O que é O que é Câncer de medula óssea?
No meu consultório, no SUS ou na clínica popular, muitas pessoas chegam dizendo: “Doutor, estou com suspeita de câncer de medula óssea”. O termo é usado de forma ampla, mas é importante esclarecer: a medula óssea é o tecido esponjoso que fica dentro dos ossos, responsável por produzir as células do sangue – glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. Quando falamos em câncer de medula óssea, estamos nos referindo a doenças malignas que afetam essas células em sua origem. Na prática clínica, isso abrange principalmente as leucemias, o mieloma múltiplo e alguns linfomas que acometem a medula. O paciente típico chega com sintomas como cansaço extremo, palidez, sangramentos incomuns ou infecções recorrentes – sinais de que a “fábrica de sangue” não está funcionando direito.
No Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), as leucemias representam cerca de 3% de todos os casos de câncer no país, com aproximadamente 10 mil novos diagnósticos por ano. Já o mieloma múltiplo é menos frequente, mas igualmente impactante. O grande desafio nas clínicas populares e no SUS é o diagnóstico tardio: muitos pacientes demoram a procurar ajuda ou são tratados de anemia e infecções por meses antes de descobrir a causa real. Por isso, é fundamental que os médicos da atenção básica estejam atentos a sinais persistentes. O Sistema Único de Saúde oferece acesso a exames como hemograma completo e mielograma (punção da medula óssea), além de tratamento em centros de referência em hematologia. A ANVISA regula os medicamentos quimioterápicos e imunobiológicos, muitos deles fornecidos pelo SUS. O CFM estabelece diretrizes para o diagnóstico e manejo, recomendando a abordagem multidisciplinar.
É importante dizer: câncer de medula óssea não é uma doença única. É um grupo de doenças que exigem condutas diferentes. Quando um paciente ouve esse termo, frequentemente fica assustado. Minha experiência me ensinou que explicar com clareza e paciência reduz a ansiedade. No próximo tópico, vou detalhar como essas doenças se comportam no dia a dia.
Como funciona / Características
Imagine a medula óssea como uma grande fábrica que produz milhares de células sanguíneas a cada segundo. No câncer de medula óssea, uma célula anormal começa a se multiplicar descontroladamente, ocupando o espaço e atrapalhando a produção normal. No caso das leucemias, essas células cancerosas (chamadas blastos) invadem rapidamente a medula e o sangue. Um paciente que sinto no consultório – Seu José, 58 anos, pedreiro – chegou com palidez extrema, cansaço para subir escadas e hematomas que apareciam sem motivo. O hemograma mostrou leucócitos muito elevados e plaquetas baixas. A confirmação veio com o mielograma: leucemia mieloide aguda. Na prática, a doença evolui rápido e exige tratamento urgente.
Já no mieloma múltiplo, as células plasmáticas (um tipo de glóbulo branco) se tornam malignas e produzem anticorpos anormais, chamados de proteína monoclonal. Isso pode causar lesões ósseas, insuficiência renal, anemia e infecções. Dona Maria, 72 anos, aposentada, queixava-se de dores nas costas que não passavam com analgésicos comuns. Exames mostraram múltiplas lesões líticas nos ossos e uma proteína monoclonal no sangue. O diagnóstico foi mieloma múltiplo. Ao contrário das leucemias agudas, o mieloma costuma ser mais lento, mas progressivo.
Outra situação: linfoma com envolvimento da medula. Aqui, o câncer começa nos gânglios linfáticos, mas pode se espalhar para a medula. O paciente pode sentir nódulos no pescoço, axilas ou virilha, acompanhados de febre, suores noturnos e perda de peso. O diagnóstico é feito por biópsia do linfonodo e exames de medula. Na clínica popular, muitas vezes o paciente demora a procurar atendimento por achar que é “íngua normal”.
Uma característica comum a todos os tipos: a medula óssea perde a capacidade de produzir células sadias. O resultado é anemia (falta de glóbulos vermelhos, causando cansaço), leucopenia (falta de glóbulos brancos, aumentando o risco de infecções) e trombocitopenia (falta de plaquetas, provocando sangramentos e hematomas). Muitos pacientes relatam que “ficam resfriados o tempo todo” ou “sangram fácil ao escovar os dentes”. Esses sinais devem acender um alerta, especialmente quando são persistentes.
Tipos e Classificações
Dentro do que chamamos de câncer de medula óssea, a classificação mais usada no Brasil, seguindo as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do CFM, divide as doenças em três grandes grupos principais:
- Leucemias: câncer das células sanguíneas que se origina na medula. São subdivididas em agudas e crônicas, e ainda em linfoides e mieloides. Exemplos: Leucemia Linfoide Aguda (LLA, mais comum em crianças), Leucemia Mieloide Aguda (LMA, comum em adultos), Leucemia Linfoide Crônica (LLC) e Leucemia Mieloide Crônica (LMC). A classificação depende do tipo de célula afetada e da velocidade de progressão. No SUS, a estratificação de risco (por citogenética e marcadores moleculares) orienta o tratamento, que pode incluir quimioterapia, terapias-alvo e transplante de medula.
- Mieloma múltiplo: câncer das células plasmáticas na medula óssea. É classificado de acordo com o tipo de imunoglobulina produzida (IgG, IgA, etc.) e estadiado pelo sistema R-ISS (Revised International Staging System). O tratamento envolve quimioterapia, drogas imunomoduladoras, inibidores de proteassoma e, em casos selecionados, transplante autólogo de medula. No Brasil, o SUS oferece bortezomibe, lenalidomida e dexametasona, seguindo protocolos do Ministério da Saúde.
- Linfomas com envolvimento medular: tanto o linfoma de Hodgkin quanto o linfoma não Hodgkin podem infiltrar a medula óssea. A classificação de Ann Arbor é usada para estadiar. O tratamento depende do subtipo e pode ser radioterapia, quimioterapia ou imunoterapia.
Além disso, existem síndromes mielodisplásicas, que não são exatamente um câncer, mas sim doenças pré-leucêmicas da medula óssea, com risco de transformação em leucemia aguda. No consultório, o médico deve diferenciá-las para planejar o seguimento.
Quando procurar um médico
Na minha experiência, o diagnóstico precoce de câncer de medula óssea pode mudar completamente o prognóstico. Por isso, é crucial saber quando procurar ajuda. Procure uma unidade básica de saúde (UBS) ou um clínico geral se você apresentar:
- Cansaço inexplicável e progressivo: mesmo dormindo bem, você se sente esgotado, sem energia para atividades rotineiras. Pode vir acompanhado de palidez (olhe as mucosas da boca e a parte interna das pálpebras).
- Infecções frequentes ou graves: gripes que demoram a sarar, pneumonias de repetição, febre sem causa aparente.
- Sangramentos ou hematomas fáceis: sangramentos nasais, gengivais, manchas roxas (equimoses) que aparecem sem trauma, ou pequenos pontos vermelhos na pele (petéquias).
- Dores ósseas persistentes: especialmente na coluna, costelas, pelve ou ossos longos. Dores que pioram à noite ou com o movimento e não melhoram com analgésicos comuns. No mieloma múltiplo, a dor óssea é um dos principais sintomas.
- Perda de peso sem dieta e perda de apetite associados a suores noturnos (que encharcam a roupa de cama) e febre baixa.
- Ínguas (linfonodos aumentados) no pescoço, axilas ou virilha, que não diminuem de tamanho ou crescem lentamente.
Atenção: esses sintomas podem ser causados por outras condições muito mais comuns, como anemia ferropriva, infecções ou estresse. O importante é não ignorá-los, especialmente se durarem mais de duas semanas. Se você tem fatores de risco como exposição prévia a radiação ou quimioterapia, tabagismo, ou história familiar de câncer hematológico, fique ainda mais atento. O SUS disponibiliza o acesso ao especialista (hematologista) via regulação, mas muitas vezes o clínico geral pode solicitar exames iniciais como hemograma completo, eletroforese de proteínas e mielograma.
Termos Relacionados
- Leucemia: tipo mais comum de câncer de medula óssea. Dividida em aguda (rápida progressão) e crônica (mais lenta). Exemplo: Leucemia Mieloide Crônica (LMC).
- Mieloma múltiplo: câncer de medula óssea que afeta os plasmócitos, causando lesões ósseas e insuficiência renal. É mais comum acima dos 60 anos.
- Mielograma: exame de punção da medula óssea para analisar as células. Essencial para diagnosticar e classificar o câncer de medula óssea.
- Hemograma: exame de sangue que avalia glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas. Muitas vezes
Veja Também


