quinta-feira, maio 28, 2026

O que é Câncer de células escamosas da nasofaringe

O que é O que é Câncer de células escamosas da nasofaringe?

O câncer de células escamosas da nasofaringe é um tumor maligno que se origina nas células epiteliais que revestem a nasofaringe – a região atrás do nariz, acima do céu da boca e na parte superior da garganta. No meu dia a dia de consultório, aqui no SUS e nas clínicas populares, muitos pacientes chegam com sintomas que nem imaginam que podem ser um câncer: uma obstrução nasal que não passa, um sangramento leve ao assoar o nariz, ou um incômodo no ouvido. É um tumor relativamente raro no Brasil, mas com incidência maior nas regiões Norte e Nordeste, possivelmente ligado a fatores como infecção pelo vírus Epstein-Barr (EBV), consumo de alimentos conservados (como peixe seco e defumado) e tabagismo.

Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), a taxa de incidência ajustada por idade no Brasil fica em torno de 1 a 2 casos por 100 mil habitantes por ano, sendo mais comum em homens entre 40 e 60 anos. No contexto do SUS, o diagnóstico costuma ser feito tardiamente, porque os primeiros sinais são confundidos com sinusite, rinite ou otite de repetição. Por isso, a atenção primária é fundamental: um médico clínico ou otorrinolaringologista precisa ficar atento a pacientes que não melhoram com tratamento convencional. O acesso a exames como a nasofibroscopia e a biópsia é garantido pelo Sistema Único de Saúde, mas a fila pode ser longa em algumas regiões, o que reforça a importância de uma referência precoce aos centros de oncologia.

O tratamento no Brasil segue os protocolos do Ministério da Saúde e as diretrizes terapêuticas do SUS, que incluem radioterapia combinada com quimioterapia como padrão-ouro. Cirurgias são menos comuns, devido à localização profunda e de difícil acesso. A boa notícia é que, com diagnóstico precoce, as taxas de controle local e sobrevida são animadoras – em estágios iniciais, a chance de cura ultrapassa 80% em centros de referência.

Como funciona / Características

O câncer de células escamosas da nasofaringe se desenvolve a partir de mutações nas células de revestimento da nasofaringe, que começam a crescer de forma desordenada e podem invadir estruturas vizinhas, como a base do crânio, os seios da face e os gânglios linfáticos do pescoço. Diferente de outros cânceres de cabeça e pescoço, ele tem forte associação com o vírus Epstein-Barr (EBV), que está presente em praticamente todos os casos na forma não queratinizante (o tipo mais comum aqui no Brasil). Isso faz com que o tumor reaja bem à radioterapia, mas também exija acompanhamento cuidadoso para evitar recaídas.

Na prática clínica, o que mais vejo é um paciente que já passou por vários tratamentos para “sinusite” ou “alergia”, sem sucesso. Os sintomas – como obstrução nasal unilateral, secreção com sangue, dor de ouvido, perda auditiva, zumbido, ou um caroço no pescoço – são os principais sinais de alerta. Muitas vezes, a primeira pista é um linfonodo (íngua) endurecido na região do pescoço, que o próprio paciente nota ao fazer a barba ou pentear o cabelo. Nesses casos, faço a palpação cervical, encaminho para uma nasofibroscopia (exame com um tubo fino e flexível que passa pelo nariz) e, se houver lesão suspeita, para biópsia.

A doença também tem uma característica peculiar: pode causar derrame no ouvido médio (otite média serosa) por obstruir a tuba auditiva, e isso é um motivo frequente de consulta em clínicas populares. Lembro de uma paciente, dona de casa de 52 anos, que vinha há meses com “ouvido tampado” e perda de audição. Após duas tentativas de tratamento com antibiótico e anti-inflamatório, pedi uma nasofibroscopia, que mostrou uma lesão exofítica na parede lateral da nasofaringe. A biópsia confirmou carcinoma de células escamosas. Ela foi tratada com radioterapia e quimioterapia e hoje está em remissão há 4 anos.

Tipos e Classificações

No Brasil, a classificação mais usada é a da Organização Mundial da Saúde (OMS), que divide o câncer de células escamosas da nasofaringe em três subtipos histológicos:

  • Carcinoma de células escamosas queratinizante: mais associado ao tabagismo e ao álcool, menos frequente, tende a ser mais agressivo e tem menor resposta à radioterapia.
  • Carcinoma de células escamosas não queratinizante: o tipo mais comum entre brasileiros, fortemente ligado ao EBV. Responde bem ao tratamento com radioterapia e quimioterapia, e tem melhor prognóstico.
  • Carcinoma indiferenciado: variante mais rara, com células que não se diferenciam em queratina; também associado ao EBV e com comportamento biológico similar ao subtipo não queratinizante.

Além da classificação histológica, usamos o estadiamento TNM (Tumor, Nódulo linfático, Metástase), que define a extensão local do tumor (T), comprometimento de linfonodos (N) e presença de metástases à distância (M). No SUS, o estadiamento é feito com exames de imagem – tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM) – e, em casos suspeitos, com PET-CT, disponível em centros de referência. Essa classificação orienta a escolha do tratamento e dá uma ideia do prognóstico.

Quando procurar um médico

Procure um médico (clínico geral, otorrinolaringologista ou oncologista) imediatamente se você apresentar qualquer um dos seguintes sinais persistentes por mais de 2 a 3 semanas:

  • Obstrução nasal em apenas um lado (nariz entupido sem melhora com anti-alérgicos ou descongestionantes)
  • Sangramento nasal frequente ou secreção com raias de sangue
  • Dor de ouvido de um lado, perda de audição, zumbido ou sensação de ouvido tampado (principalmente sem infecção aparente)
  • Caroço (íngua) no pescoço, que endurece e não dói
  • Dor ao engolir, alteração na voz ou rouquidão
  • Perda de peso inexplicada, cansaço, suores noturnos

Na minha experiência, o maior erro é tratar esses sinais como “coisa passageira”. O ideal é buscar atendimento na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima ou no pronto-atendimento. Se houver suspeita, o médico pode solicitar uma nasofibroscopia – exame que é feito em ambulatórios de otorrinolaringologia e está disponível no SUS, embora com filas variáveis. Em clínicas populares, muitas vezes conseguimos acelerar esse encaminhamento com parcerias locais.

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