O que é O que é Câncer de células tronco?
Câncer de células tronco é um termo que, no dia a dia do consultório, acaba gerando muita confusão. Muitos pacientes chegam à minha sala depois de lerem algo na internet e me perguntam: “Doutor, será que meu tumor é feito de células-tronco?” A resposta é mais sutil: o nome correto é células-tronco cancerosas (ou cancer stem cells, CSCs). Não se trata de um tipo específico de câncer, mas sim de uma teoria científica que ajuda a explicar por que alguns tumores são tão difíceis de curar.
Na prática da clínica popular e do SUS, o que vejo é que o termo “câncer de células-tronco” aparece associado a esperanças de tratamentos milagrosos ou a medos infundados. Por exemplo, já atendi uma senhora que achava que seu câncer de mama tinha virado “câncer de célula-tronco” porque a quimioterapia não estava funcionando. Expliquei a ela que as células-tronco cancerosas são uma subpopulação dentro do tumor — como “sementes” que podem se esconder e resistir aos remédios, mas que não formam um diagnóstico separado. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) não lista “câncer de células-tronco” como uma doença na sua classificação; o que existe são tumores que podem conter essas células mais resistentes.
Dados do INCA mostram que, no Brasil, são esperados cerca de 704 mil novos casos de câncer por ano entre 2023 e 2025. Destes, uma parcela significativa tem características de agressividade que podem estar relacionadas à presença de células-tronco cancerosas. É um campo de pesquisa ativo, com estudos sendo feitos em universidades brasileiras como a USP e a Unicamp. A ANVISA regulamenta pesquisas com células-tronco (CFM também emite diretrizes), mas até hoje não há nenhum tratamento aprovado no Brasil que ataque diretamente essas células — o manejo ainda é o convencional: cirurgia, quimioterapia, radioterapia e imunoterapia, de acordo com o tipo de tumor e o estadiamento.
Como funciona / Características
Imagine um tumor como uma plantação. A maioria das células cancerosas são como plantas adultas: crescem, se multiplicam e, com o tratamento certo, morrem. Mas dentro desse “canteiro” existem umas poucas células-tronco cancerosas que funcionam como sementes. Elas têm a capacidade de se renovar, de se dividir lentamente e de resistir aos medicamentos. Por isso, depois de uma quimioterapia que parece ter eliminado tudo, essas “sementes” podem brotar de novo e provocar uma recaída.
No meu consultório, já atendi pacientes com leucemia que voltaram a apresentar a doença meses após o tratamento. Para eles, explico que as células-tronco da leucemia são as responsáveis por essa volta. Nos tumores sólidos, como câncer de cólon, mama ou próstata, também há evidências da presença dessas células. Elas são identificadas por marcadores especiais (como CD44, CD133) em laboratórios de pesquisa — mas isso não é feito rotineiramente no SUS, porque ainda não muda a conduta clínica imediata.
Outra característica importante: essas células são mais resistentes à radioterapia e à quimioterapia porque ficam em zonas do tumor com baixo oxigênio (hipóxicas) e têm mecanismos de reparo de DNA mais eficientes. Por isso, a ciência está correndo atrás de terapias que as atinjam especificamente. No Brasil, o CFM orienta que qualquer tratamento experimental com células-tronco (incluindo as cancerosas) seja feito dentro de protocolos de pesquisa aprovados pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) e pela ANVISA. Nunca recomende tratamentos ditos “alternativos” que prometem eliminar as células-tronco do câncer — são, na maioria das vezes, charlatanismo.
Tipos e Classificações
Como falei, não existe uma classificação oficial de “tipo de câncer de células-tronco”. O que a literatura médica classifica são os marcadores de superfície das células-tronco cancerosas em diferentes tumores. Por exemplo:
- Leucemia mieloide aguda (LMA): as CSCs expressam CD34+ CD38-.
- Câncer de mama: CD44+ CD24-.
- Glioblastoma: CD133+.
- Câncer de cólon: CD44+ e EpCAM+.
Esses marcadores são usados em pesquisa para isolar as CSCs e estudá-las. Na prática clínica brasileira, não se pede exame para identificar células-tronco no tumor — o diagnóstico é histopatológico (biópsia) e molecular (quando necessário, pelo SUS ou convênio). A única classificação que interessa ao paciente é a do tumor original: adenocarcinoma, carcinoma espinocelular, leucemia, linfoma, etc. E a partir daí define-se o tratamento.
O Conselho Federal de Medicina (CFM), por meio da Resolução CFM nº 2.243/2023, regulamenta o uso de células-tronco em terapias experimentais, deixando claro que não há indicação para tratar câncer com células-tronco embrionárias ou mesenquimais — o que circula em clínicas particulares como “cura” do câncer é proibido e perigoso.
Quando procurar um médico
Você não precisa se preocupar especificamente com câncer de células tronco, pois isso não é algo que se diagnostique separadamente. Mas precisa ficar atento aos sinais gerais de câncer. No meu dia a dia, oriento os pacientes a procurarem a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima se perceberem:
- Nódulo ou caroço em qualquer parte do corpo (seio, pescoço, axila, virilha).
- Ferida que não cicatriza em duas semanas.
- Sangramento ou secreção anormal (pelo mamilo, ânus, urina).
- Tosse persistente, rouquidão ou dificuldade para engolir.
- Perda de peso sem dieta, febre ou suor noturno.
- Alteração no funcionamento do intestino (prisão de ventre ou diarreia alternados) ou da bexiga.
No SUS, o diagnóstico de câncer é feito por meio de exames de imagem e biópsia. A demora média entre a suspeita e o início do tratamento é um problema ainda, mas a Lei dos 60 Dias (Lei nº 12.732/2012) garante que o tratamento deve começar em até 60 dias após o diagnóstico. Se o médico suspeitar de um tumor mais agressivo, pode solicitar exames complementares com urgência.
Termos Relacionados
- Célula-tronco: Célula indiferenciada que pode se transformar em diferentes tipos celulares. No corpo, existem as embrionárias e as adultas (como as da medula óssea). Não são cancerosas.
- Célula-tronco cancerosa (CSC): Subtipo de célula dentro do tumor que tem capacidade de auto-renovação e de dar origem a outras células do tumor. É o “motor” da progressão e das metástases.
- Quimioterapia: Tratamento com medicamentos que matam células que se dividem rapidamente. As CSCs, por se dividirem lentamente, muitas vezes escapam.
- Metástase: Disseminação do câncer para outros órgãos. Acredita-se que as CSCs sejam as principais responsáveis por formar metástases.
- Oncologia: Especialidade médica que cuida do diagnóstico e tratamento do câncer.
- Tumor sólido: Massa de células cancerosas em órgãos como mama, pulmão, próstata, cólon. Diferente das leucemias, que são líquidas.
- Leucemia: Câncer do sangue e da medula óssea. Tem CSCs bem estudadas, especialmente na leucemia mieloide aguda.
- Medicina regenerativa: Área que usa células-tronco para reparar tecidos danificados. Não tem relação com o tratamento do câncer; o uso de células-tronco em pacientes oncológicos só é feito em transplante de medula (para repor a medula após quimioterapia).
Perguntas Frequentes sobre O que é Câncer de células tronco
1. Câncer de células-tronco tem cura?
Não existe um diagnóstico chamado “câncer de células-tronco”, então essa pergunta não se aplica diretamente. O que existe é o câncer comum (de mama, pulmão, etc.) que pode conter células-tronco cancerosas. A cura depende do tipo, estágio e resposta ao tratamento. As células-tronco cancerosas são um dos motivos pelos quais alguns tumores são mais resistentes, mas a ciência está desenvolvendo novas terapias para atacá-las. No momento, o tratamento convencional (cirurgia, quimio, radio) continua sendo a base. No SUS, o acesso a essas terapias é garantido, mas ainda não há um medicamento específico para CSCs aprovado.
2. Eu posso pegar câncer de células-tronco de outra pessoa?
Não. Câncer não é contagioso. As células-tronco cancerosas estão dentro do tumor do paciente e não são transmitidas por contato, saliva, sangue (exceto em raríssimos casos de transplante de órgãos de doador com câncer, mas isso é evitado por triagem rigorosa). Fique tranquilo: você não vai “pegar” um câncer de ninguém.
3. Como é feito o diagnóstico de células-tronco cancerosas?
Na rotina clínica, não é feito. O diagnóstico de câncer é feito por biópsia (retirada de um pedaço do tumor) e análise no microscópio. Para identificar se há células-tronco cancerosas, seriam necessários testes de imuno-histoquímica ou citometria de fluxo com marcadores específicos (CD44, CD133, etc.), que hoje são usados apenas em pesquisa. O SUS não inclui esses exames no protocolo padrão porque eles não mudam a conduta imediata. Se você tiver um tumor agressivo, seu médico oncologista vai tratá-lo com base no tipo e estadiamento, independentemente das CSCs.
4. O SUS oferece tratamento específico para células-tronco cancerosas?
Não. O SUS trata o câncer de acordo com protocolos do Ministério da Saúde baseados em evidências científicas. Atualmente, não há nenhum medicamento aprov


