terça-feira, junho 9, 2026

O que é Câncer de mieloma múltiplo

O que é O que é Câncer de mieloma múltiplo?

O **câncer de mieloma múltiplo** é um tipo de neoplasia hematológica que se origina nos **plasmócitos**, células do sistema imunológico responsáveis pela produção de anticorpos. Na prática clínica do dia a dia, especialmente no SUS e em clínicas populares brasileiras, recebo frequentemente pacientes idosos – geralmente acima dos 60 anos – que chegam com queixas vagas como cansaço excessivo, dores ósseas persistentes e infecções de repetição. Muitas vezes, o diagnóstico de **mieloma múltiplo** é feito após meses de investigação, quando exames simples como hemograma, velocidade de hemossedimentação e eletroforese de proteínas no sangue revelam alterações típicas: anemia, elevação da VHS e uma “ponte” ou “pico” na região das gamaglobulinas.

Ao contrário do que muitos pensam, o **mieloma múltiplo** não é um câncer de osso, mas sim um câncer da medula óssea que provoca lesões ósseas secundárias. A doença leva à multiplicação descontrolada de um clone de plasmócitos que produz uma **imunoglobulina monoclonal** (proteína M) em grande quantidade, sobrecarregando os rins, fragilizando os ossos e prejudicando a produção normal de células sanguíneas. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam que, no Brasil, estimam-se cerca de 7.500 novos casos por ano entre 2023 e 2025, com maior incidência em homens (taxa bruta de 3,9/100.000) e em pessoas da raça negra. A idade média ao diagnóstico é de 66 a 70 anos, e a doença representa aproximadamente 1% de todos os cânceres e 10% das neoplasias hematológicas.

Na Atenção Primária à Saúde e nas clínicas populares, o grande desafio é o diagnóstico precoce. Muitos pacientes com **mieloma múltiplo** são tratados por meses como portadores de osteoporose, artrose ou lombalgia crônica, atrasando o início da terapia específica. Felizmente, o SUS oferece acesso a exames como eletroforese de proteínas e dosagem de imunoglobulinas nos laboratórios de referência, e a partir da suspeita clínica o paciente pode ser encaminhado para a hematologia. O Ministério da Saúde, por meio de Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT), estabelece critérios para o tratamento com quimioterápicos como bortezomibe, lenalidomida e dexametasona, além do transplante autólogo de medula óssea para casos elegíveis.

Como funciona / Características

O **mieloma múltiplo** começa quando um único plasmócito sofre mutações e passa a se multiplicar de forma desordenada dentro da medula óssea. Essas células doentes – os plasmócitos malignos – produzem uma quantidade enorme de um mesmo anticorpo incompleto, a **proteína M**, que pode ser detectada no sangue e na urina. Esse processo tem consequências diretas em vários órgãos e sistemas:

– **Medula óssea**: as células do mieloma ocupam o espaço onde deveriam ser produzidas as células normais do sangue, levando a **anemia** (cansaço, palidez, falta de ar), **plaquetopenia** (sangramentos) e **leucopenia** (maior risco de infecções).
– **Ossos**: as células do **mieloma múltiplo** liberam substâncias que ativam os osteoclastos, células que reabsorvem o tecido ósseo. Isso gera **lesões osteolíticas** (buracos nos ossos), visíveis em radiografias, além de dor óssea intensa, osteoporose e fraturas patológicas – especialmente na coluna, costelas, crânio e fêmur.
– **Rins**: a proteína M se acumula nos túbulos renais, causando **insuficiência renal** progressiva, muitas vezes um dos primeiros sinais da doença.
– **Sistema imunológico**: a produção excessiva de um anticorpo anormal suprime a produção de anticorpos normais, deixando o paciente vulnerável a infecções bacterianas (pneumonia, infecção urinária).
– **Sangue**: o excesso de proteína M pode aumentar a viscosidade do sangue, dificultando a circulação e levando a tonturas, dor de cabeça e até alterações visuais.

Para ilustrar: no meu consultório na periferia de Fortaleza, atendi recentemente seu Raimundo, 72 anos, aposentado, que veio com queixas de dor na coluna há meses, melhorava com anti-inflamatórios mas voltava. Ele dizia estar mais fraco e tinha tido duas pneumonias no último ano. O hemograma mostrou anemia moderada e VHS muito alta. Solicitei uma **eletroforese de proteínas séricas**, que revelou um pico monoclonal na região gamma. A partir daí, o encaminhei para o hematologista do hospital de referência do SUS, onde foi confirmado o diagnóstico de **mieloma múltiplo** estágio III pelo sistema ISS. Esse caso é típico: dor óssea inexplicável + anemia + infecções de repetição devem acender um alerta.

Tipos e Classificações

O **mieloma múltiplo** é classificado de acordo com diferentes sistemas que ajudam a determinar o prognóstico e a escolha do tratamento. No Brasil, as classificações mais utilizadas na prática clínica são:

– **Classificação de Durie-Salmon**: tradicional, baseia-se na extensão das lesões ósseas, níveis de hemoglobina, cálcio sérico e função renal. Define estágios I (baixa massa tumoral), II (intermediária) e III (alta massa tumoral). Ainda muito usada em serviços públicos.
– **International Staging System (ISS)**: mais moderna e fácil de aplicar, utiliza apenas os níveis de **beta2-microglobulina** e **albumina** séricas. Divide em I (melhor prognóstico), II e III (pior prognóstico). No SUS, é a classificada preferencial para estratificação de risco.
– **Classificação citogenética**: baseada em alterações cromossômicas das células do mieloma (como deleção 17p, translocação t(4;14), amplificação 1q). Pacientes com alto risco citogenético têm prognóstico pior e podem precisar de esquemas de tratamento mais agressivos. Esse exame é realizado em serviços de referência (hemocentros, hospitais universitários) e está disponível via SUS para casos específicos.
– **Mieloma latente (smoldering myeloma)**: condição pré-maligna em que há produção de proteína M e plasmócitos na medula >10%, mas sem sintomas ou danos a órgãos. Não requer tratamento imediato, apenas acompanhamento. Muitos pacientes são descobertos em exames de rotina ou durante avaliação de anemia.

Além disso, há subtipos raros como **mieloma não secretor**, **plasmocitoma solitário** (tumor único ósseo ou extramedular) e **leucemia de plasmócitos** (quando as células do mieloma invadem o sangue periférico). Essas variantes exigem abordagens específicas.

Quando procurar um médico

Qualquer pessoa, especialmente acima dos 50 anos, deve buscar atendimento médico se apresentar **um ou mais** dos sinais e sintomas abaixo, principalmente se forem persistentes ou incomuns:

– **Dor óssea** que não melhora com analgésicos comuns e piora à noite ou em repouso – muitas vezes na coluna, costelas, quadril ou ombros.
– **Fadiga inexplicável**, cansaço que atrapalha as atividades diárias, palidez na pele e nas mucosas.
– **Infecções frequentes** – mais de três pneumonias ou infecções urinárias no ano, ou recuperação lenta de infecções.
– **Fraqueza muscular, formigamento ou dormência** nas pernas (sinal de compressão medular por lesão vertebral).
– **Sede excessiva, boca seca e urinar à noite várias vezes** (sinais de hipercalcemia, comum no mieloma).
– **Inchaço nas pernas ou falta de ar** (podem indicar insuficiência renal).
– **Manchas roxas ou sangramentos espontâneos** (plaquetopenia).

Orientação prática: procure inicialmente a **Unidade Básica de Saúde (UBS)** – o posto de saúde do seu bairro. Lá, o médico da família pode solicitar exames iniciais (hemograma, creatinina, cálcio, eletroforese de proteínas) e, se houver suspeita, encaminhá-lo para o serviço de hematologia no SUS. Não ignore sinais persistentes – o diagnóstico precoce do **mieloma múltiplo** faz diferença na resposta ao tratamento e na qualidade de vida.

Termos Relacionados