O que é Câncer de fígado?
O câncer de fígado é uma doença caracterizada pelo crescimento descontrolado de células malignas no órgão. Na minha prática diária como clínico geral no SUS e em clínicas populares de Fortaleza, vejo muitos pacientes que chegam com queixas vagas como cansaço, perda de peso sem motivo e dor na barriga do lado direito. Muitos só descobrem o problema quando já está em estágio mais avançado, porque o fígado tem uma capacidade enorme de “trabalhar” mesmo com lesões, e os sintomas aparecem tarde.
No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima cerca de 12 mil novos casos por ano, sendo mais comum em homens acima dos 50 anos. Fatores como hepatite B e C crônica, consumo excessivo de bebida alcoólica e esteatose hepática (gordura no fígado) são os principais vilões. Na ponta da clínica popular, a hepatite C diagnosticada tarde e o abuso de álcool ainda são a realidade de muitos pacientes que não tiveram acesso a exames preventivos. O SUS oferece testagem gratuita para hepatites e vacinas (hepatite B), mas a adesão ainda é baixa em algumas regiões.
Vale ressaltar que o câncer de fígado primário (que começa no próprio fígado) é diferente das metástases hepáticas (quando o câncer vem de outro órgão, como intestino ou mama). Na clínica, muitas vezes o paciente descobre o tumor durante um ultrassom de rotina ou ao investigar uma cirrose. Por isso, a prevenção com exames periódicos é fundamental, principalmente para quem tem fatores de risco.
Como funciona / Características
O fígado é o “laboratório” do corpo: processa nutrientes, filtra toxinas e produz bile. Quando as células hepáticas sofrem mutações, elas começam a se multiplicar sem controle, formando nódulos malignos. Esses nódulos vão crescendo e comprimindo ou invadindo os vasos sanguíneos e as vias biliares, o que explica sintomas como icterícia (olhos e pele amarelados), ascite (barriga inchada por líquido) e prurido (coceira intensa).
No dia a dia da clínica popular, atendo pacientes com fatores de risco que não fazem acompanhamento. Por exemplo: um senhor de 60 anos, ex-bebedor, com hepatite C diagnosticada há 20 anos, que nunca fez um ultrassom. Ele chega com barriga grande e emagrecimento extremo. Ao palpar o abdome, sinto um fígado duro e nodular. Infelizmente, casos assim são comuns, e o prognóstico costuma ser reservado. O câncer de fígado é agressivo e tem alta mortalidade, mas se descoberto cedo, há opções de tratamento curativo.
O rastreamento no SUS é feito com ultrassom abdominal a cada 6 meses em pacientes com cirrose ou hepatite crônica, além da dosagem de alfa-fetoproteína no sangue. Porém, a adesão a esse protocolo é um desafio — muitas unidades de saúde têm fila para exames, e pacientes abandonam o acompanhamento. Como médico, sempre reforço a importância de manter o cartão de vacinação em dia (hepatite B) e evitar o consumo excessivo de álcool.
Tipos e Classificações
O tipo mais comum no Brasil (e no mundo) é o carcinoma hepatocelular (CHC), que corresponde a cerca de 90% dos casos. Ele surge das células principais do fígado (hepatócitos). Outros tipos são:
- Colangiocarcinoma: origina-se nos ductos biliares intra-hepáticos.
- Angiossarcoma: tumor raro que afeta vasos sanguíneos do fígado.
- Hepatoblastoma: mais comum em crianças, de origem embrionária.
Além disso, os médicos classificam o câncer de fígado por estágios (do I ao IV), usando o sistema BCLC (Barcelona Clinic Liver Cancer), que leva em conta o tamanho do tumor, função hepática e estado geral do paciente. Essa classificação é usada nos serviços de referência do SUS para decidir o tratamento: ressecção cirúrgica, transplante, ablação por radiofrequência, quimioembolização ou terapia alvo.
Em 2023, a ANVISA aprovou novos medicamentos de terapia alvo (como o sorafenibe e o lenvatinibe) para casos avançados, e muitos são distribuídos pelo SUS após protocolo de acesso. Na prática, o maior desafio é conseguir o diagnóstico precoce para que o paciente possa ser candidato a um transplante, que é a maior chance de cura.
Quando procurar um médico
Você deve procurar um clínico geral ou um hepatologista se apresentar algum dos seguintes sinais de alerta:
- Icterícia: olhos e pele amarelados, com ou sem urina escura (cor de coca-cola).
- Dor abdominal persistente no lado direito, que pode irradiar para o ombro direito.
- Inchaço da barriga que aparece rápido (ascite).
- Perda de peso sem explicação e falta de apetite.
- Coceira na pele sem causa aparente (prurido).
- Cansaço extremo e sensação de fraqueza.
- Fezes claras (acólicas) e urina escura.
Se você tem fatores de risco como cirrose, hepatite B ou C crônica, consumo excessivo de álcool, obesidade ou diabetes, não espere os sintomas. Procure uma UBS (Unidade Básica de Saúde) para fazer o rastreamento. O SUS oferece gratuitamente: exames de sangue (alfa-fetoproteína, função hepática), ultrassom abdominal e, se necessário, tomografia ou ressonância. No meu consultório, sempre digo: “Prevenir ainda é o melhor remédio; não deixe o fígado doer para agir”.
Termos Relacionados
- Cirrose hepática: cicatrização avançada do fígado, principal fator de risco para CHC.
- Hepatite B e C: infecções virais que, se não tratadas, podem evoluir para cirrose e câncer.
- Vigilância de CHC: acompanhamento periódico com exames em pacientes de alto risco.
- Transplante de fígado: tratamento curativo para casos selecionados de tumor localizado.
- Quimioembolização: técnica que leva quimioterapia direto ao tumor pela artéria hepática.
- Abliação por radiofrequência: “queima” do tumor guiada por imagem, opção para tumores pequenos.
- Metástase hepática: câncer que se espalhou para o fígado a partir de outro órgão.
- Alfa-fetoproteína (AFP): exame de sangue que pode estar elevado no câncer de fígado.
Perguntas Frequentes sobre O que é Câncer de fígado
1. Câncer de fígado tem cura?
Sim, câncer de fígado tem chance de cura, especialmente se descoberto em estágio inicial e se o paciente tem boa função hepática. As opções curativas incluem cirurgia para remover o tumor (ressecção hepática) e transplante de fígado. No SUS, o transplante é oferecido em centros de referência, seguindo critérios rigorosos. Infelizmente, a maioria dos casos chega tarde ao diagnóstico, quando o tumor já se espalhou, e o tratamento passa a ser paliativo para controlar sintomas e prolongar a vida.
2. Quanto tempo uma pessoa pode viver com câncer de fígado?
Isso depende do estágio. Pacientes diagnosticados precocemente (BCLC 0 ou A) podem viver muitos anos após tratamento curativo. Nos estágios avançados (BCLC C ou D), a sobrevida média costuma ser de meses a 1-2 anos, mesmo com terapias modernas. Por isso, o diagnóstico precoce é tão importante. Na minha experiência, pacientes com cirrose estável que fazem vigilância regular têm muito mais chances de detectar o tumor pequeno e curável.
3. O que causa câncer de fígado?
As principais causas são doenças que levam à inflamação crônica do fígado: hepatite B e C, cirrose alcoólica, esteatose hepática não alcoólica (gordura no fígado), além de exposição a toxinas (aflatoxinas, comuns em alimentos mofados) e doenças metabólicas (obesidade, diabetes). O tabagismo também aumenta o risco. No Brasil, as hepatites virais ainda são a causa principal.
4. Existe exame de rotina para detectar câncer de fígado?
Sim, para pessoas com cirrose ou hepatite crônica, a recomendação é fazer ultrassom abdominal a cada 6 meses, junto com a dosagem de alfa-fetoproteína no sangue. Esse é o rastreamento padrão do SUS e de sociedades médicas. Para a população sem fatores de risco, não há exame de rotina específico; exames de imagem geralmente são feitos apenas se houver sintomas.
5. Câncer de fígado dói?
Nos estágios iniciais, geralmente não dói. Quando a dor aparece, é sinal de que o tumor está esticando a cápsula do fígado ou invadindo estruturas vizinhas. A dor é descrita como uma pressão contínua no lado direito do abdome, que pode piorar com a respiração ou ao deitar do lado esquerdo. Se você sentir essa dor junto com outros sintomas, procure um médico imediatamente.
6. Álcool causa câncer de fígado?
Sim, o consumo excessivo e prolongado de bebida alcoólica é um dos principais fatores de risco. O álcool lesa diretamente as células do fígado, levando à cirrose, e esta pode evoluir para câncer. Mas nem todo cirrótico desenvolve câncer — o risco aumenta com o tempo e com a presença de outros fatores (como obesidade e hepatite C). Reduzir ou parar o consumo de álcool é uma das medidas mais importantes para prevenir o câncer de fígado.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.
Fontes confiáveis:
INCA – Câncer de fígado |
Biblioteca Virtual em Saúde – Câncer de fígado: prevenção e controle


