorrentes. No SUS, é realizada em centros de referência em oncologia.
- Crioterapia: tratamento com aplicação de frio extremo para destruir células tumorais. Usada como adjuvante na remoção de lesões superficiais.
- Mitomicina C: quimioterápico tópico usado em colírio para tratar neoplasias intraepiteliais e prevenir recidivas. Disponível no SUS para casos específicos.
- Radioterapia externa ou braquiterapia: tratamento com radiação para tumores irressecáveis ou com invasão local. Oferecida em serviços habilitados do SUS.
Perguntas Frequentes sobre O que é Câncer de células escamosas da conjuntiva
O câncer de células escamosas da conjuntiva tem cura?
Sim, quando diagnosticado precocemente, a cura é possível na grande maioria dos casos. O tratamento padrão é a remoção cirúrgica completa da lesão com margens de segurança, geralmente feita em nível ambulatorial. Em estágios iniciais (carcinoma in situ ou tumor pequeno), a taxa de cura ultrapassa 95%. Se houver invasão local, pode ser necessário associar crioterapia, colírios de quimioterapia ou radioterapia. A chave é não atrasar a consulta.
Qual a diferença entre pterígio e câncer de células escamosas da conjuntiva?
O pterígio é um crescimento benigno da conjuntiva, geralmente em forma de asa, que avança sobre a córnea. É comum em pessoas expostas ao sol e não apresenta atipia celular. O câncer de células escamosas, por outro lado, é maligno: a lesão é mais irregular, elevada, pode sangrar e não regride com colírios. A única maneira de diferenciar com certeza é através da biópsia. Na prática, qualquer lesão conjuntival que persista por mais de 2-3 semanas ou que cresça deve ser investigada.
O que causa esse tipo de câncer no olho?
A principal causa é a exposição crônica à radiação ultravioleta (UV) do sol, sem proteção adequada. Trabalhadores rurais, pescadores, agricultores e pessoas que vivem em regiões de alta insolação (como o Nordeste brasileiro) estão mais expostos. Outros fatores incluem infecção pelo HPV, imunossupressão (HIV, transplantados, uso de corticoides prolongados), tabagismo e exposição a produtos químicos (alcatrão, derivados do petróleo).


