O que é Câncer de células escamosas da glândula submandibular?
O câncer de células escamosas da glândula submandibular é um tipo raro e agressivo de tumor maligno que se origina nas células escamosas (células planas que revestem os ductos) das glândulas salivares submandibulares. Essas glândulas estão localizadas abaixo da mandíbula, de cada lado do pescoço, e são responsáveis por produzir cerca de 60% da saliva da boca. No Brasil, esse tipo de neoplasia representa menos de 1% dos tumores de cabeça e pescoço, mas sua incidência tem aumentado ligeiramente, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA).
No dia a dia de uma clínica popular ou de um posto do SUS, o paciente geralmente chega com uma queixa de “caroço no pescoço” que cresceu devagar, sem dor, e que muitas vezes é confundido com um linfonodo inflamado. A falta de acesso a exames de imagem e a demora na referência para serviços especializados fazem com que o diagnóstico ocorra, na maioria dos casos, em estágio avançado. Dados do Ministério da Saúde mostram que cerca de 70% dos tumores de glândulas salivares maiores (submandibular e parótida) são diagnosticados quando já há comprometimento de linfonodos ou invasão de estruturas vizinhas.
Como médico que atende no SUS, vejo que o principal desafio é a suspeição clínica. Muitos pacientes são tratados por meses com antibióticos para “infecção” até que a persistência do nódulo leve a uma biópsia. É fundamental que o clínico geral saiba que qualquer nódulo endurecido, fixo e que persiste por mais de 3 semanas na região submandibular merece investigação oncológica.
Como funciona / Características
O câncer de células escamosas da glândula submandibular se desenvolve a partir da transformação maligna das células epiteliais que revestem os ductos da glândula. Ao contrário de tumores benignos (como adenomas pleomórficos), esse carcinoma tem crescimento infiltrativo, ou seja, invade o tecido glandular e as estruturas ao redor – músculos, nervos e vasos sanguíneos.
No consultório, o paciente pode notar um nódulo endurecido, indolor no início, que lentamente aumenta de tamanho. Com o tempo, podem surgir sintomas como dormência no lábio inferior do mesmo lado (por compressão do nervo lingual), dificuldade para abrir a boca (trismo), dor local e, em fases mais avançadas, paralisia de um lado da face. Um exemplo prático que atendi foi de um senhor de 58 anos que relatava “formigamento no queixo” há 2 meses e um pequeno caroço que ele achava ser “glândula inchada” – a ultrassonografia mostrou uma massa sólida de 3 cm com bordas irregulares, e a punção confirmou carcinoma espinocelular.
Esse tumor tem alta capacidade de metástase linfática precoce: cerca de 40% dos pacientes já apresentam comprometimento de linfonodos cervicais no momento do diagnóstico. Por isso, o exame físico do pescoço (palpação de cadeias ganglionares) é essencial. No SUS, a propedêutica inclui ultrassonografia de partes moles, tomografia computadorizada (TC) de pescoço e, quando disponível, ressonância magnética (RM) para avaliar extensão perineural.
Tipos e Classificações
A classificação mais usada no Brasil, seguindo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os protocolos do INCA, divide o carcinoma de células escamosas das glândulas salivares em subtipos histológicos:
- Carcinoma de células escamosas queratinizante: produz queratina, geralmente menos agressivo.
- Carcinoma de células escamosas não queratinizante: mais indiferenciado, com maior potencial metastático.
- Carcinoma basaloide de células escamosas: variante mais rara e agressiva, frequentemente associada ao HPV em algumas localizações (mas não na glândula submandibular).
Para o estadiamento oncológico, utiliza-se o sistema TNM (Tumor, Linfonodo, Metástase), que define o tamanho do tumor primário (T1 a T4), o comprometimento linfonodal (N0 a N3) e a presença de metástases à distância (M0 ou M1). No contexto do SUS, a classificação TNM é registrada no prontuário e orienta a conduta: tumores precoces (T1-T2 N0) podem ser tratados com cirurgia isolada; casos localmente avançados (T3-T4 ou N+) exigem cirurgia ampla + radioterapia pós-operatória, com ou sem quimioterapia.
Quando procurar um médico
Você deve procurar atendimento em uma UBS (Unidade Básica de Saúde), clínica popular ou o posto do SUS mais próximo se apresentar qualquer um dos seguintes sinais:
- Nódulo ou caroço na região do pescoço (abaixo do queixo, próximo ao ângulo da mandíbula) que persiste por mais de 3 semanas e não diminui com medicamentos.
- Dormência ou formigamento no lábio inferior, no queixo ou na gengiva do mesmo lado do nódulo.
- Dor local que piora ao mastigar ou abrir a boca.
- Dificuldade progressiva para abrir a boca (trismo) ou sensação de “trava” no maxilar.
- Perda de peso inexplicada, cansaço ou febre baixa (sinais sistêmicos).
- Ferida na boca ou no pescoço que não cicatriza em 2 semanas.
Oriente-se: não espere o nódulo ficar dolorido. Muitas lesões malignas são indolores no início. Ao sentir qualquer alteração, marque uma consulta. O encaminhamento para o oncologista ou cirurgião de cabeça e pescoço deve ser feito rapidamente pelo sistema de regulação do SUS.
Termos Relacionados
- Glândula submandibular: uma das glândulas salivares maiores, localizada abaixo da mandíbula, responsável pela produção de saliva.
- Carcinoma espinocelular: sinônimo de carcinoma de células escamosas; é o tipo histológico mais comum de câncer de pele, mas também pode ocorrer em mucosas e glândulas.
- Linfonodo cervical: “íngua” no pescoço; é o principal local de metástase dos tumores da região da cabeça e pescoço.
- Biopse aspirativa por agulha fina (PAAF): exame de punção com agulha fina para retirar células do nódulo e analisar ao microscópio; muito usado para diagnóstico inicial.
- Ressecção ampla: cirurgia para retirar o tumor com uma margem de tecido saudável ao redor; tratamento padrão para tumores localizados.
- Radioterapia adjuvante: tratamento com radiação após a cirurgia para eliminar células remanescentes; indicada quando há risco de recidiva.
- Estadiamento (TNM): sistema que classifica o tamanho do tumor (T), comprometimento de linfonodos (N) e metástases (M), para definir prognóstico e tratamento.
- Protocolo do Ministério da Saúde: diretrizes oficiais para diagnóstico e tratamento oncológico no SUS, incluindo cirurgia e radioterapia.
Perguntas Frequentes sobre O que é Câncer de células escamosas da glândula submandibular
1. Esse tipo de câncer é hereditário?
Na maioria dos casos, não há herança genética direta. O câncer de células escamosas da glândula submandibular está mais associado a fatores ambientais, como tabagismo (sobretudo do cigarro e do cachimbo), consumo excessivo de álcool e exposição ao vírus HPV (menos frequente nessa localização). Porém, raras síndromes genéticas, como a síndrome de Li-Fraumeni, podem aumentar o risco. Se houver histórico familiar de câncer de cabeça e pescoço, converse com seu médico.
2. Qual o tratamento mais comum no SUS?
O tratamento padrão no SUS é a cirurgia de ressecção ampla da glândula submandibular e dos linfonodos regionais (esvaziamento cervical), seguida de radioterapia conforme o estadiamento. Em casos avançados inoperáveis, pode-se usar quimioterapia com cisplatina e radioterapia concomitante, conforme o Protocolo Clínico de Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde. O acesso a esses tratamentos é regulado pelas centrais estaduais de oncologia.
3. A cirurgia causa sequelas na face?
Sim, podem ocorrer. A ressecção da glândula submandibular pode afetar o nervo marginal mandibular, que controla os movimentos do lábio inferior, causando desvio da boca ou assimetria ao sorrir. Também pode haver dormência no queixo. Felizmente, a maioria dos pacientes recupera parte da função com fisioterapia, e a paralisia permanente é menos comum em cirurgias realizadas por cirurgiões experientes. Converse com o especialista sobre os riscos antes da operação.
4. Esse câncer tem cura?
Sim, especialmente quando diagnosticado em estágio inicial (T1-T2 N0). Estudos brasileiros apontam taxa de cura acima de 80% para tumores pequenos sem metástase linfonodal. Em estágios avançados, o tratamento combinado (cirurgia + radioterapia) pode alcançar taxas de sobrevida em 5 anos de 40% a 60%. O acompanhamento no SUS é contínuo e inclui controle de recidivas.
5. Preciso fazer exames de imagem antes da biópsia?
Sim, a ultrassonografia é o primeiro exame, pois diferencia nódulo sólido de cístico e orienta a punção. Depois, a tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RM) avaliam a extensão do tumor e o comprometimento de linfonodos. A biópsia (punção por agulha fina) é feita após os exames de imagem. No SUS, esses exames são solicitados pelo médico e agendados via sistema de regulação. Pode haver demora, mas insista no acompanhamento.
6. O que fazer se o SUS demorar para marcar o tratamento?
Você tem direito ao atendimento oncológico em até 60 dias após o diagnóstico, conforme a Lei dos 60 dias (Lei 12.732/2012). Se houver demora, procure a ouvidoria da Secretaria Municipal ou Estadual de Saúde, ou o Defensoria Pública. Em casos urgentes, o Ministério Público pode intervir. Mantenha todos os exames e relatórios organizados. O site do Conselho Federal de Medicina (CFM) também oferece orientações sobre direitos do paciente.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


