O que é O que é Câncer de células escamosas da vulva?
O câncer de células escamosas da vulva é o tipo mais frequente de tumor maligno que atinge a vulva – a região externa do órgão genital feminino, que inclui os grandes lábios, os pequenos lábios, o clitóris e a abertura da vagina. Na prática do dia a dia, em uma clínica popular ou no SUS, a gente vê que muitas mulheres chegam com queixas vagas, como coceira que não passa, uma “feridinha” que não cicatriza ou um caroço na virilha. O diagnóstico, infelizmente, ainda acontece em estágios mais avançados, porque o assunto é cercado de vergonha e falta de informação.
Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de vulva representa cerca de 5% dos tumores ginecológicos no Brasil, com uma estimativa de aproximadamente 600 novos casos por ano. A faixa etária mais comum é acima dos 60 anos, mas tenho visto, cada vez mais, mulheres mais jovens – especialmente aquelas com histórico de infecção pelo HPV (papilomavírus humano) ou que fumam. No SUS, o acesso ao diagnóstico precoce ainda é um desafio: a vulva é uma área de difícil observação para a própria paciente, e muitas vezes o exame ginecológico de rotina é negligenciado. Por isso, a orientação da ANVISA e do Ministério da Saúde reforça a importância da prevenção primária com a vacina contra o HPV e do rastreamento de lesões precursoras, como a neoplasia intraepitelial vulvar (VIN).
Na minha experiência clínica, o que mais chama atenção é o sofrimento silencioso: mulheres que convivem meses com sintomas por medo de procurar ajuda. O câncer de células escamosas da vulva surge a partir de células que revestem a superfície da vulva, e quando detectado cedo, as chances de cura são altas. Mas quando a gente descobre tarde, pode invadir estruturas vizinhas e os linfonodos da virilha. Por isso, falar abertamente sobre o tema, sem tabu, é um ato de cuidado.
Como funciona / Características
O câncer de células escamosas da vulva se desenvolve de forma lenta, muitas vezes passando por estágios pré-cancerosos. Imagine a pele da vulva: ela é formada por camadas de células escamosas. Quando essas células sofrem mutações (por exemplo, pela ação do HPV ou pelo fumo), elas podem crescer de forma desordenada, formando uma lesão que começa superficial e vai se aprofundando.
No cotidiano da clínica popular, os sintomas mais comuns que ouço das pacientes são:
- Coceira persistente na vulva, que não melhora com pomadas comuns.
- Dor ou ardor local, principalmente ao urinar ou durante relação sexual.
- Surgimento de uma lesão (mancha branca, avermelhada, verrucosa ou uma úlcera) que não cicatriza em semanas.
- Sangramento fora do período menstrual ou após contato.
- Inchaço na virilha (íngua) – pode ser sinal de que o tumor já atingiu os gânglios linfáticos.
É muito comum a paciente confundir com hemorroida, alergia ou infecção. Aí ela usa pomada de farmácia por meses. Quando finalmente chega no consultório, a lesão já está maior. O diagnóstico é confirmado por biópsia – um pequeno fragmento retirado com anestesia local e analisado no laboratório de patologia do SUS. O exame é simples, mas muitas mulheres têm receio. Eu sempre explico: “É rapidinho, a senhora não sente quase nada e a gente tira a dúvida de uma vez”.
Fatores de risco relevantes no Brasil:
- Infecção pelo HPV (especialmente os tipos 16 e 18) – principal causa evitável.
- Tabagismo – o cigarro enfraquece o sistema imunológico local.
- Imunossupressão (HIV, uso de corticoides, transplantes).
- Idade avançada.
- Doenças crônicas da vulva, como líquen escleroso.
No SUS, o tratamento é ofertado de forma integral: cirurgia, radioterapia e quimioterapia, conforme o estadiamento. A dificuldade maior é garantir o seguimento, porque muitas pacientes abandonam o tratamento por falta de apoio ou por dificuldade de locomoção. A Política Nacional de Atenção Oncológica estabelece que todo caso suspeito deve ser encaminhado para um serviço de referência, e a espera média ainda é um gargalo, mas temos avançado.
Tipos e Classificações
Do ponto de vista da prática médica, classificamos o câncer de células escamosas da vulva de duas maneiras principais: quanto ao subtipo histológico e quanto ao estadiamento (extensão da doença). No Brasil, usamos a classificação da FIGO (Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia), que orienta a escolha do tratamento e o prognóstico.
Classificação histológica (ao microscópio):
- Queratinizante: o mais comum, forma “pérolas” de queratina.
- Não queratinizante: menos diferenciado, geralmente associado ao HPV.
- Basalóide: lembra células basais, também relacionado ao HPV.
- Verrucoso: crescimento lento, baixo potencial de metástase, mas confundido com verruga.
Estadiamento FIGO (resumido para o paciente):
- Estádio I: tumor limitado à vulva, menor que 2 cm (I) ou maior que 2 cm (II).
- Estádio II: tumor que se espalha para estruturas vizinhas (uretra, vagina, ânus) sem atingir gânglios.
- Estádio III: tumor invade a virilha (linfonodos regionais) ou estruturas mais profundas.
- Estádio IV: metástase a distância (pulmão, fígado, ossos).
Na prática, a maioria das pacientes que chegam ao SUS está no estádio II ou III. Por isso reforço: ao menor sinal, procure a UBS. A classificação ajuda a equipe a definir se o caso pode ser tratado só com cirurgia (casos iniciais) ou se precisa de radioterapia e quimioterapia combinadas (casos avançados).
Quando procurar um médico
Se você ou alguém que você conhece apresentar qualquer um dos sinais abaixo, marque uma consulta com o ginecologista ou vá a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima:
- Coceira ou ardência na vulva que dura mais de duas semanas, sem melhora com hidratação ou pomadas comuns.
- Ferida, úlcera ou caroço na região genital que não cicatriza em 30 dias.
- Manchas brancas, vermelhas ou escuras na pele da vulva.
- Dor ou sangramento ao tocar o local ou durante a relação sexual.
- Aparecimento de “íngua” (caroço) na virilha, que pode ser indolor.
- Mudança na aparência de uma verruga ou sinal que já existia.
Não espere o sintoma passar sozinho. Não tenha vergonha. O médico está ali para cuidar, não para julgar. No SUS, o exame ginecológico completo é gratuito, e a biópsia pode ser feita no próprio ambulatório. Quanto antes a lesão for identificada, mais chances de tratamento conservador (cirurgia pequena, sem mutilação). Lembre-se: o câncer de vulva tem cura, especialmente quando diagnosticado precocemente.
Termos Relacionados
- HPV (Papilomavírus Humano): vírus sexualmente transmissível, responsável pela maioria dos casos de câncer de vulva e de colo do útero. A vacina contra o HPV está disponível no SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos.
- Neoplasia Intraepitelial Vulvar (VIN): lesão precursora do câncer, considerada “câncer inicial” ou grau zero. Detectada na biópsia, pode ser tratada com pomadas ou cirurgia a laser, evitando a progressão.
- Líquen Escleroso: doença inflamatória crônica da vulva que causa coceira, afinamento da pele e risco aumentado de câncer. Exige acompanhamento regular.
- Linfonodos Inguinais: gânglios linfáticos da virilha. O câncer de vulva costuma se espalhar primeiro para eles. A avaliação por palpação e ultrassom é parte do estadiamento.
- Biopia de Vulva: exame padrão-ouro para diagnóstico. Pequena amostra da lesão é retirada com anestesia local e enviada ao patologista.
- Vulvoscopia: exame de magnificação da vulva com uso de colposcópio, indicado para avaliar lesões suspeitas. Não é realizado em todas as UBS, mas nos centros especializados.
- Radioterapia Pélvica: tratamento com radiação, usado em casos de tumores localmente avançados ou após cirurgia, para eliminar células remanescentes.
- Cirurgia de Vulva: tratamento principal da doença inicial. Pode ser uma vulvectomia parcial (retirada da lesão com margem de segurança) ou radical (retirada total da vulva e gânglios). No SUS, há equipes treinadas em oncologia ginecológica.
Perguntas Frequentes sobre O que é Câncer de células escamosas da vulva
1. Câncer de vulva é a mesma coisa que HPV?
Não. O HPV é um vírus que pode causar verrugas genitais e, em alguns casos, levar ao câncer de vulva após muitos anos. Mas nem toda mulher infectada terá câncer. O HPV é um fator de risco importante, mas existem outros, como fumo e idade. A vacina contra o HPV, oferecida no SUS, é uma forma de prevenção.
2. Tem cura? Como é o tratamento?
Sim, tem cura, especialmente quando descoberto no início. O tratamento principal é a cirurgia para retirar o tumor. Em casos mais avançados, associa-se radioterapia e quimioterapia. O SUS cobre todos esses tratamentos. O mais importante é não deixar para depois – quanto menor a lesão, menos agressivo o tratamento e maior a chance de cura.
3. Precisa tirar a vulva inteira?
Não necessariamente. Hoje, sempre que possível, os médicos fazem cirurgias mais conservadoras. Se o tumor for pequeno e localizado, retira-se apenas a lesão com uma margem de pele saudável. A indicação de uma vulvectomia radical (retirada total) fica para tumores grandes ou que já invadiram estrut


