O que é O que é Câncer de laringe?
O câncer de laringe é um tumor maligno que se desenvolve na laringe, um órgão localizado no meio do pescoço, que tem a função de produzir a voz (cordas vocais) e também proteger as vias aéreas durante a deglutição (evitando que comida vá para os pulmões). Na prática de uma clínica popular, é um dos diagnósticos que mais causam apreensão no paciente, porque mexe com uma função essencial: a voz. Muitas vezes, o paciente chega dizendo: “Doutor, estou rouco faz uns dois meses, já tomei xarope e não passou”. Esse é o alerta mais comum.
No Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de laringe representa cerca de 2% de todos os cânceres, sendo mais frequente em homens acima de 50 anos, principalmente nos que fumam e bebem álcool com regularidade. A região Sul e Sudeste concentram os maiores índices, mas no Nordeste, especialmente em estados como Ceará e Pernambuco, também temos uma incidência significativa ligada ao consumo de tabaco artesanal e ao fumo de rolo. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece diagnóstico e tratamento gratuitos, com acesso a consultas com otorrinolaringologista, exames de laringoscopia e biópsia, além de cirurgia e radioterapia nas unidades de referência em oncologia.
Uma realidade que vejo no dia a dia do SUS é o diagnóstico tardio. Muitos pacientes demoram a procurar ajuda porque confundem rouquidão com “gripe que não passa” ou “problema de sinusite”. O tabagismo de longa data (mais de 20 anos) é o principal fator de risco, e o fato de muitos pacientes fumarem e beberem diariamente acelera o aparecimento do tumor. A boa notícia é que, quando detectado precocemente (estágios I e II), a chance de cura é de mais de 80%, e muitas vezes a cirurgia pode preservar a voz. Por isso, na consulta, sempre reforçamos: rouquidão por mais de 15 dias em fumante merece investigação.
Como funciona / Características
O câncer de laringe começa nas células que revestem o interior da laringe, que são chamadas de epitélio escamoso. A exposição contínua a agentes cancerígenos (como as substâncias do cigarro e do álcool) provoca mutações genéticas nessas células, que passam a se multiplicar descontroladamente, formando uma massa (tumor). Na clínica, é comum o paciente relatar que “a voz foi sumindo devagar” ou que sente “um caroço na garganta”. O tumor pode crescer para dentro da luz da laringe, obstruindo a passagem de ar (causando falta de ar e chiado) ou invadir estruturas vizinhas, como a faringe e a parte inicial do esôfago.
Uma característica importante é que a localização do tumor determina os sintomas e o tratamento. Tumores nas cordas vocais (região glótica) dão rouquidão muito cedo, o que facilita o diagnóstico precoce. Já os tumores acima das cordas vocais (região supraglótica) ou abaixo (região subglótica) podem crescer bastante antes de causar sintomas, como dor de garganta que irradia para o ouvido, dificuldade para engolir (disfagia) e emagrecimento. Nas consultas de clínica geral, quando um paciente fumante chega com esses sintomas, já pedimos encaminhamento para a otorrinolaringologia da atenção secundária do SUS. O exame padrão-ouro é a laringoscopia (direta ou indireta), que permite visualizar o tumor e colher uma biópsia para confirmar o diagnóstico.
Outro ponto que observo na prática: o estigma social. Muitos pacientes se sentem culpados por terem fumado a vida inteira, e isso pode atrasar a busca por ajuda. Sempre procuro acolher sem julgamento, explicando que o tabaco é uma dependência química reconhecida e que o tratamento está disponível, independentemente da causa. O SUS oferece inclusive o Programa Nacional de Controle do Tabagismo, com grupos de apoio e reposição de nicotina gratuita em algumas unidades.
Tipos e Classificações
A classificação mais usada no Brasil, seguindo as diretrizes do CFM (Conselho Federal de Medicina) e da ANVISA, é a baseada na localização anatômica e no tipo histológico (ao microscópio). O tipo mais comum, responsável por cerca de 95% dos casos, é o carcinoma de células escamosas (ou carcinoma epidermoide). Outros tipos menos frequentes incluem o carcinoma verrucoso (mais indolente) e os sarcomas ou tumores neuroendócrinos, que são raros.
Quanto à localização, classificamos em:
- Supraglótico: tumores acima das cordas vocais – mais agressivos, com maior risco de metástase para linfonodos do pescoço.
- Glótico: tumores nas cordas vocais – geralmente diagnosticados mais cedo devido à rouquidão precoce.
- Subglótico: tumores abaixo das cordas vocais – raros, mas de diagnóstico mais difícil.
- Transglótico: quando o tumor atravessa toda a laringe.
No Brasil, a classificação por estadiamento (TNM) é feita pelo médico oncologista usando exames de imagem como tomografia computadorizada e ressonância, seguindo as recomendações do INCA. O estadiamento vai do estágio 0 (carcinoma in situ) até o estágio IV (doença avançada com metástase). Quanto mais precoce, maiores as chances de cura com cirurgia ou radioterapia isolada.
Quando procurar um médico
O principal sinal de alerta é rouquidão persistente por mais de 15 dias, especialmente em homens fumantes acima de 40 anos. Mas não é só isso. Outros sintomas que merecem consulta imediata:
- Dor de garganta constante que não melhora com analgésicos comuns.
- Dor que irradia para o ouvido (otalgia reflexa).
- Dificuldade ou dor ao engolir (disfagia) ou sensação de “nó na garganta”.
- Emagrecimento inexplicável (perda de mais de 5% do peso em 1 mês).
- Tosse persistente ou pigarro constante.
- Chiado no peito (estridor) ou falta de ar.
- Presença de caroço no pescoço (linfonodo aumentado).
Na rede pública, o paciente deve procurar primeiro a Unidade Básica de Saúde (UBS). O clínico geral ou o médico da família avalia e, se houver suspeita, encaminha com prioridade para o otorrinolaringologista. Em clínicas populares, muitas vezes o paciente já chega com uma laringoscopia feita por conta própria, mas a orientação é sempre a mesma: não demore. O diagnóstico precoce salva a voz e a vida.
Termos Relacionados
- Laringoscopia: exame realizado com um tubo fino e câmera para visualizar a laringe; é o principal método diagnóstico.
- Biopia: retirada de um fragmento do tumor para análise laboratorial que confirma se é câncer e qual o tipo.
- Tabagismo: o ato de fumar cigarros, charutos ou cachimbos; principal fator de risco para câncer de laringe.
- Etilismo: consumo excessivo e crônico de bebidas alcoólicas; potencializa o efeito carcinogênico do tabaco.
- Radioterapia: tratamento que usa radiação para destruir células cancerosas, muito usado no SUS em estágios iniciais.
- Laringectomia: cirurgia de remoção parcial ou total da laringe; pode ser necessária em casos avançados.
- Traqueostomia: abertura cirúrgica na traqueia para permitir a respiração quando a laringe é obstruída pelo tumor ou após cirurgia.
- Estadiamento: processo de classificação da extensão do câncer (tamanho, linfonodos, metástase) para definir o tratamento.
Perguntas Frequentes sobre O que é Câncer de laringe
1. Rouquidão sempre indica câncer de laringe?
Não. A maioria das rouquidões é causada por laringite viral, refluxo gastroesofágico ou nódulos nas cordas vocais (em quem usa muito a voz, como professores e cantores). Mas a rouquidão que dura mais de 15 dias em fumante deve ser investigada. O alerta é: se você fuma ou bebe demais, não ignore a rouquidão persistente.
2. Quem tem mais risco de desenvolver câncer de laringe?
Homens acima dos 50 anos que fumam e bebem álcool regularmente têm o maior risco. Pessoas expostas ao amianto, poeira de madeira ou químicos (como na indústria) também podem ter risco aumentado. O HPV também tem sido associado a alguns casos, embora seja mais comum na orofaringe.
3. O SUS trata o câncer de laringe?
Sim, o Sistema Único de Saúde oferece todo o tratamento: consultas, exames (laringoscopia, biópsia, tomografia), cirurgia, radioterapia, quimioterapia e reabilitação fonoaudiológica. O paciente deve ser encaminhado para uma Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (UNACON) ou um Centro de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (CACON). Mais informações no site do INCA.
4. É possível preservar a voz após o tratamento?
Depende do estágio e da localização do tumor. Em tumores iniciais (estágio I e II), a radioterapia ou a cirurgia parcial (cordectomia) pode preservar a voz, embora ela possa ficar mais rouca ou fraca. Em tumores avançados, a laringectomia total remove toda a laringe e o paciente perde a voz natural, mas pode aprender a falar com a voz esofágica, com prótese traqueoesofágica ou com um laringofone. A fonoaudiologia do SUS dá todo o suporte.
5. Como prevenir o câncer de laringe?
A principal prevenção é não fumar e evitar o consumo excessivo de álcool. Manter uma alimentação saudável com frutas e legumes (ricos em vitaminas A, C e E) e controlar o refluxo também ajudam. A vacina contra HPV não previne diretamente o câncer de laringe, mas protege contra tipos virais que podem estar envolvidos em tumores de orofaringe. O melhor é adotar um estilo de vida sem tabaco.
6. O câncer de laringe tem cura?
Sim, tem altas chances de cura quando diagnosticado precocemente (acima de 80% em estádios I e II). Em estádios avançados, a cura é mais difícil, mas o tratamento pode controlar a doença e melhorar a qualidade de vida. Por isso a importância de procurar o médico com o primeiro sintoma. O diagnóstico tardio ainda é a principal causa de mortalidade no Brasil. Consulte o site do Conselho Federal de Medicina para encontrar especialistas próximos.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


