quinta-feira, maio 28, 2026

O que é Câncer de córtex adrenal

O que é Câncer de córtex adrenal?

O câncer de córtex adrenal (também chamado de carcinoma adrenocortical) é um tumor raro e agressivo que se origina na parte externa das glândulas adrenais — as famosas “glândulas suprarrenais” que ficam em cima de cada rim. No Brasil, estima-se que ocorram cerca de 3 a 4 casos por milhão de habitantes por ano, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Embora pouco frequente, o diagnóstico ganha relevância no nosso país porque a incidência é maior que em outras regiões do mundo, especialmente em crianças e adultos jovens do Sul e Sudeste, devido a uma mutação genética específica (TP53 R337H) mais comum em brasileiros.

No dia a dia de uma clínica popular ou do SUS, esse tipo de câncer costuma aparecer de forma sorrateira. Muitos pacientes chegam com queixas que parecem “comuns”: pressão alta que não controla com remédio, ganho de peso inexplicável, estrias roxas no abdômen ou fraqueza muscular. Por ser uma doença de apresentação variada, o médico generalista precisa estar atento a sinais hormonais — o tumor pode produzir em excesso hormônios como cortisol, aldosterona ou andrógenos. A demora no diagnóstico é frequente, principalmente em unidades básicas de saúde, e muitas vezes o paciente só descobre o problema quando já há metástases (espalhamento para fígado, pulmão ou ossos).

O Ministério da Saúde inclui o carcinoma adrenocortical no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para tumores raros, e o tratamento é concentrado em centros de referência em oncologia. A cirurgia é a principal opção curativa, mas o acesso a exames como tomografia e dosagens hormonais ainda é um gargalo no SUS. Por isso, o conhecimento sobre essa doença é fundamental para o clínico que atua na ponta — identificar precocemente pode mudar o prognóstico.

Como funciona / Características

As glândulas adrenais têm duas partes: a medula (interna) e o córtex (externa). O câncer de córtex adrenal afeta justamente a camada que produz hormônios essenciais para a vida. O tumor pode ser funcionante (produz hormônios em excesso) ou não funcionante (silencioso, sem sintomas hormonais). Na prática clínica, cerca de 60% dos casos são funcionantes, e os sintomas dependem do hormônio liberado:

  • Excesso de cortisol: síndrome de Cushing — rosto arredondado (“cara de lua”), obesidade central, estrias violáceas, diabetes, osteoporose e fragilidade capilar.
  • Excesso de aldosterona: hipertensão arterial resistente, fraqueza muscular, cãibras e nível baixo de potássio no sangue (hipocalemia).
  • Excesso de andrógenos: em mulheres, crescimento de pelos em locais atípicos (hirsutismo), voz engrossada, queda de cabelo e irregularidade menstrual; em crianças, puberdade precoce.

Em consultórios de clínicas populares, já atendi pacientes que passaram meses tratando “pressão alta” e “diabetes” sem sucesso, até que exames de imagem revelaram uma massa na adrenal. A Tomografia Computadorizada (TC) ou Ressonância Magnética (RM) de abdômen geralmente mostra o tumor. No SUS, a solicitação desses exames deve ser criteriosa, mas o clínico precisa lembrar que um incidentaloma adrenal (tumor descoberto de surpresa) tem potencial maligno — especialmente se tiver mais de 4 cm ou características suspeitas.

Tipos e Classificações

No Brasil, adotamos a classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e o sistema de estadiamento do American Joint Committee on Cancer (AJCC), adaptado pelo INCA. Os principais tipos são:

  • Carcinoma adrenocortical (CAC): tumor maligno do córtex. É o mais agressivo, com potencial de metástase. Pode ser funcionante (com sintomas hormonais) ou não funcionante.
  • Adenoma adrenal: tumor benigno do córtex. Muito mais comum (cerca de 5% da população tem um incidentaloma benigno). Não cresce além de 4 cm e não produz metástase.

Classificação histológica de Weiss: usada pelo patologista para avaliar o grau de malignidade — considera atipia celular, necrose, invasão vascular e mitoses. Quanto maior o escore, maior o risco.

Estadiamento (INCA):

  • Estágio I: tumor ≤ 5 cm, sem invasão local ou metástase.
  • Estágio II: tumor > 5 cm, ainda sem invasão.
  • Estágio III: invasão de gordura ao redor ou linfonodos regionais.
  • Estágio IV: metástase à distância (fígado, pulmão, ossos).

No SUS, a cirurgia é indicada para estágios I a III, e a quimioterapia com mitotano (medicação específica) é usada como adjuvante ou paliativa. Infelizmente, a maioria dos casos chega em estágio avançado, o que reforça a importância da suspeita clínica precoce.

Quando procurar um médico

Você deve procurar um clínico geral ou endocrinologista se apresentar um ou mais dos seguintes sinais, principalmente se eles surgirem de forma rápida (semanas a meses):

  • Ganho de peso inexplicável, especialmente na barriga, com braços e pernas finos.
  • Estrias roxas ou avermelhadas no abdômen, coxas ou seios.
  • Pressão alta de difícil controle, mesmo com vários remédios.
  • Fraqueza muscular, cãibras frequentes ou cansaço extremo.
  • Pelos crescendo em excesso no rosto, peito ou costas (em mulheres).
  • Irregularidade menstrual ou queda de cabelo.
  • Dor abdominal persistente, sensação de massa na barriga.
  • Em crianças: desenvolvimento precoce de pelos, acne, crescimento acelerado ou aparecimento de características sexuais antes do esperado.

Na rede pública, o primeiro passo é ir à Unidade Básica de Saúde (UBS). O médico pode solicitar exames de sangue (cortisol, ACTH, DHEA-S, androstenediona, testosterona, potássio) e uma ultrassonografia de abdômen. Se houver suspeita, você será encaminhado a um endocrinologista e, depois, a um centro de referência em oncologia. Não ignore esses sintomas — o diagnóstico precoce pode salvar vidas.

Termos Relacionados

  • Glândula adrenal (suprarrenal): órgão em formato de meia-lua, localizado acima de cada rim. Produz hormônios que regulam estresse, pressão e metabolismo.
  • Córtex adrenal: camada externa da glândula, responsável por produzir cortisol, aldosterona e andrógenos.
  • Síndrome de Cushing: conjunto de sintomas causados pelo excesso de cortisol (tumor, uso de corticoides ou hiperplasia adrenal).
  • Hiperaldosteronismo: produção excessiva de aldosterona, levando a pressão alta e baixo potássio. Pode ser por tumor benigno ou câncer.
  • Incidentaloma adrenal: tumor descoberto por acaso em exames de imagem (TC, RM). A maioria é benigna, mas requer investigação para descartar malignidade.
  • Feocromocitoma: tumor raro da medula adrenal, que libera adrenalina e noradrenalina, causando crises de pressão alta, palpitação e suor. É diferente do câncer de córtex.
  • Mitotano: medicamento oral usado no tratamento do carcinoma adrenocortical. Age inibindo a produção hormonal e destruindo células tumorais.
  • TP53 R337H: mutação genética hereditária mais comum no Brasil, associada a tumores adrenocorticais em crianças e jovens. Teste genético é disponível pelo SUS em alguns estados.

Perguntas Frequentes sobre Câncer de córtex adrenal

1. Câncer de córtex adrenal tem cura?

Sim, quando diagnosticado precocemente, a cirurgia para remover o tumor pode ser curativa. Infelizmente, muitos casos são descobertos em estágios avançados, quando há metástases. Nessa situação, o tratamento é paliativo (quimioterapia, radioterapia e controle dos sintomas). Mas mesmo em estágios tardios, o tratamento pode prolongar a vida com qualidade.

2. Qual é a sobrevida para esse tipo de câncer?

A sobrevida depende muito do estágio. Para tumores confinados à glândula (estágio I e II), a taxa de cura após cirurgia é de 50% a 70% em 5 anos. Já em estágio IV (metástases), a sobrevida média é de 6 a 12 meses. No Brasil, o acesso ao tratamento oncológico pelo SUS tem melhorado, mas o diagnóstico tardio ainda é o principal desafio.

3. Esse câncer é hereditário?

Em parte. A maioria dos casos (cerca de 90%) é esporádica, sem causa genética clara. Mas existe uma forma hereditária associada à mutação TP53 R337H, muito comum em crianças brasileiras do Sul e Sudeste. Por isso, se houver histórico familiar de tumores adrenais ou sarcomas, o aconselhamento genético pode ser indicado pelo SUS.

4. Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico começa com exames de sangue para medir hormônios (cortisol, ACTH, DHEA-S, androstenediona, testosterona, aldosterona, renina). Depois, uma tomografia ou ressonância de abdômen mostra o tamanho e as características do tumor. Em casos duvidosos, a biópsia guiada pode ser feita, mas com cuidado porque o tumor é frágil e pode sangrar. No SUS, o diagnóstico é confirmado pelo patologista.

5. Existe prevenção?

Não há uma forma específica de prevenir esse câncer, já que a maioria dos casos não


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