O que é O que é Câncer de endométrio?
O câncer de endométrio é um tumor maligno que se origina no endométrio, a camada interna do útero que descama todo mês na menstruação. Na prática diária de uma clínica popular do SUS, esse diagnóstico surge com frequência em mulheres que já entraram na menopausa e procuram atendimento por um sangramento vaginal que não esperavam – muitas vezes confundido com uma menstruação que voltou. Diferente do câncer de colo de útero, que é prevenido pelo preventivo (Papanicolau), o câncer de endométrio não tem um rastreio populacional de rotina no Brasil. O diagnóstico depende de a paciente perceber o sinal e buscar ajuda.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), estima-se cerca de 6.540 novos casos por ano no triênio 2023-2025, sendo o oitavo tipo de câncer mais comum entre mulheres brasileiras e o mais frequente entre os que afetam o corpo do útero. A incidência é maior nas regiões Sul e Sudeste, com pico entre 60 e 65 anos. No contexto do SUS, a investigação começa na Atenção Básica: o médico solicita uma ultrassonografia transvaginal e, se houver espessamento suspeito, encaminha para biópsia endometrial. A rapidez desse fluxo é crucial, pois a maioria dos casos é diagnosticada em estágio inicial, com chance de cura superior a 90%.
Na minha experiência, o maior desafio nas clínicas populares é a demora na procura por medo ou falta de informação. Muitas pacientes acham que sangramento após a menopausa é normal ou que pode ser hemorroida. Por isso, reforçamos na consulta que qualquer sangramento vaginal após um ano sem menstruar deve ser investigado, mesmo que seja só um borrão. O SUS garante acesso a todo o diagnóstico e tratamento, incluindo cirurgia e radioterapia, conforme o estadiamento.
Como funciona / Características
O endométrio é um tecido muito sensível aos hormônios femininos. O câncer de endométrio geralmente surge quando há um desequilíbrio: exposição prolongada ao estrogênio sem a contrapartida da progesterona. Isso faz o endométrio crescer demais (hiperplasia) e, com o tempo, pode virar um tumor maligno. No dia a dia da clínica, vejo isso com frequência em mulheres com obesidade (o tecido gorduroso produz estrogênio), diabetes, hipertensão, que nunca engravidaram (nuliparidade) ou que tiveram menopausa tardia (após 55 anos). O uso de tamoxifeno para câncer de mama também aumenta o risco, assim como a síndrome dos ovários policísticos (SOP).
O principal sintoma é o sangramento vaginal anormal. Em mulheres na pré-menopausa, isso pode aparecer como ciclos muito longos, sangramento entre as menstruações ou fluxo intenso. Em mulheres na pós-menopausa, qualquer sangramento – mesmo cor-de-rosa ou marrom – é um sinal de alerta. Dor pélvica, secreção fétida e perda de peso são sinais mais tardios. Na clínica popular, muitas pacientes chegam depois de meses de sangramento, por desinformação ou dificuldade de acesso. Por isso, o acolhimento é essencial: explicar que isso não é culpa da paciente, que é um tumor de crescimento lento na maioria dos casos e que o tratamento precoce é curativo.
O diagnóstico segue um protocolo simples no SUS: quando há suspeita, o médico pede a ultrassonografia transvaginal. Se a espessura endometrial for maior que 5 mm (em mulheres sem uso de terapia hormonal), parte-se para a biópsia endometrial, feita no ambulatório com uma cânula fina. O material é analisado pelo patologista. Se confirmado câncer, o estadiamento (tomografia, ressonância) define se a doença está restrita ao útero ou se espalhou. O tratamento padrão é a histerectomia total com anexectomia bilateral (retirada do útero, colo, trompas e ovários). Em casos avançados, pode ser necessária radioterapia ou quimioterapia. A boa notícia: mais de 70% dos casos são diagnosticados em estágio I, com chances de cura que chegam a 95%.
Tipos e Classificações
Na prática, classificamos o câncer de endométrio em dois grandes grupos, que orientam o tratamento e o prognóstico:
- Tipo I (endometrióide): corresponde a 80-85% dos casos. Está associado ao excesso de estrogênio, é bem diferenciado, cresce lentamente e responde bem à cirurgia. É o tipo mais visto em clínicas populares, pois cursa com sangramento precoce. Prognóstico excelente na maioria dos casos.
- Tipo II (seroso, células claras, carcinossarcoma): menos comum, não relacionado ao estrogênio, mais agressivo e com maior risco de metástase. Acontece em mulheres mais velhas e magras. Exige tratamento mais agressivo, incluindo quimioterapia. O diagnóstico costuma ser em estágio mais avançado.
No Brasil, o estadiamento usado é o FIGO (Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia), que vai do estágio I (restrito ao útero) ao IV (metástases à distância). A página do Ministério da Saúde orienta que o tratamento no SUS segue os protocolos de diretrizes diagnósticas e terapêuticas, com cirurgia padrão-ouro para estágios iniciais. A classificação histológica (grau 1, 2 e 3) também é importante, pois tumores de alto grau têm maior risco de recidiva. Na prática, sempre peço a revisão da lâmina por um patologista de referência, especialmente nos casos de diagnóstico duvidoso.
Quando procurar um médico
Você deve procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um clínico geral em uma clínica popular assim que notar qualquer sangramento vaginal anormal. Preste atenção aos seguintes sinais:
- Sangramento vaginal após a menopausa – mesmo que seja um pequeno borrão ou secreção rosada.
- Menstruação que fica muito mais longa, mais intensa ou com intervalos irregulares em mulheres que ainda menstruam, especialmente acima dos 40 anos.
- Secreção vaginal sanguinolenta ou com mau cheiro sem relação com a menstruação.
- Dor pélvica persistente ou sensação de peso na barriga baixa.
- Perda de peso inexplicada ou cansaço extremo (sinais tardios).
Na consulta, não tenha vergonha de relatar todos os detalhes. O médico pode pedir um ultrassom transvaginal e, se indicado, a biópsia. No SUS, esses exames são gratuitos e garantidos por lei. Mulheres com fatores de risco (obesidade, diabetes, SOP, história familiar de câncer de endométrio ou síndrome de Lynch) devem ter atenção redobrada. Lembre-se: o câncer de endométrio no início tem alta chance de cura, e o tratamento cirúrgico pode ser feito sem mutilação, preservando a qualidade de vida. Não espere o sangramento piorar – quanto mais cedo, mais simples é a solução.
Termos Relacionados
- Endométrio: camada interna do útero que se renova a cada ciclo menstrual. É onde o óvulo fertilizado se implanta.
- Hiperplasia endometrial: crescimento exagerado do endométrio, muitas vezes precursor do câncer. Pode ser simples, complexa ou atípica. A forma atípica aumenta o risco de
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