sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Câncer de células gigantes multinucleadas

O que é Câncer de células gigantes multinucleadas?

Quando um paciente chega ao meu consultório com uma dor óssea persistente, especialmente no joelho, punho ou ombro, e o exame de imagem mostra uma lesão na ponta do osso (epífise), uma das hipóteses que levanto é o câncer de células gigantes multinucleadas. Na prática clínica brasileira, esse nome assusta, mas é importante entender que ele se refere a um grupo de tumores que têm em comum a presença de muitas células grandes com vários núcleos – as chamadas células gigantes multinucleadas. O tipo mais comum é o tumor de células gigantes ósseo, que, apesar do nome assustador, é benigno na grande maioria dos casos, mas pode ser localmente agressivo.

No dia a dia do SUS e das clínicas populares, vejo muitos pacientes jovens – entre 20 e 40 anos – que chegam com queixa de dor localizada, inchaço e, às vezes, fratura depois de um movimento banal. O osso vai perdendo resistência e pode quebrar sem um trauma importante (chamamos de fratura patológica). No Brasil, o tumor de células gigantes ósseo representa cerca de 5% de todos os tumores ósseos primários, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Felizmente, a maioria não é maligna, mas precisa de tratamento cirúrgico e acompanhamento por muitos anos.

O termo “câncer” é usado porque, em uma minoria dos casos, essas células podem se transformar em um sarcoma – um câncer ósseo verdadeiro. Por isso, é essencial que o diagnóstico e o tratamento sejam feitos por uma equipe especializada em oncologia ortopédica. No Brasil, o SUS oferece atendimento em centros de referência, mas as filas podem ser longas, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Por isso, sempre oriento meus pacientes a não demorarem a procurar ajuda quando sentirem uma dor óssea que não passa.

Como funciona / Características

Esses tumores nascem dentro do osso, geralmente na região próxima à articulação (epífise). Eles crescem devagar, mas vão destruindo o osso saudável por dentro. A célula gigante multinucleada é como se fosse um “monstro” que aparece quando o sistema imune tenta reagir – na verdade, são células inflamatórias que se fundem e viram aquelas estruturas enormes. No microscópio, o patologista vê uma mistura dessas células com outras células do estroma (o tecido de sustentação).

O paciente sente dor que piora com o movimento e melhora com repouso. Pode notar um inchaço duro na região, e a pele sobre o osso fica quente. Se não for tratado, o tumor pode romper a camada externa do osso (cortical) e invadir os músculos e articulações vizinhas. No consultório, muitas vezes o paciente me conta que pensou ser uma “torção” ou “artrose”, mas a dor não passou com anti-inflamatórios comuns. O raio-X já mostra uma lesão característica: no osso, aparece uma área escura (lítica) que “comeu” o osso, bem no local onde o tumor está.

O diagnóstico é confirmado por biópsia – um procedimento em que retiramos um pedaço do tumor para análise. Esse passo é obrigatório e deve ser feito em serviço especializado para evitar contaminação. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) recomenda que a biópsia seja guiada por imagem e realizada pelo mesmo cirurgião que fará o tratamento definitivo. Infelizmente, vi casos em que a biópsia foi feita de forma inadequada e complicou o tratamento depois.

Tipos e Classificações

O câncer de células gigantes multinucleadas não é uma doença única, mas um grupo. As principais classificações usadas no Brasil são:

  • Tumor de células gigantes ósseo (TCG): o mais comum, benigno, mas localmente agressivo. Pode ser classificado em graus I, II e III segundo Campanacci, que avalia a destruição óssea vista no raio-X. Grau I é menos agressivo; grau III invade partes moles.
  • Tumor de células gigantes de bainha tendinosa: aparece nas mãos e pés, geralmente em tendões. Não é câncer, mas pode crescer e incomodar.
  • Carcinoma de células gigantes: um tipo raro de câncer que pode ocorrer em órgãos como pulmão, tireoide e pâncreas. Nesse caso, as células gigantes são uma transformação maligna de células epiteliais.
  • Sarcoma de células gigantes: a variante maligna do TCG ósseo, que já é um câncer de verdade. Exige quimioterapia e cirurgia radical.

No SUS, a classificação de Campanacci é a mais usada para decidir o tratamento. Para tumores grau I e II, fazemos uma cirurgia chamada curetagem – raspamos o tumor de dentro do osso e preenchemos o vazio com enxerto ósseo ou cimento. Para grau III ou tumores recidivados, pode ser necessário ressecar todo o segmento do osso e colocar uma prótese. Recentemente, a ANVISA aprovou o uso do denosumabe, um anticorpo monoclonal que ajuda a reduzir o tamanho do tumor e controlar a dor, principalmente nos casos inoperáveis. É um avanço importante, mas o acesso no SUS ainda é limitado a alguns centros de alta complexidade.

Quando procurar um médico

Você deve procurar um clínico geral ou ortopedista na Unidade Básica de Saúde (UBS) se apresentar algum destes sinais:

  • Dor óssea que não melhora com analgésicos comuns e dura mais de 2 semanas.
  • Inchaço ou nódulo duro próximo a uma articulação (joelho, punho, ombro, quadril).
  • Fraturar um osso sem ter caído ou batido forte (fratura patológica).
  • Limitação de movimento em uma articulação sem explicação.
  • Dor que piora à noite ou acorda você durante o sono.

Não ignore esses sintomas achando que é “só uma pancada”. Quanto mais cedo o diagnóstico, maior a chance de um tratamento conservador (que preserva o osso e a função do membro). No SUS, o caminho é: UBS → ortopedia geral → encaminhamento para serviço de oncologia ortopédica. Em clínicas populares, muitas vezes faço o primeiro atendimento, peço o raio-X e já oriento o paciente a buscar um centro de referência. Não se automedique com anti-inflamatórios por semanas – eles podem esconder a dor e atrasar o diagnóstico.

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