O que é Câncer de células escamosas da glândula sublingual?
O câncer de células escamosas da glândula sublingual é um tipo raro e agressivo de tumor maligno que se origina nas células que revestem a glândula salivar sublingual, localizada embaixo da língua, no assoalho da boca. Diferente dos tumores mais comuns da boca (como os que surgem na língua ou na gengiva), esse câncer começa dentro de uma glândula que produz saliva, o que dificulta o diagnóstico precoce. Na minha prática diária no SUS e em clínicas populares de Fortaleza, atendo pacientes que chegam com uma “íngua” ou caroço embaixo da língua que não dói, mas vai crescendo devagar – muitas vezes confundido com uma infecção dentária ou uma “pedra na glândula” (sialolitíase).
No Brasil, o câncer de boca (incluindo as glândulas salivares) é o quinto mais comum entre homens, com cerca de 15 mil novos casos por ano, segundo dados do INCA. Porém, o subtipo sublingual representa menos de 1% de todos os tumores de cabeça e pescoço. A maioria dos pacientes tem entre 50 e 70 anos, com forte associação ao tabagismo e ao consumo excessivo de álcool – realidade que vejo todos os dias nas filas dos postos de saúde. O SUS oferece diagnóstico por biópsia e tratamento cirúrgico nos hospitais de referência em oncologia, como o Hospital do Câncer de Fortaleza, mas o atraso no diagnóstico ainda é um grande problema.
Diferente do carcinoma epidermoide comum da mucosa oral, esse tumor surge no interior da glândula, então pode não apresentar feridas visíveis. O paciente sente um “nó” ou inchaço sob a língua, que pode dificultar a fala e a deglutição. Como médico que atende em uma clínica popular, sempre oriento: qualquer caroço que persista por mais de duas semanas, especialmente embaixo da língua, merece investigação com ultrassom ou tomografia e encaminhamento para cirurgião de cabeça e pescoço. O CFM e a Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço recomendam que o diagnóstico seja feito por biópsia incisional ou punção aspirativa por agulha fina (PAAF).
Como funciona / Características
Imagine a glândula sublingual como uma pequena “fábrica” de saliva embaixo da língua, do lado direito e esquerdo. Quando as células escamosas (que revestem os ductos por onde a saliva sai) sofrem mutações e começam a se multiplicar sem controle, forma-se um tumor sólido. No começo, ele é pequeno e não dói – por isso muitos pacientes acham que é uma “bola de gordura” ou um cisto. Com o tempo, o tumor invade os tecidos vizinhos: músculos do assoalho da boca, língua, mandíbula e até os linfonodos do pescoço (as famosas “ínguas”). Diferente do câncer de pele, não há uma lesão externa visível; o paciente só percebe quando o inchaço atrapalha engolir ou falar.
No dia a dia da clínica, recebo muitos pacientes que já usaram anti-inflamatórios por semanas, achando que era uma inflamação. Quando faço o exame com a língua levantada, vejo uma massa firme, fixa, que não desaparece. A principal característica clínica é a assimetria do assoalho bucal: um lado fica mais elevado que o outro. Outro sinal importante é a saída de sangue ou secreção pelo ducto da glândula (carúncula sublingual) ou dor ao movimentar a língua. Na minha experiência, cerca de 30% dos pacientes já apresentam metástase para gânglios do pescoço no momento do diagnóstico, porque o tumor cresce “quieto” por meses.
O tratamento padrão no SUS é a cirurgia radical: remoção da glândula afetada, parte do assoalho da boca e, muitas vezes, esvaziamento cervical (retirada dos linfonodos do pescoço). Quando o tumor é grande ou já espalhou, associamos radioterapia pós-operatória. A taxa de sucesso depende do estadiamento: se descoberto no início (tumor T1/T2, sem gânglios), a chance de cura com cirurgia é alta. Infelizmente, na maioria dos casos que vejo em clínica popular, o paciente já está em estágio avançado, o que torna o tratamento mais agressivo e com sequelas funcionais (dificuldade para engolir, falar, deformidade estética).
Tipos e Classificações
No Brasil, os médicos seguem a classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) para tumores de glândulas salivares. O carcinoma de células escamosas é um subtipo, mas existem outros tipos histológicos que podem afetar a glândula sublingual, como o carcinoma mucoepidermoide e o adenocarcinoma. Porém, o mais comum (cerca de 70%) é o carcinoma de células escamosas, que tem comportamento mais agressivo.
A classificação mais importante para o paciente e para o tratamento é o estadiamento TNM (Tumor, Linfonodos, Metástase), adotado pelo Conselho Federal de Medicina e usado nos hospitais do SUS:
- T (tumor primário): T1 (até 2 cm), T2 (2 a 4 cm), T3 (>4 cm), T4 (invade estruturas como mandíbula, língua, pele).
- N (linfonodos): N0 (sem metástase), N1 (um gânglio do mesmo lado), N2/N3 (vários gânglios ou de ambos os lados).
- M (metástase à distância): M0 (nenhuma), M1 (pulmão, fígado, osso).
Além disso, o grau histológico (bem, moderadamente ou pouco diferenciado) ajuda a prever a agressividade. No SUS, a análise é feita por patologistas dos laboratórios públicos. Eu sempre recomendo que o paciente peça uma cópia do laudo e leve ao cirurgião de cabeça e pescoço para discutir o plano.
Quando procurar um médico
Na minha rotina de clínica popular, os pacientes geralmente só procuram ajuda quando já estão com sintomas avançados. Por isso, destaco os sinais de alerta que merecem uma consulta com clínico geral, dentista ou cirurgião de cabeça e pescoço:
- Caroço ou inchaço embaixo da língua que persiste por mais de 2 semanas, mesmo que não doa.
- Dificuldade para engolir (disfagia) ou sensação de “bolo” na garganta.
- Mudança na fala (voz pastosa, dificuldade para articular palavras) sem causa evidente.
- Ferida ou úlcera no assoalho da boca que não cicatriza em 3 semanas.
- Dormência ou formigamento na língua ou no queixo (pode indicar invasão de nervos).
- Sangramento pela boca sem motivo, ou secreção amarelada/esbranquiçada saindo de baixo da língua.
- Ínguas no pescoço endurecidas, que não somem com antibióticos.
O SUS tem fluxo de encaminhamento: procure primeiro uma Unidade Básica de Saúde (UBS). O clínico ou dentista fará exame clínico e, se suspeitar, encaminha para um serviço de cirurgia de cabeça e pescoço. Em clínicas populares, muitas vezes solicito uma ultrassonografia de partes moles do pescoço (USG) – exame rápido e barato – para ver se a lesão é sólida ou cística. Se houver suspeita, a biópsia é o padrão-ouro. Não espere o caroço doer para procurar ajuda; nesse tipo de câncer, a dor geralmente aparece tarde.
Termos Relacionados
- Glândula sublingual: Pequena glândula salivar localizada no assoalho da boca, embaixo da língua, responsável por produzir cerca de 5% da saliva.
- Carcinoma de células escamosas: Tipo de câncer que começa nas células achatadas (escamosas) que revestem superfícies, como a mucosa oral e os ductos das glândulas.
- Assoalho bucal: Região em forma de “U” embaixo da língua, entre a face interna da mandíbula e a base da língua.
- Esvaziamento cervical: Cirurgia para remover os linfonodos do pescoço, usada quando há suspeita ou confirmação de metástase.
- Biopópsia por agulha fina (PAAF): Técnica minimamente invasiva para coletar células de um nódulo, guiada por ultrassom ou palpação.
- Radioterapia adjuvante: Radioterapia feita após a cirurgia para eliminar células cancerosas residuais, comum em tumores avançados.
- Tabagismo e etilismo: Principais fatores de risco; no Brasil, cerca de 85% dos pacientes com câncer de boca têm histórico de tabagismo.
- Metástase linfonodal: Disseminação do câncer para os gânglios (ínguas) do pescoço, que piora o prognóstico.
Perguntas Frequentes sobre Câncer de células escamosas da glândula sublingual
1. Esse câncer é muito comum no Brasil?
Não, felizmente é raro. O câncer de glândulas salivares como um todo representa menos de 3% dos tumores de cabeça e pescoço. O subtipo sublingual é ainda mais raro – estima-se menos de 1 caso para cada 200 mil pessoas por ano. No entanto, como médico que trabalha há 15 anos em Fortaleza, vejo cerca de 2 a 3 pacientes por ano com esse diagnóstico, principalmente homens acima de 50 anos, fumantes e etilistas. No SUS, a maioria dos casos é tratada em centros de oncologia de referência, como o Hospital do Câncer de Fortaleza ou o INCA no Rio de Janeiro.
2. Quais são os primeiros sintomas?
O sintoma mais comum é um inchaço ou caroço indolor embaixo da língua, que o paciente percebe ao tocar com a língua ou ao ver no espelho. Muitas vezes, a pessoa sente que “algo está preso” ou que a língua não se movimenta bem. Diferente de uma afta ou infecção, não há dor inicial. Com o crescimento, pode surgir dificuldade para engolir saliva, voz pastosa e, em estágios mais avançados, dor e sangramento. Na clínica popular, pergunto sempre: “O senhor notou algum caroço debaixo da língua que não some?” – isso já levanta a suspeita.
3. Como é feito o diagnóstico?
O primeiro passo é o exame clínico: o médico levanta a língua com uma espátula e apalpa o assoalho bucal. Se sentir uma massa firme, solicita exames de imagem, como ultrassom ou tomografia computadorizada, para ver o tamanho e se há invasão de ossos ou linfonodos. O diagnóstico definitivo é feito por biópsia: retira-se um pequeno fragmento da lesão (biópsia incisional) ou faz-se punção com agulha fina (PAAF) guiada por ultrassom. O material é enviado para análise patológica. No SUS, esse processo pode demorar de 30 a 60 dias, por isso oriento os pacientes a não perderem as consultas de retorno.
4. Quais são as opções de tratamento pelo SUS?
O SUS cobre integralmente o tratamento, que inclui cirurgia (remoção da glândula, parte do assoalho bucal e,


