O que é O que é Câncer de nasofaringe?
O câncer de nasofaringe é um tumor maligno que se desenvolve na parte mais alta da garganta, logo atrás do nariz e acima do céu da boca (palato). Essa região, chamada de nasofaringe, é um pequeno corredor que conecta o nariz à garganta. Embora seja um tipo raro de câncer de cabeça e pescoço, sua importância no dia a dia de uma clínica popular ou do SUS está no diagnóstico precoce, já que os sintomas iniciais muitas vezes imitam doenças comuns, como sinusite, alergias ou otites.
Na minha experiência atendendo no SUS e em clínicas populares, vejo que muitos pacientes chegam com queixas de “ouvido entupido” de um lado só, “nariz sempre tampado” ou um “caroço no pescoço que não dói”. Esses sinais, quando persistentes por mais de duas ou três semanas, acendem um alerta. A incidência no Brasil é de aproximadamente 0,5 a 1 caso por 100 mil habitantes, sendo mais frequente em homens entre 40 e 60 anos (dados do INCA). Há uma concentração maior em populações de ascendência asiática, mas com a miscigenação brasileira, o tumor aparece em qualquer perfil étnico.
No contexto do SUS, o paciente geralmente é atendido na Unidade Básica de Saúde (UBS) ou em clínicas da família, onde o clínico faz a suspeita e solicita encaminhamento para otorrinolaringologia. O diagnóstico exige exame de nasofibroscopia (uma câmera fina introduzida pelo nariz) e biópsia, procedimentos disponíveis nos serviços de média complexidade. A ANVISA regula os equipamentos e materiais, e o Ministério da Saúde mantém protocolos de tratamento baseados em evidências, com radioterapia e quimioterapia disponíveis em centros de oncologia habilitados. Ainda há dificuldades de acesso, especialmente em regiões Norte e Nordeste, onde a distância dos grandes centros pode atrasar o diagnóstico. Por isso, a atuação do clínico na primeira consulta é fundamental para evitar que o tumor seja confundido com uma simples inflamação.
Como funciona / Características
O câncer de nasofaringe começa quando células da mucosa que reveste essa região sofrem alterações genéticas e passam a se multiplicar sem controle. Ao contrário de outros tumores de cabeça e pescoço, ele está fortemente associado à infecção pelo vírus Epstein-Barr (EBV) – o mesmo vírus da mononucleose. Outros fatores de risco incluem tabagismo, consumo excessivo de álcool e exposição a vapores de madeira ou produtos químicos, comum em trabalhadores de marcenarias e fábricas. Na minha prática, já atendi pacientes que trabalharam anos em serralherias ou que fumavam dois maços por dia; o histórico ocupacional e o hábito de fumar são perguntas obrigatórias na anamnese.
Como o tumor cresce em um espaço pequeno e com muitos gânglios linfáticos próximos, ele tende a invadir rapidamente os linfonodos do pescoço. É por isso que um “íngua no pescoço” é um dos primeiros sinais. Outro mecanismo comum é o bloqueio da tuba auditiva (que liga o ouvido médio à garganta), causando otite serosa unilateral do adulto. Na clínica, isso aparece como sensação de ouvido cheio, diminuição da audição de um lado e, às vezes, dor ao engolir. O paciente pode achar que é “sinusite” e usar descongestionantes por semanas sem melhora; quando finalmente procura o posto, a secreção já está até mais clara, mas o desconforto no ouvido persiste. Muitos são encaminhados ao otorrino após a terceira tentativa de tratamento para rinite.
O crescimento tende a ser agressivo, mas com boa resposta à radioterapia se diagnosticado nos estágios iniciais. Infelizmente, no Brasil, mais da metade dos casos já chega com comprometimento de linfonodos (estágio II ou III), o que torna o tratamento mais complexo e exige combinação de químio e radioterapia. A conscientização dos clínicos – e dos próprios pacientes – sobre os sinais de alerta é a chave para mudar essa realidade.
Tipos e Classificações
Segundo a classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS), adotada no Brasil pelos serviços de patologia, o câncer de nasofaringe é dividido em três tipos histológicos principais, que influenciam o prognóstico e a abordagem terapêutica:
- Carcinoma de células escamosas queratinizante (tipo I): mais comum em regiões de baixa endemicidade e em pacientes acima de 60 anos. Relaciona-se ao tabagismo e álcool, sendo menos associado ao EBV. O prognóstico é um pouco pior que os outros tipos.
- Carcinoma de células escamosas não queratinizante (tipo II): fortemente ligado ao EBV. Pode ser diferenciado (com melhor prognóstico) ou indiferenciado (tipo III). No Brasil, é a forma mais frequente, especialmente em pacientes jovens e adultos de meia-idade.
- Carcinoma indiferenciado (tipo III): também chamado de linfoma-like ou carcinoma linfoepitelial, pela grande quantidade de linfócitos ao redor. É altamente associado ao EBV. Tem boa resposta à radioterapia, mas maior tendência a metástases à distância (pulmão, fígado, ossos).
A classificação por estágios (I a IV) segue o sistema TNM (Tumor, Linfonodos, Metástases), usado nos laudos de estadiamento para definir o tratamento. O SUS adota os mesmos critérios internacionais, e a decisão terapêutica é discutida em reuniões de equipe multidisciplinar (oncologista, radioterapeuta, otorrino, patologista) nos hospitais de referência.
Quando procurar um médico
O clínico geral da atenção primária deve orientar o paciente a procurar atendimento se apresentar qualquer um dos seguintes sinais por mais de duas a três semanas, especialmente se forem unilaterais:
- Nódulo (íngua) no pescoço indolor, que não melhora com antibiótico.
- Obstrução nasal persistente de um lado só, com ou sem secreção com sangue.
- Sensação de ouvido tampado ou perda auditiva de um ouvido, principalmente em adultos que não têm histórico de infecções de ouvido.
- Dor de garganta que não passa ou dor ao engolir, com mau hálito.
- Sangramento nasal frequente ou secreção amarelada/esverdeada com raias de sangue.
- Perda de peso involuntária, febre baixa e cansaço inexplicado.
- Mudança na voz (rouquidão) ou dificuldade para abrir a boca (trismo).
Na prática da clínica popular, muitos pacientes esperam “ver se melhora” ou tratam com remédios caseiros. O médico deve reforçar que, caso os sintomas persistam, o encaminhamento ao otorrinolaringologista é urgente. A nasofibroscopia é o exame padrão-ouro, e a biópsia define o diagnóstico. O SUS oferece esse exame por regulação; em cidades maiores, a fila pode levar de duas a quatro semanas, mas o clínico pode acelerar o processo com uma nota de alerta para a suspeita de neoplasia.
Termos Relacionados
- Nasofibroscopia: exame realizado com um endoscópio flexível introduzido pelo nariz para visualizar a nasofaringe. É o primeiro passo diagnóstico quando há suspeita de tumor.
- Biópsia: retirada de um pequeno fragmento do tecido suspeito para análise patológica. Confirma o diagnóstico e define o tipo histológico.
- Epstein-Barr (EBV): vírus associado ao desenvolvimento do câncer de nasofaringe, especialmente nos tipos não queratinizantes. A presença de anticorpos contra o EBV pode ser usada como marcador tumoral.
- Radioterapia: tratamento que utiliza radiação para destruir as células cancerosas. No câncer de nasofaringe, é a principal modalidade, muitas vezes combinada com quimioterapia.
- Quimioterapia: uso de medicamentos que atuam em todo o corpo para eliminar células tumorais. Indicada em estágios avançados ou junto com a radioterapia.
- Linfonodo cervical: gânglio linfático localizado no pescoço. O aumento desses gânglios (linfonodomegalia) é o sinal mais comum do câncer de nasofaringe.
- Estadiamento: processo que determina a extensão do tumor (tamanho, invasão de linfonodos e presença de metástases). Usa-se o sistema TNM, fundamental para planejar o tratamento.
- Cuidados paliativos: abordagem multidisciplinar para aliviar sintomas e melhorar a qualidade de vida de pacientes com doença avançada, incluindo controle da dor, suporte nutricional e psicoterapia.
Perguntas Frequentes sobre O que é Câncer de nasofaringe
O câncer de nasofaringe tem cura?
Sim, dependendo do estágio em que é diagnosticado. Tumores localizados (estágios I e II) têm altas taxas de cura, acima de 80% com tratamento adequado. Infelizmente, no Brasil, muitos casos chegam ao diagnóstico em estágios mais avançados (III e IV), quando a doença já se espalhou para os gânglios do pescoço. Mesmo nesses casos, o tratamento combinado com radioterapia e quimioterapia pode levar à cura em cerca de 50% a 70% dos pacientes. O acompanhamento regular é essencial por pelo menos cinco anos.
O que causa o câncer de nasofaringe?
A principal causa é a infecção pelo vírus Epstein-Barr (EBV), que está presente em praticamente todos os casos do tipo não queratinizante. No entanto, a infecção por EBV é muito comum (90% dos adultos têm o vírus latente), então outros fatores são necessários para o desenvolvimento do tumor. Entre eles: tabagismo, consumo excessivo de bebida alcoólica, exposição ocupacional a vapores de madeira, formaldeído ou poeira, e fatores genéticos. A combinação de EBV ativo e hábitos de risco aumenta substancialmente a chance.


