O que é Câncer de células escamosas da orofaringe?
O câncer de células escamosas da orofaringe é um tumor maligno que surge na parte média da garganta, atrás da boca, conhecida como orofaringe. Essa região inclui a base da língua, as amígdalas, o palato mole (céu da boca) e a parte posterior da faringe. As células escamosas revestem a mucosa dessas áreas, e quando sofrem mutações genéticas, podem se multiplicar descontroladamente, formando o câncer. Na prática clínica do SUS e de clínicas populares brasileiras, atendemos muitos pacientes que chegam com queixas persistentes de “garganta inflamada” que não melhora com tratamentos comuns, ou com um caroço no pescoço que cresce aos poucos. O diagnóstico precoce é um desafio, pois os sintomas iniciais se confundem com infecções banais, e muitos só buscam ajuda quando a doença já está avançada.
Dados epidemiológicos brasileiros do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam que, a cada ano, são estimados cerca de 15 mil novos casos de câncer de cabeça e pescoço no Brasil, entre os quais o câncer de orofaringe representa uma parcela significativa. O perfil clássico de paciente é o homem acima de 50 anos, fumante e etilista. No entanto, nos últimos anos, temos observado um aumento de casos em pessoas mais jovens, especialmente entre homens e mulheres sexualmente ativos, associados à infecção pelo HPV (papilomavírus humano). No SUS, o acesso ao diagnóstico por meio de biópsia e exames de imagem é garantido pela rede de atenção oncológica, mas o tempo entre a suspeita e o tratamento ainda é um gargalo, o que reforça a importância de procurar atendimento logo nos primeiros sinais.
Na rotina de uma clínica popular, muitas vezes o paciente chega após semanas ou meses de automedicação com anti-inflamatórios ou chás caseiros. Ele relata “uma feridinha na garganta que não sara”, dificuldade para engolir ou a sensação de um “nó” no pescoço. Como médico, é crucial fazer o exame clínico minucioso — incluir palpação do pescoço e inspeção da cavidade oral — e encaminhar para a especialidade de cabeça e pescoço ou para o serviço de oncologia da região. O câncer de células escamosas da orofaringe é uma doença grave, mas com tratamento adequado, as chances de cura são reais, especialmente quando diagnosticado em estágios iniciais.
Como funciona / Características
O câncer de células escamosas da orofaringe começa quando o DNA das células escamosas sofre alterações (mutações) que fazem com que elas se multipliquem de forma desordenada. Essas células anormais podem formar uma massa ou úlcera na mucosa da orofaringe. Com o tempo, o tumor pode invadir tecidos vizinhos — como a base da língua, as amígdalas, o palato — e se espalhar para os gânglios linfáticos do pescoço. É por isso que um dos primeiros sinais que o paciente nota é um “caroço” no pescoço, que na verdade são linfonodos aumentados devido à metástase.
No cotidiano da clínica popular: Um senhor de 55 anos, ex-fumante de longa data, chega à consulta queixando-se de “uma dor de garganta que começou há uns dois meses”. Ele já tomou antibiótico duas vezes, sem melhora. Ao examinar, vejo uma lesão avermelhada e irregular na amígdala esquerda, que sangra ao toque. Palpo um linfonodo endurecido, de cerca de 2 cm, na região do pescoço do mesmo lado. Pergunto sobre perda de peso: ele perdeu 4 kg nas últimas semanas. Esse quadro típico acende o alerta para um possível câncer de células escamosas da orofaringe. Encaminho para a unidade de referência em oncologia do SUS para realizar biópsia e estadiamento.
Outro cenário comum: mulheres jovens, com vida sexual ativa e sem fatores de risco tradicionais como tabagismo, apresentam lesões na orofaringe associadas ao HPV. O tumor costuma ser mais sensível ao tratamento e ter melhor prognóstico, mas ainda assim exige acompanhamento rigoroso. A característica-chave é que o câncer de orofaringe relacionado ao HPV tende a se manifestar com linfonodos cervicais grandes e císticos, enquanto a lesão primária pode ser pequena e até invisível a olho nu.
Tipos e Classificações
O câncer de células escamosas da orofaringe é classificado de acordo com o sistema TNM, adotado mundialmente e utilizado no Brasil pela rede SUS. A classificação é baseada em três componentes:
- T (tumor primário): T1 a T4, conforme o tamanho e a invasão local do tumor. Exemplo: T1 significa tumor com até 2 cm; T4 indica invasão de estruturas profundas, como músculo ou osso.
- N (linfonodos regionais): N0 a N3, de acordo com o comprometimento dos gânglios linfáticos do pescoço. N1 pode ser um linfonodo único pequeno; N3 são múltiplos ou grandes.
- M (metástase à distância): M0 quando não há disseminação para outros órgãos (pulmão, fígado, ossos); M1 quando há.
A partir do TNM, define-se o estágio clínico (I, II, III, IVA, IVB, IVC). No dia a dia, dois grandes subgrupos são distintos:
- Câncer de orofaringe associado ao HPV (HPV positivo): Geralmente diagnosticado em pacientes mais jovens, com boa resposta à radioterapia e quimioterapia, e prognóstico mais favorável. O teste para HPV (p16 por imuno-histoquímica) é feito rotineiramente nas peças de biópsia.
- Câncer de orofaringe não associado ao HPV (HPV negativo): Mais comum em fumantes e etilistas, com tumores mais agressivos e maior taxa de recidiva.
Além disso, a histologia avalia o grau de diferenciação celular: bem diferenciado, moderadamente diferenciado ou pouco diferenciado (anaplásico). Todos esses dados ajudam a equipe oncológica a planejar o tratamento — cirurgia, radioterapia, quimioterapia ou combinações. No SUS, os protocolos do Ministério da Saúde e as diretrizes da ANVISA para a radioterapia e medicamentos antineoplásicos regem o cuidado.
Quando procurar um médico
Qualquer pessoa que apresente um ou mais dos seguintes sinais deve procurar atendimento em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou clínica popular o mais rápido possível:
- Dor de garganta persistente por mais de duas semanas, que não melhora com medicamentos comuns.
- Ferida ou mancha na boca, na garganta ou nas amígdalas que não cicatriza em duas a três semanas.
- Dificuldade ou dor ao engolir (disfagia), principalmente se acompanhada de emagrecimento inexplicado.
- Nódulo ou “caroço” no pescoço que cresce progressivamente.
- Mudança na voz (rouquidão) que dura mais de 15 dias.
- Sensação de algo “entalado” na garganta.
- Sangramento pela boca ou pela garganta sem causa aparente.
- Dor de ouvido de um lado só, sem infecção aparente.
É importante não esperar que os sintomas passem sozinhos. Muitos pacientes chegam no consultório dizendo: “Pensei que era só uma inflamação”. Na clínica popular, faço questão de orientar que nódulos no pescoço em adultos, especialmente acima de 40 anos, exigem investigação, mesmo que indolores. A suspeita precoce pode fazer toda a diferença no prognóstico. Se houver histórico de tabagismo, consumo excessivo de álcool ou infecção por HPV (verrugas genitais ou parceiros com câncer de colo do útero), a atenção deve ser redobrada.
Termos Relacionados
- Carcinoma de células escamosas: O tipo mais comum de câncer de boca e garganta. Origina-se nas células escamosas que revestem as mucosas.
- Orofaringe: Parte da faringe localizada atrás da cavidade oral, que inclui base da língua, amígdalas, palato mole e parede posterior da faringe.
- HPV (Papilomavírus Humano): Vírus sexualmente transmissível, responsável por parte crescente dos casos de câncer de orofaringe, especialmente em jovens. A vacinação contra HPV é disponível no SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos.
- Disfagia: Dificuldade ou dor para engolir. Sintoma frequente e precoce no câncer de orofaringe.
- Linfonodo cervical: Pequena estrutura do sistema linfático localizada no pescoço. O aumento (linfonodomegalia) pode ser o primeiro sinal de metástase do câncer de orofaringe.
- Estadiamento: Processo que determina a extensão do câncer (tamanho do tumor, comprometimento de linfonodos, metástase). Fundamental para escolher o tratamento e estimar o prognóstico.
- Radioterapia: Tratamento com radiação para destruir células cancerosas. Pode ser usado isoladamente ou combinado com quimioterapia (radioquimioterapia).
- Oncologia: Especialidade médica dedicada ao diagnóstico, tratamento e acompanhamento do câncer. No SUS, a oncologia é organizada em Centros de Alta Complexidade em Oncologia (CACON).
Perguntas Frequentes sobre O que é Câncer de células escamosas da orofaringe
O câncer de células escamosas da orofaringe tem cura?
Sim, tem possibilidade de cura, especialmente quando diagnosticado em estágios iniciais. A taxa de sobrevida em cinco anos para casos localizados (estágios I e II) pode superar 70% a 80% com tratamento adequado. Tumores associados ao HPV costumam responder ainda melhor. Já em estágios avançados (III e IV), a cura é mais desafiadora, mas tratamentos multimodais (cirurgia, radioterapia, quimioterapia e imunoterapia) podem controlar a doença por anos. O acompanhamento com a equipe de oncologia do SUS é essencial.
HPV pode causar câncer de garganta?
Sim. O HPV (principalmente o subtipo 16) é um fator de risco estabelecido para o câncer de orofaringe. Nos Estados Unidos e Europa, a maioria dos casos recentes em pessoas jovens está ligada ao HPV. No Brasil, essa associação também cresce. A transmissão ocorre por contato sexual oral-genital ou oral-oral. A vacinação contra HPV, oferecida gratuitamente no SUS para adolescentes, é uma importante medida de prevenção.


