O que é O que é Câncer de glândula salivar?
O câncer de glândula salivar é uma neoplasia maligna que se origina nos tecidos que produzem e transportam a saliva — as glândulas salivares principais (parótida, submandibular, sublingual) e as pequenas glândulas espalhadas pela boca, garganta e seios da face. Embora seja um tumor raro, corresponde a cerca de 2% a 5% dos cânceres de cabeça e pescoço no Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Na minha prática clínica de 15 anos no SUS e em clínicas populares, atendi diversos pacientes que chegam com um “caroço” na bochecha ou abaixo do queixo, muitas vezes indolor, e que cresce de forma lenta. Por ser uma região que o próprio paciente percebe ao se barbear, ao mastigar ou ao passar a mão no rosto, o diagnóstico ainda pode ser feito em estágios iniciais, o que é determinante para o sucesso do tratamento.
Na atenção primária, como clínico geral, sou muitas vezes o primeiro profissional a avaliar esses nódulos. É comum o paciente interpretar o inchaço como “íngua” (linfonodo), cisto ou até mesmo um problema dentário. Quando o nódulo persiste por mais de três semanas, apresenta consistência firme, está aderido aos planos profundos ou cresce progressivamente, a suspeita de câncer de glândula salivar deve ser levantada. O Sistema Único de Saúde (SUS) dispõe de uma rede de referência para diagnóstico e tratamento — ultrassonografia, biópsia por agulha fina, ressonância magnética e encaminhamento para cirurgia de cabeça e pescoço —, embora o acesso ainda enfrente filas e desafios regionais, especialmente no Norte e Nordeste.
É importante destacar que a maioria dos tumores de glândula salivar é benigna. Porém, a distinção entre o benigno e o maligno só pode ser feita com exame histopatológico. O câncer de glândula salivar exige abordagem multidisciplinar: cirurgião oncologista, patologista, radioterapeuta e, em alguns casos, oncologista clínico. O prognóstico depende do tipo histológico, do grau de diferenciação, do estágio e da possibilidade de ressecção completa. Nos casos diagnosticados precocemente, as chances de cura são altas.
Como funciona / Características
Para entender como o câncer de glândula salivar se desenvolve, é útil lembrar a função normal dessas glândulas: elas produzem saliva, que umedece a boca, ajuda na digestão e protege contra cáries. O câncer surge quando células glandulares sofrem mutações genéticas e passam a se multiplicar de forma desordenada, formando um tumor. Esse tumor pode invadir estruturas vizinhas (músculos, nervos, ossos) e, em estágios avançados, disseminar-se para linfonodos do pescoço ou órgãos distantes (pulmões, fígado).
Na rotina de uma clínica popular, um caso típico é o de uma senhora de 55 anos que nota um “caroço” na frente da orelha há cerca de 6 meses, que não dói, mas que incomoda esteticamente. Ao exame, a lesão é palpável, de aproximadamente 2 cm, fixa e elástica. Solicito uma ultrassonografia da região parotídea, que mostra uma imagem heterogênea e suspeita. O encaminhamento para a unidade de referência do SUS leva a uma punção aspirativa por agulha fina (PAAF), e o laudo histopatológico confirma um carcinoma mucoepidermoide de baixo grau. A cirurgia de parotidectomia superficial é realizada, e a paciente fica curada, sem necessidade de radioterapia. Esse desfecho favorável depende diretamente do diagnóstico precoce.
Outro cenário, infelizmente mais comum na atenção básica, é o do trabalhador rural que apresenta um nódulo na região submandibular que vinha ignorando há mais de um ano. Quando finalmente procura a UBS, o tumor já está grande, aderido ao osso mandibular, e ele relata dormência no lábio inferior (sinal de invasão do nervo alveolar). Nesse caso, a investigação mostra um carcinoma adenóide cístico de alto grau, com metástase linfonodal. O tratamento no SUS envolverá cirurgia extensa, radioterapia e, possivelmente, quimioterapia. A demora na procura por atendimento é um dos principais fatores que pioram o prognóstico nas clínicas populares.
Tipos e Classificações
O câncer de glândula salivar é classificado de acordo com o tipo de célula que origina o tumor. A classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é a mais usada no Brasil, adotada pelos patologistas dos serviços de referência do SUS. Os principais tipos incluem:
- Carcinoma mucoepidermoide — o mais frequente (cerca de 30% a 40% dos casos). Pode ser de baixo, intermediário ou alto grau. O de baixo grau tem excelente prognóstico.
- Carcinoma adenóide cístico — conhecido por seu crescimento lento e tendência a invadir nervos e recidivar localmente, mesmo após cirurgia.
- Adenocarcinoma de glândula salivar — grupo heterogêneo, com comportamento variável.
- Carcinoma de células acinares — geralmente de baixo grau, bom prognóstico.
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