O que é Câncer de células neuroendócrinas?
O câncer de células neuroendócrinas é um tipo de tumor que se origina nas células do sistema neuroendócrino – células especiais que atuam como uma ponte entre o sistema nervoso e o sistema hormonal. Essas células estão espalhadas por diversos órgãos, como os pulmões, o trato gastrointestinal, o pâncreas e a tireoide, e têm a capacidade de produzir e liberar hormônios ou substâncias semelhantes. Quando essas células se multiplicam de forma desordenada e formam uma massa maligna, chamamos de câncer neuroendócrino.
Na prática da clínica popular brasileira, esse diagnóstico chega com frequência menor do que os cânceres mais comuns, como o de mama ou próstata, mas ele não é tão raro quanto se imagina. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) mostram que, embora represente menos de 1% de todos os tumores, sua incidência tem aumentado nos últimos anos – em parte por causa da melhora dos métodos de diagnóstico, como a tomografia e a ressonância magnética. Muitos pacientes chegam ao consultório com sintomas vagos (dores abdominais, diarreia, rubor facial) que, por vezes, são confundidos com síndrome do intestino irritável ou alergias. Por isso, é fundamental que o clínico geral fique atento aos sinais sugestivos e saiba encaminhar para investigação especializada.
No Sistema Único de Saúde (SUS), o acesso ao diagnóstico e ao tratamento desse tipo de câncer varia conforme a região. As principais referências são os hospitais universitários e os centros de oncologia habilitados. A ANVISA regula os radiofármacos usados em exames específicos, como a cintilografia com octreotida, e o Conselho Federal de Medicina (CFM) orienta os médicos sobre a abordagem multidisciplinar. Para o paciente leigo, é importante saber que, apesar da palavra “câncer”, muitos tumores neuroendócrinos têm crescimento lento e podem ser tratados com sucesso, especialmente quando detectados precocemente.
Como funciona / Características
As células neuroendócrinas normais produzem hormônios que controlam funções como a digestão, a respiração e o metabolismo. No câncer, essas células passam a se multiplicar sem controle e podem secretar hormônios em excesso, gerando sintomas específicos. Por exemplo, um tumor neuroendócrino no intestino delgado pode liberar serotonina, causando rubor facial, diarreia aquosa e chiado no peito – quadro conhecido como síndrome carcinoide.
Na rotina de um clínico geral do SUS, o paciente pode relatar episódios repetidos de diarreia, ondas de calor no rosto, pressão alta descontrolada ou até crises de asma que não melhoram com o tratamento convencional. Muitas vezes, o médico solicita exames de sangue para medir substâncias como cromogranina A (um marcador tumoral) e ácido 5-hidroxi-indolacético (5-HIAA) na urina. Se houver suspeita, o próximo passo é a realização de exames de imagem e, em alguns casos, uma biópsia.
Uma característica importante é que esses tumores podem ser funcionais (quando produzem hormônios e causam sintomas) ou não funcionais (quando não produzem hormônios detectáveis, sendo descobertos por acaso em exames de rotina). Isso explica por que alguns pacientes demoram tanto para receber o diagnóstico: os tumores não funcionais crescem lentamente e só causam sintomas quando comprimem órgãos vizinhos ou metástases.
Tipos e Classificações
No Brasil, a classificação mais usada é a da Organização Mundial da Saúde (OMS), que divide os tumores neuroendócrinos pelo grau de diferenciação e pelo índice de proliferação celular (medido pela proteína Ki-67). Essencialmente, temos três grandes grupos:
- Tumores neuroendócrinos bem diferenciados (NET – Neuroendocrine Tumor): baixo grau (G1) com Ki-67 menor que 2% ou intermediário (G2) com Ki-67 entre 3% e 20%. Crescem devagar e têm melhor prognóstico.
- Carcinomas neuroendócrinos pouco diferenciados (NEC – Neuroendocrine Carcinoma): alto grau (G3) com Ki-67 acima de 20%. São agressivos, crescem rápido e exigem tratamento com quimioterapia intensiva.
- Formas mistas: tumores que combinam componentes neuroendócrinos e não neuroendócrinos (ex: carcinoma adenoescamoso misto).
Além disso, eles são classificados pela localização primária: pulmão, pâncreas, trato gastrointestinal (estômago, intestino delgado, apêndice, reto), tireoide (carcinoma medular da tireoide) e outros locais raros. No SUS, o estadiamento segue o sistema TNM (tumor, linfonodo, metástase), que orienta a escolha do tratamento – cirurgia, medicamentos com análogos da somatostatina, terapias-alvo ou quimioterapia.
Quando procurar um médico
Você deve procurar um médico (clínico geral ou gastroenterologista, dependendo dos sintomas) se apresentar combinações dos seguintes sinais – especialmente se eles forem persistentes ou recorrentes:
- Rubor facial: ondas de calor no rosto e no pescoço, que podem vir acompanhadas de vermelhidão intensa, sensação de queimação e suor.
- Diarreia crônica: evacuações líquidas ou pastosas que não melhoram com dieta ou medicamentos comuns.
- Chiado no peito ou falta de ar sem causa alérgica clara.
- Dor abdominal persistente ou sensação de massa na barriga.
- Perda de peso inexplicada.
- Sintomas de síndrome de Cushing (rosto arredondado, estrias, pressão alta) ou hipertensão arterial de difícil controle.
Em clínicas populares, é comum o paciente chegar com queixas repetitivas e já ter passado por vários especialistas sem diagnóstico. Se você se encaixa nesse perfil, não hesite em pedir ao seu médico que solicite exames específicos para tumores neuroendócrinos. O diagnóstico precoce faz toda a diferença no tratamento e na qualidade de vida.
Termos Relacionados
- Síndrome carcinoide: conjunto de sintomas (rubor, diarreia, chiado) causado pela liberação de serotonina e outros mediadores por um tumor neuroendócrino do trato gastrointestinal ou brônquios.
- Cromogranina A (CgA): proteína liberada na corrente sanguínea por células neuroendócrinas. Serve como marcador tumoral para diagnóstico e acompanhamento.
- Análogos da somatostatina: medicamentos (octreotida, lanreotida) que imitam o hormônio somatostatina, usados para controlar sintomas de tumores funcionais e inibir o crescimento tumoral.
- Terapia com radionuclídeos (PRRT): tratamento que combina um análogo da somatostatina com um radioisótopo, levando radiação diretamente às células tumorais. Disponível em alguns centros do SUS.
- Metástase hepática: focos do tumor que se espalham para o fígado, muito comuns nos tumores neuroendócrinos do trato gastrointestinal. Podem causar dor, icterícia e piora dos sintomas.
- Carcinoma medular da tireoide: tipo de tumor neuroendócrino originado das células C da tireoide, associado à produção de calcitonina. Pode ser esporádico ou hereditário (síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2).
- Ki-67: proteína nuclear usada para medir a taxa de proliferação celular. Valores elevados indicam tumores mais agressivos.
- PET/CT com DOTATATE: exame de imagem que usa um radiofármaco que se liga a receptores de somatostatina nas células tumorais, permitindo localizar lesões primárias e metástases com alta precisão.
Perguntas Frequentes sobre O que é Câncer de células neuroendócrinas
O câncer de células neuroendócrinas é hereditário?
A maioria dos casos é esporádica, ou seja, ocorre ao acaso, sem relação com herança genética. Porém, algumas síndromes hereditárias aumentam o risco, como a neoplasia endócrina múltipla tipo 1 (MEN1), a doença de von Hippel-Lindau e a neurofibromatose tipo 1. Se você tem histórico familiar de tumores neuroendócrinos ou de síndromes associadas, converse com seu médico sobre aconselhamento genético.
Quais são os exames para diagnosticar esse câncer?
O diagnóstico começa com exames de sangue (cromogranina A, serotonina, calcitonina) e urina (ácido 5-HIAA). Depois, exames de imagem como tomografia computadorizada, ressonância magnética e a cintilografia com octreotida (ou PET/CT com DOTATATE) ajudam a localizar o tumor. A confirmação definitiva é feita por biópsia, analisando o tecido ao microscópio e medindo o Ki-67.
Esse câncer tem cura?
Sim, quando diagnosticado em estágio inicial e o tumor pode ser removido completamente por cirurgia, a cura é possível. Em casos avançados, o tratamento pode controlar o crescimento do tumor por muitos anos, melhorar os sintomas e prolongar a vida com qualidade. Muitos pacientes convivem com a doença de forma estável por décadas.
O SUS oferece tratamento para tumores neuroendócrinos?
Sim. O SUS disponibiliza cirurgia, quimioterapia, radioterapia, análogos da somatostatina (octreotida) e, em centros de referência, a terapia com radionuclídeos (PRRT). O acesso varia conforme a região, mas a Política Nacional de Oncologia garante o atendimento integral. Procure o serviço de oncologia do seu município ou a central de regulação para ser encaminhado a um hospital habilitado.
Qual é a sobrevida para esse tipo de câncer?
A sobrevida depende do grado do tumor, do estágio no diagnóstico e da resposta ao tratamento. Tumores de baixo grau (G1) podem ter sobrevida de 10 a 15 anos ou mais, mesmo com metástases. Tumores de alto grau (G3) são mais agressivos, com sobrevida média de 1 a 2 anos, mas novas terapias estão melhorando esses números. Seu médico pode dar uma estimativa baseada no seu caso específico.
É verdade que esses tumores podem ser confundidos com outros problemas?
Sim, bastante. Por produzirem sintomas inespecíficos (diarreia, rubor, chiado), eles são frequentemente diagnosticados erroneamente como síndrome do intestino irritável, alergias, asma, menopausa, hipertensão ou até ansiedade. Muitos pacientes passam anos sem diagnóstico. Por isso, se seus sintomas persistem e você já tentou vários tratamentos sem sucesso


