O que é Câncer de células escamosas do reto?
O Câncer de células escamosas do reto é um tipo raro de tumor maligno que se origina nas células escamosas – aquelas que revestem a parte mais baixa do intestino grosso, próxima ao ânus. Na prática clínica brasileira, especialmente em ambulatórios do SUS e clínicas populares, esse diagnóstico costuma vir depois de queixas persistentes de sangramento anal, dor ou sensação de “caroço” no canal retal. Muitos pacientes só procuram ajuda quando os sintomas já duram meses, por vergonha ou medo do exame de toque retal.
É importante destacar que, no Brasil, o Câncer de células escamosas do reto corresponde a menos de 5% dos tumores colorretais, mas sua incidência tem crescido discretamente, especialmente em pessoas com mais de 50 anos e naquelas com infecção pelo papilomavírus humano (HPV) – principal fator de risco. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam que o câncer de ânus (que inclui este tipo) representa cerca de 2,6% dos casos de tumores digestivos no país, com maior frequência em mulheres. A associação com HPV é tão forte que a vacina contra o HPV, distribuída gratuitamente no SUS, é hoje uma das principais medidas preventivas.
Na minha experiência, o maior desafio é o diagnóstico tardio. Um paciente típico chega ao posto com “hemorroida que não sara”, anemia inexplicada ou emagrecimento. Muitos já haviam usado pomadas ou anti-inflamatórios por conta própria. Por ser um tumor raro, a suspeita clínica exige atenção: um toque retal simples, feito na consulta de atenção primária, pode detectar lesões endurecidas, ulceradas ou vegetantes. Quando há dúvida, encaminhamos para colonoscopia com biópsia – procedimento regulado pelo SUS, mas com filas que variam de 30 a 90 dias conforme a região.
Como funciona / Características
O Câncer de células escamosas do reto funciona como uma proliferação descontrolada das células epiteliais escamosas que revestem o terço inferior do reto e a junção anorretal. Diferentemente do adenocarcinoma retal – mais comum –, esse tipo tem comportamento biológico mais agressivo e maior propensão a metastatizar para linfonodos inguinais e pélvicos. Em termos práticos: a lesão costuma ser mais superficial no início, mas invade tecidos adjacentes rapidamente se não tratada.
No cotidiano de uma clínica popular, o que muita gente pergunta é: “Isso tem cura?” Sim, quando diagnosticado precocemente, a taxa de cura ultrapassa 80%. O tratamento principal é a quimiorradioterapia (associação de radioterapia e quimioterapia), que no SUS é oferecida em centros de alta complexidade (CACON). Cirurgia como a amputação abdominoperineal do reto (retirada do reto e ânus com colostomia definitiva) ficou reservada para casos de recidiva ou tumores muito avançados. A boa notícia é que, com o protocolo de quimiorradioterapia, a maioria dos pacientes preserva o ânus e evita a bolsa de colostomia.
Outra característica que observo na prática: a associação frequente com outras doenças. Cerca de 30% dos pacientes têm histórico de condiloma acuminado (verrugas anogenitais) ou lesões intraepiteliais escamosas de alto grau (NIC) no colo do útero, especialmente mulheres. Isso porque o HPV é o mesmo agente. Por isso, quando atendo um paciente com Câncer de células escamosas do reto, sempre faço uma avaliação ginecológica/urológica e pergunto sobre uso de tabaco (fator que multiplica o risco).
Tipos e Classificações
Na prática oncológica brasileira, usamos a classificação TNM (Tumor, Nódulo, Metástase) para estadiamento, padronizada pelo Ministério da Saúde e pelas diretrizes da Sociedade Brasileira de Patologia. Para o Câncer de células escamosas do reto, as principais categorias são:
- Estádio I (T1-T2, N0, M0): Tumor limitado ao reto, sem linfonodos comprometidos. Tratamento curativo com quimiorradioterapia.
- Estádio II (T3-T4, N0, M0): Tumor invade tecidos perirretais ou órgãos vizinhos. Ainda curável, mas com maior risco de recidiva.
- Estádio III (qualquer T, N+, M0): Comprometimento de linfonodos regionais. Exige quimiorradioterapia + possível cirurgia de resgate.
- Estádio IV (qualquer T, qualquer N, M+): Metástase à distância (fígado, pulmão). Tratamento paliativo, com quimioterapia sistêmica.
Além disso, o laudo anatomopatológico deve descrever o grau de diferenciação (bem, moderadamente ou pouco diferenciado) e a presença de infecção por HPV (detectada por imuno-histoquímica ou PCR). A classificação histológica mais específica é a carcinoma escamoso queratinizante vs. não queratinizante, que influencia a resposta ao tratamento. No SUS, esses exames são realizados pela rede de patologia dos CACON, com tempo médio de liberação de 15 a 25 dias.
Quando procurar um médico
Diante de sinais de alerta que podem indicar um Câncer de células escamosas do reto, o paciente deve buscar atendimento na UBS (Unidade Básica de Saúde) imediatamente. Oriento meus pacientes a não normalizarem sangramento anal, mesmo que pequeno. Outros sintomas que merecem atenção:
- Sangramento vermelho vivo ou muco nas fezes ou no papel higiênico, persistente por mais de duas semanas.
- Dor anal ou sensacão de peso no reto, que não melhora com analgésicos comuns.
- Alteração do hábito intestinal (diarreia ou constipação alternadas) há mais de 30 dias.
- Perda de peso sem causa aparente, cansaço excessivo ou anemia em exames de sangue.
- Nódulo ou “caroço” palpável na região anal, endurecido e que sangra ao toque.
Na atenção primária, o médico fará o toque retal – exame rápido, indolor quando feito com lubrificante e técnica adequada. Se houver suspeita, o paciente é encaminhado para colonoscopia com biópsia (exame padrão-ouro). No SUS, o acesso depende da regulação municipal; em clínicas populares, muitas vezes oferecemos o exame a preços acessíveis (R$ 200 a R$ 400) para acelerar o diagnóstico.
Um ponto importante: não use pomadas ou supositórios sem orientação médica quando houver sangramento. O uso inadequado de corticoides pode mascarar sintomas e atrasar o diagnóstico. A recomendação do Conselho Federal de Medicina (CFM) é clara: todo sangramento anal persistente deve ser investigado com exame protológico completo.
Termos Relacionados
- Adenocarcinoma retal – O tipo mais comum de câncer de reto, originado nas células glandulares; diferente do escamoso, tem fatores de risco como obesidade e dieta.
- HPV (Papilomavírus Humano) – Vírus associado a verrugas genitais e a vários tipos de câncer; principal causa do carcinoma escamoso de reto e ânus.
- Quimiorradioterapia – Tratamento combinado de radiação e quimioterapia, usado como terapia primária para tumores localizados.
- Colostomia – Abertura cirúrgica do intestino grosso na parede abdominal para eliminação das fezes; pode ser temporária ou definitiva.
- Junção anorretal – Região de transição entre o reto e o ânus, onde as células escamosas e glandulares se encontram; local mais frequente do tumor.
- NIC (Neoplasia Intraepitelial Cervical) – Lesão precursora do câncer de colo do útero, também causada por HPV; sua presença aumenta o risco de tumor anorretal.
- Toque retal – Exame físico no qual o médico introduz o dedo enluvado no ânus para palpar o reto; essencial no diagnóstico precoce.
- Vacina HPV – Vacina quadrivalente (tipos 6, 11, 16 e 18) oferecida pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos; previne infecções oncogênicas.
Perguntas Frequentes sobre o que é Câncer de células escamosas do reto
Esse câncer é agressivo? Tem chance de cura?
Sim, o Câncer de células escamosas do reto pode ser agressivo, mas tem altas taxas de cura quando diagnosticado em estágios iniciais. A chance de cura gira em torno de 80% no Estádio I e cai para cerca de 30% no Estádio IV. O tratamento principal é quimiorradioterapia, e muitos pacientes ficam livres da doença sem precisar de cirurgia mutiladora.
O HPV está sempre presente? Posso ter esse câncer mesmo sem ter tido HPV?
A maioria dos casos está ligada ao HPV de alto risco (tipos 16 e 18), mas não são todos. Pode ocorrer também em pessoas com imunossupressão (HIV, transplante) ou exposição crônica a agentes irritantes. Mesmo assim, a vacina contra o HPV é a principal ferramenta de prevenção – consulte o calendário do SUS.
Como é feito o diagnóstico? Preciso de colonoscopia?
O primeiro passo é o toque retal na consulta. Se houver suspeita, o médico solicita colonoscopia com biópsia. É o único exame que confirma o diagnóstico e o tipo histológico. No SUS, o acesso pode levar semanas; em clínicas particulares ou populares, o procedimento custa entre R$ 150 e R$ 500, e resultados saem em até 10 dias.
Qual a diferença entre câncer de reto escamoso e adenocarcinoma?
O adenocarcinoma vem das células que produzem muco no intestino; é o mais comum e tem relação com alimentação e genética. Já o escamoso vem das células de revestimento e está quase sempre ligado ao HPV. O tratamento do escamoso costuma ser quimiorradioterapia, enquanto o adenocarcinoma frequentemente exige cirurgia.
Posso fazer o tratamento pelo SUS? Como funciona a fila?
Sim, todo o tratamento é oferecido pelo SUS nos centros de alta complexidade (CACON). O paciente é encaminhado da UBS para a regulação. O tempo de espera para início da radioterapia varia de 30 a 90 dias, dependendo da região. Há um protocolo de prioridade para tumores agressivos. Se puder, busque também clínicas populares para acelerar exames iniciais.
Vou precisar de colostomia? Dá para evitar?
Na maioria dos pacientes diagnosticados precocemente, a colostomia definitiva é evitada com a quimiorradioterapia. A cirurgia com colostomia só é feita em casos de tumores muito avançados, recidiva ou se o paciente não responde ao tratamento inicial. Preservar o ânus é hoje o padrão de cuidado.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


