quarta-feira, junho 17, 2026

O que é Câncer de células estromais gastrointestinais

O que é Câncer de células estromais gastrointestinais?

O Câncer de células estromais gastrointestinais (sigla GIST, do inglês Gastrointestinal Stromal Tumor) é um tipo raro de tumor que se forma nas paredes do tubo digestivo, principalmente no estômago e no intestino delgado. Diferente de tumores mais comuns como o adenocarcinoma gástrico, o GIST surge das células intersticiais de Cajal, que funcionam como “marcapassos” do movimento dos alimentos no intestino. Na minha experiência no SUS e em clínicas populares, muitos pacientes descobrem esse tumor por acaso, ao fazer uma ultrassonografia ou endoscopia por outros motivos – como dor na barriga ou anemia crônica –, e nunca tinham ouvido falar dessa doença até o diagnóstico.

No Brasil, o GIST representa cerca de 1% a 2% de todos os tumores gastrointestinais. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam que aproximadamente 500 a 600 novos casos são diagnosticados por ano no país, embora a subnotificação seja possível devido à raridade e à dificuldade de diagnóstico em serviços de atenção primária. A maioria dos pacientes tem entre 50 e 70 anos, mas também atinge pessoas mais jovens. No contexto do SUS, o diagnóstico é feito por meio de biópsia (amostra do tumor) e exame de imuno-histoquímica, que identifica a proteína CD117 (KIT), presente em mais de 90% dos casos. Esse exame é disponibilizado nos centros de referência em oncologia, mas o acesso pode ser demorado em regiões mais afastadas, o que exige que o médico da atenção básica fique atento a sinais suspeitos.

Na rotina da clínica popular, lido com pacientes que chegam com queixas vagas como azia, desconforto abdominal, sensação de empachamento e anemia inexplicada. Muitas vezes, o GIST é descoberto quando a pessoa já tem um sangramento intestinal oculto, que provoca fezes escuras ou anemia ferropriva resistente ao tratamento. Por isso, é fundamental que médicos e pacientes saibam que esse tumor, apesar de raro, existe e pode ser tratado com bons resultados, especialmente quando diagnosticado precocemente.

Como funciona / Características

O Câncer de células estromais gastrointestinais se desenvolve a partir de uma mutação genética nas células de Cajal, geralmente no gene KIT (responsável por uma proteína que controla o crescimento celular) ou, menos comumente, no gene PDGFRA. Essa mutação faz com que as células se multipliquem sem controle, formando um nódulo na parede do estômago, intestino delgado, cólon, reto ou, raramente, em outras partes do abdômen. O tumor pode crescer para dentro do órgão (cavidade) ou para fora, comprimindo estruturas vizinhas.

Uma característica importante é que o GIST pode ser benigno ou maligno. Na prática clínica, usamos o tamanho do tumor (geralmente acima de 5 cm) e a taxa de divisão celular (índice mitótico) para classificar o risco de comportamento agressivo. Tumores pequenos, com menos de 2 cm, costumam ser indolentes – muitas vezes descobertos em autópsias ou cirurgias de outros problemas. Já tumores grandes, com mais de 10 cm, têm maior chance de se espalhar para o fígado ou o peritônio (a membrana que reveste o abdômen).

Em consultório, vejo pacientes que passam anos com um nódulo gástrico estável, sem nenhum sintoma, e que não exigem tratamento imediato – apenas acompanhamento com exames de imagem. Outros chegam com dor abdominal forte, vômitos ou obstrução intestinal, necessitando de cirurgia de urgência. O tratamento principal é a retirada completa do tumor por cirurgia. Se houver risco de recidiva ou doença avançada, utilizamos medicamentos como imatinibe (Glivec), que age bloqueando a proteína KIT mutante. Esse remédio é fornecido pelo SUS através do Programa de Medicamentos de Alto Custo, desde que haja laudo de oncologista e autorização da farmácia de alto custo do estado.

Tipos e Classificações

Embora o GIST seja classificado principalmente pelo local de origem, a classificação mais usada no Brasil, seguindo as diretrizes do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), é a de risco de agressividade, baseada no tamanho e na contagem de mitoses (células em divisão). Existem quatro categorias principais:

  • Risco muito baixo: tumor menor que 2 cm e contagem mitótica baixa (até 5 mitoses por 50 campos de alta potência). O comportamento é quase sempre benigno, e muitos médicos optam apenas por acompanhamento.
  • Risco baixo: tumor entre 2 e 5 cm, com baixa contagem mitótica. A cirurgia curativa é o suficiente, e a chance de recorrer é pequena.
  • Risco intermediário: tumor entre 5 e 10 cm ou contagem mitótica moderada. A cirurgia é indicada, e pode-se considerar o uso de imatinibe após a operação para reduzir o risco de recidiva.
  • Risco alto: tumor maior que 10 cm ou contagem mitótica alta (acima de 5 mitoses). A chance de metástase é significativa, e o tratamento combinado (cirurgia + imatinibe por 3 anos) é padrão.

Além disso, o GIST pode ser classificado quanto à mutação genética: a maioria (cerca de 85%) apresenta mutação no gene KIT, e cerca de 5% no PDGFRA. O restante é chamado de “tipo wild-type” (sem mutação conhecida). Essa classificação tem importância prática porque tumores com mutação no KIT respondem melhor ao imatinibe, enquanto alguns tipos de PDGFRA (como a mutação D842V) são resistentes a esse remédio. No Brasil, a análise molecular nem sempre está disponível no SUS para todos os pacientes, sendo mais comum em centros de referência.

Quando procurar um médico

A maioria dos pacientes com Câncer de células estromais gastrointestinais não apresenta sintomas nos estágios iniciais. Porém, quando o tumor cresce ou sangra, os sinais de alerta incluem:

  • Sangramento gastrointestinal: fezes escuras (melena) ou vermelhas, vômito com sangue – especialmente em pessoas sem histórico de úlcera
  • Dor abdominal persistente ou sensação de “bola” na barriga
  • Anemia crônica inexplicada (cansaço, palidez, falta de ar) que não melhora com suplementação de ferro
  • Náuseas, vômitos ou dificuldade para engolir (se o tumor estiver no esôfago ou estômago alto)
  • Perda de peso sem motivo aparente
  • Sensação de empachamento após comer pequenas quantidades

Na minha prática, oriento que qualquer pessoa com anemia refratária ao tratamento ou sangramento digestivo de origem desconhecida deve fazer uma endoscopia digestiva alta e/ou colonoscopia, além de exames de imagem. Se houver suspeita de GIST, o encaminhamento para um gastroenterologista ou oncologista é essencial. No SUS, o fluxo começa pela Unidade Básica de Saúde, que solicita os exames iniciais e, se necessário, encaminha para um serviço de endoscopia e depois para o ambulatório de oncologia do hospital de referência. Não ignore sintomas persistentes – o diagnóstico precoce pode evitar cirurgias radicais e aumentar as chances de cura.

Termos Relacionados

  • Células intersticiais de Cajal: são as células que coordenam a contração muscular do trato gastrointestinal. O GIST se origina delas.
  • Imatinibe (Glivec): medicamento oral que inibe a proteína KIT, usado no tratamento do GIST avançado ou de alto risco. Fornecido pelo SUS.
  • CD117 (KIT): marcador molecular detectado na biópsia. Sua presença confirma o diagnóstico de GIST.
  • Índice mitótico: medida da velocidade de divisão celular, usada para classificar o risco do tumor.
  • Metástase: quando o tumor se espalha para outros órgãos, como fígado ou peritônio.
  • Cirurgia oncologia: retirada completa do tumor com margens de segurança. É a principal forma de cura quando possível.
  • Ressonância magnética abdominal: exame de imagem que ajuda a avaliar o tamanho e a localização do tumor.
  • Neoplasia estromal: outro nome para GIST, usado em laudos médicos.

Perguntas Frequentes sobre O que é Câncer de células estromais gastrointestinais

1. GIST é hereditário? Existe risco para a família?

A grande maioria dos casos de GIST é esporádica, ou seja, não é herdada e não há necessidade de rastreio em familiares. Porém, existem síndromes genéticas raras que aumentam o risco, como a síndrome de Carney-Stratakis e a neurofibromatose tipo 1. Se você tem histórico familiar de GIST ou tumores raros no intestino, converse com seu médico sobre aconselhamento genético. No contexto do SUS, esse acompanhamento é feito em centros de genética médica.

2. O SUS cobre o tratamento para GIST?

Sim. O Sistema Único de Saúde oferece diagnóstico (exames de imagem, endoscopia, biópsia e imuno-histoquímica) e tratamento, incluindo cirurgia e medicamentos como imatinibe e sunitinibe. O acesso ao imatinibe é regulado pela Política Nacional de Assistência Oncológica e exige laudo de um oncologista credenciado. O medicamento é dispensado nas farmácias de alto custo estaduais. Para mais informações, consulte o site do Ministério da Saúde.

3. Quanto tempo vive uma pessoa com GIST?

A sobrevida depende do risco do tumor. GIST de risco muito baixo, tratado com cirurgia curativa, tem praticamente a mesma expectativa de vida da população geral. Já tumores de alto risco ou metastáticos podem ter uma sobrevida média de 5 a 7 anos com tratamento adequado (cirurgia + imatinibe). Muitos pacientes vivem mais de 10 anos com a doença controlada. Por isso, o acompanhamento regular com oncologista é fundamental. Dados brasileiros mostram que a adesão ao tratamento melhora os resultados.

4. GIST pode virar outro tipo de câncer?

Não. O GIST é um tumor com origem e comportamento próprios. Ele não se transforma em adenocarcinoma, que é o câncer de estômago ou intestino mais comum. Contudo, um paciente pode ter simultaneamente um GIST e outro tumor, mas são entidades separadas. O tratamento e o prognóstico são específicos para cada um.

5. É verdade que o GIST pode ser benigno?

Sim. Muitos GISTs pequenos, especialmente os com menos de 2 cm e baixa atividade mitótica, são considerados benignos ou de potencial maligno mínimo. Eles podem permanecer estáveis por anos sem causar problemas. Em alguns casos, o médico opta por apenas monitorar com exames periódicos. Não se assuste com o termo “câncer” no nome; o comportamento biológico é o que determina o risco.

6. Depois da cirurgia, preciso tomar remédio para sempre?

Depende. Se o tumor foi totalmente retirado e era de baixo risco, nenhum remédio adicional é necessário, apenas acompanhamento. Para tumores de alto risco, recomenda-se imatinibe por 3 anos após a cirurgia para reduzir a chance


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